Fórum de Davos quer “esverdear” economia mundial

O “esverdeamento” da economia mundial é parte fundamental da agenda do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) para o enfrentamento da crise sistêmica global. A proposta esteve no centro de grande parte das discussões travadas na 43ª. reunião anual do WEF, mais conhecido como Fórum de Davos, realizada entre 23 e 27 de janeiro, no tradicional resort alpino suíço.

Já anteriormente ao evento, o WEF divulgou o chamado “Relatório dos Riscos Globais 2013”, o qual coloca o “fracasso da adaptação às mudanças climáticas diante do aumento das emissões dos gases de efeito estufa” em segundo lugar na lista dos principais riscos de importância sistêmica nos próximos dez anos, atrás apenas de uma grande quebra do sistema financeiro internacional. A inclusão de um pseudoproblema, cuja falta de base científica se torna cada vez mais evidente, em uma listagem de desafios globais, denota tanto uma desorientação como uma intenção de preservação da estrutura de interesses estabelecidos em torno da “descarbonização” da matriz energética mundial, que envolve valores na casa das centenas de bilhões de dólares.

Durante o encontro, foi apresentado o “Relatório de Investimentos Verdes”, elaborado pelo WEF e a Aliança de Ação para o Crescimento Verde (G2A2, na pitoresca sigla adotada). Esta última é integrada por grandes empresas de energia e outros setores, instituições financeiras, multilaterais, governamentais e privadas, com o objetivo de promover investimentos em “energia limpa, transportes, agricultura e outros investimentos em crescimento verde”. Entre os seus membros, destacam-se a Samsung, Enel, Vestas Wind Systems, Deutsche Bank, Bank of America Merrill Lynch, KfW e outros, que atuam em parceria com organismos multilaterais, como a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e os governos do G-20.

Em especial, a Aliança propõe a adoção de ações em cinco áreas prioritárias, nos próximos anos:

– promover o livre comércio em bens e serviços “verdes”;

– consolidar uma robusta precificação do carbono;

– acabar com subsídios ineficientes e outras formas de apoio aos combustíveis fósseis;

– acelerar as inovações de “baixo carbono”; e

– aumentar os esforços para orientar o financiamento público para a alavancagem de investimentos privados.

O documento afirma que “o esverdeamento do crescimento econômico global é a única maneira de satisfazer as necessidades da população atual e de 9 bilhões de pessoas, em 2050, promovendo o desenvolvimento e o bem-estar e, ao mesmo tempo, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa e aumentando a produtividade dos recursos naturais”. Seguindo os prognósticos catastrofistas prevalecentes sobre a dinâmica climática, o texto afirma que o fracasso deste esforço implicaria nas desastrosas conseqüências de um aumento global de até 4oC nas temperaturas – número que até mesmo alguns alarmistas já abandonaram.

Segundo o relatório, a dimensão das oportunidades oferecidas, principalmente para o setor privado, se mostra nos 70 trilhões de dólares que deverão ser dispendidos em infraestrutura, em todo o mundo, até 2020.

Curiosamente, o documento ressalta que um elemento chave desse processo terá que ser um aumento nos investimentos em tecnologias energéticas “limpas”, que possam se manter sem subsídios públicos e se mostrem capazes de atrair investidores institucionais. O grande problema, precisamente, é que as tecnologias até agora disponíveis – eólica, solar etc. – somente se sustentam com pesados subsídios governamentais, motivo pelo qual, somado à sua ineficiência intrínseca, têm causado sérios problemas aos países que passaram a integrá-las como parte substancial da geração elétrica de base, como a Alemanha, Espanha, Reino Unido e outros.

Por ironia, as discussões da “agenda verde” do Fórum se travam ao mesmo tempo em que o mercado de carbono europeu desaba aos níveis mais baixos de sua história, levando muitos a questionar seriamente a sua viabilidade a médio e longo prazos. E enquanto um número crescente de industriais europeus começa a considerar a transferência de suas unidades fabris para países com menores custos energéticos, inclusive os EUA, onde a rápida expansão do uso do gás de folhelhos (shale gas) promove uma redução desses custos e se impõe como uma nova opção tecnológica que não pode ser desconsiderada – para desgosto dos adeptos da “descarbonização”.

Não obstante, aparentemente, ainda será preciso mais que uma sequência de invernos rigorosos, como os que têm atingido o Hemisfério Norte nos últimos anos, além de outra década de temperaturas estáveis, para esvaziar o ímpeto da agenda “descarbonizadora”, na qual tantos recursos humanos e financeiros já foram investidos. Enquanto isso, continuaremos a conviver com essas propostas disfuncionais e desvinculadas da realidade.

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