Falta de sentido de projeto provoca desalento civilizatório no Ocidente

Crescentemente dominadas por agendas “identitárias”, as nações ocidentais e influenciadas pelo Ocidente estão às voltas com um sério surto de desalento e depressão cultural, em contraste com o florescimento eurasiático puxado pela rápida ascensão da China e o retorno da Rússia ao primeiro plano das potências mundiais. O fenômeno se reflete no estudo da consultoria internacional Ipsos sobre o desalento de uma boa parte da população mundial com a situação das suas sociedades e sistemas de representação política, que teve ampla repercussão mundial. O estudo, intitulado “Sentimento de sistema partido em 2021: populismo, antielitismo e nativismo” (tradução livre, disponível em inglês), baseou-se em uma pesquisa via Internet com 19 mil pessoas entre 16 e 74 anos, em 25 países, e os números não são abonadores para as elites dirigentes da maioria deles, acusadas de perseguir apenas os seus próprios interesses.

Em média, 71% dos entrevistados consideram que as economias são viciadas para favorecer os ricos e poderosos; 68%, que os partidos e políticos tradicionais não se importam com pessoas “como eu”; 65%, que os especialistas não entendem as vidas das pessoas comuns; 64% querem “um líder forte para recuperar o país dos ricos e poderosos”; e 44%, “um líder forte disposto a quebrar as regras”.

Dos cinco países com índices mais altos de insatisfação, sem surpresa, quatro são ibero-americanos – em ordem decrescente: Colômbia, Peru, Brasil, Chile e África do Sul. E os brasileiros levam a medalha de ouro na modalidade crença de que seu país está em declínio, com 69%, seguidos por um empate triplo de 68% entre o Chile, Argentina e África do Sul, e a Colômbia levando o bronze, com 67%. Os outros países ibero-americanos na lista são o Peru (59%) e o México (48%), ficando à frente apenas da Alemanha (47%), Canadá (43%), Coreia do Sul (41%) e Austrália (36%).

As elites dirigentes saem muito mal da pesquisa. Em média, 70% dos entrevistados concordam com a afirmativa de que a principal divisão na sociedade é aquela entre as pessoas comuns e as elites políticas e econômicas, com o Brasil registrando 76% (o campeão é o Chile, com 84%). E 72% afirmam que as elites políticas e não se importam com as pessoas que trabalham duro (no Brasil, 82%). Na média dos 25 países, apenas 14% dos entrevistados afirmaram identificar-se com as elites nacionais (18% no Brasil).

Quanto à percepção de falta de representatividade dos sistemas políticos, 60% afirmaram que os assuntos políticos mais importantes de seus países deveriam ser decididos diretamente pela população, por meio de referendos, e não pelos políticos eleitos (Brasil – 70%).

A contundência dos números sinaliza um dilema crucial das sociedades ocidentais e das que adotaram as linhas de desenvolvimento influenciadas pelo Ocidente: a perda de perspectiva de um futuro positivo e de um sentido de propósito coletivo das sociedades, ou seja, de um projeto civilizatório. Evidentemente, os motivos variam em cada país, mas os níveis de falta de identificação com as elites dirigentes e a representatividade das instituições políticas são bastante sugestivos da dimensão da crise civilizatória com a qual se debate o Ocidente. Crise decorrente do esgotamento de dois processos que marcaram a época que vive os seus estertores.

O primeiro é o sistema econômico liberal surgido da Revolução Inglesa de 1688, da qual emergiu o sistema de bancos centrais privados “independentes” dos governos nacionais, hoje refletido no esgotamento do “modelo anglo-americano”, com a perda da hegemonia militar dos EUA, a esterilidade de um sistema financeiro convertido em um fim em si próprio, crescentemente desvinculado da economia real, e o culto de um individualismo extremado, formando um conjunto descompromissado com o Bem Comum.

O segundo, o sistema de representação política inspirado pelo Iluminismo da Revolução Francesa de 1789, base das instituições políticas nominalmente democráticas que se afastam cada vez mais dos princípios de uma representação efetiva da cidadania.

Os números da pesquisa devem ser avaliados com a devida cautela, pois não são índices matemáticos objetivos, assim como não são os índices de transparência, corrupção e outros, criados por organizações vinculadas ao Establishment oligárquico anglo-americano e suas agendas hegemônicas. Não obstante, eles manifestam uma característica universal de uma mudança de época que olha para o passado com um evidente pessimismo cultural e aponta para um sintoma de grande risco para qualquer sociedade: a perda de confiança no futuro – fator que esteve presente na derrocada de todas as grandes civilizações históricas, sendo tão ou mais importante do que qualquer fator externo a elas.

Por outro lado, a despeito dos seus sistemas políticos diversos, a China e a Rússia (apesar de esta figurar na pesquisa em colocações não muito favoráveis) se empenham em converter o eixo eurasiático no novo centro de gravidade geoeconômico e geopolítico do planeta, em um marco de cooperação não-hegemônica para um padrão de desenvolvimento produtivo compartilhado.

Este sentido de projeto está por trás da emergência da China como a maior potência econômica do planeta e impele a grande capacidade científica, tecnológica e militar da Rússia, que lidera na aplicação de novos princípios físicos à tecnologia militar e assegura a sua supremacia estratégica, a despeito de ostentar um orçamento de defesa inferior a um décimo do dos EUA.

O mesmo vale para a Índia, que, mesmo sem emular o sucesso da China no combate à pobreza de sua enorme população, tem dado passos importantes para que tal meta seja atingida em um futuro não muito remoto.

De forma significativa, ambos os gigantes asiáticos investem pesadamente em educação, pesquisa, desenvolvimento e inovação. E as suas capacidades se mostram, entre numerosas áreas, nos respectivos programas espaciais, cujas façanhas os colocam no mesmo plano das suas contrapartes ocidentais e, em vários casos, as superam. E é emblemático que, no Ocidente, o aspecto mais visível dos esforços espaciais seja uma corrida de bilionários para efetuar voos “turísticos” de relevância um tanto questionável – um pálido reflexo do vibrante impulso do Projeto Apolo das décadas de 1960-70.

Neste particular, é de grande relevância que os EUA e a Europa Ocidental recuperem o seu próprio sentido de projeto civilizatório, que já legou importantes avanços à humanidade.

Quanto ao Brasil, o desalento nacional foi tema de um editorial do jornal O Estado de S. Paulo de 2 de agosto (“O desalento dos brasileiros”). Tratando-se do órgão representante da elite oligárquica brasileira, o texto não admite nada parecido com uma autocrítica: “Os brasileiros têm alguma razão (sic) em não se sentirem senhores dos destinos do País. O custo da cidadania – ou seja, de pensar e agir como membro de uma comunidade – parece ser alto demais para muitos que aqui vivem, como se o retorno do Estado e da sociedade para o esforço individual do cidadão não fosse perceptível. Há muitos cidadãos que não se sentem representados em suas angústias e aspirações por instituições como a imprensa, os partidos políticos, os governos e outras esferas de representação. Nada menos do que 82% dos brasileiros ouvidos pela Ipsos afirmaram que ‘a elite política e econômica não se importa com pessoas que trabalham duro’. Para 80%, a economia é ‘manipulada para favorecer os mais ricos e poderosos’.”

Para os editorialistas do “Estadão”, o grande problema não é a ausência absoluta de um projeto nacional de desenvolvimento, mas o risco do “populismo”: “Não haverá futuro auspicioso para o Brasil enquanto parcelas expressivas da sociedade se deixarem capturar pela falácia do discurso populista, irresponsável, desagregador, seja qual for o seu corte ideológico. A solução para reverter os problemas de fundo do País – e, consequentemente, a péssima imagem que os brasileiros têm do Brasil – passa por um caminho diametralmente oposto à via tortuosa do populismo, o resgate da cidadania e das instituições republicanas.”

Desafortunadamente, o vetusto diário paulista não oferece qualquer resposta para o desafio do resgate da cidadania e das instituições republicanas, além da referência negativa indefinida ao “populismo”. Na realidade as conceitos do Estadao sao parte da crise que contamina as elites ocidentais.

Assim, atrevemo-nos a sugerir o que seria minimamente necessário para um projeto nacional capaz de reverter o desalento brasileiro: um conjunto de políticas públicas que não seja centrado no serviço da dívida pública, no qual as rubricas orçamentárias para educação, saúde, infraestrutura, pesquisa e inovação, sejam consideradas investimentos no futuro do País, em vez de meros gastos limitados por tetos e outros artifícios destinados a desviá-los para o “Sistema da Dívida”. Que sejam orientadas por uma sinergia entre Estado e iniciativa privada, visando aos interesses coletivos da sociedade, por exemplo, para elevar a indústria e a economia como um todo aos patamares superiores de qualificação exigidos pela dinâmica global. E, acima de tudo, a retomada da ideia-força de um projeto de futuro inclusivo e solidário, que possa dar sentido pleno às vidas da população cidadã e qualifique o Brasil para atuar como coprotagonista relevante da mudança de época global em curso, em cooperação e sintonia com os demais países da Ibero-América, criando um contraponto positivo à emergência do eixo eurasiático.

A alternativa a isso é mergulhar em um pântano anticultural, como o que ameaça as nações andinas.