Europa vê ressurgimento do nacionalismo

Syriza-Podemos-Mark-Lowen

A Europa experimenta um visível ressurgimento do nacionalismo. Em toda parte, observa-se um “cansaço” da cidadania em geral com os rumos das políticas públicas nacionais, cada vez mais subordinadas aos ditames da burocracia da União Europeia (UE) e, em última análise, à agenda especulativa da alta finança “globalizada”, que há tempos deixou de apoiar a economia real, mas tem se empenhado em controlar fatias crescentes dela.

Em uma entrevista à rede de televisão russa RT, o cientista político José Ignacio Torreblanca, professor da Universidade Nacional de Ensino à Distância (UNED) de Madri e colunista do jornal El País, observa que o fenômeno representa uma “translação ou a substituição” do tradicional eixo de embates entre esquerda e direita, para ele, “uma relíquia da Guerra Fria”:

Esse eixo já não funciona e tem que ser substituído por um eixo que seja, internamente, povos contra as elites, povos contra a casta, suas oligarquias e governos e, externamente, as nações contra as instituições supranacionais (RT, 19/02/2015).

Torreblanca afirma que a defesa dos interesses nacionais está produzindo uma “igualdade entre forças de extrema esquerda e direita”, como as boas vindas da presidente da Frente Nacional francesa, Marine Le Pen, à vitória do partido Syriza nas recentes eleições gregas.
“Todos eles também são admiradores da Rússia de [o presidente Vladimir] Putin, porque representa esses valores soberanistas, de defesa do interesse nacional e de confrontar uma ordem multilateral”, disse ele.

Para Torreblanca, a União Europeia (UE) “está submetida a múltiplos desafios, tanto externos como internos”, e existem “visões muito contraditórias sobre eles”. Porém, afirma, “uma nova geração na política vai tomar a dianteira”, embora não se saiba “se essa visão europeia aberta ao mundo se sustentará, frente aos que tentam fechá-la e rompê-la”.

Marine Le Pen na Veja: “dumping social” é ameaça

Em uma interessante coincidência, a entrevistada das “Páginas Amarelas” da revista Veja da semana passada foi, exatamente, Marine Le Pen. Para os conhecedores dos interesses representados pelo semanário da família Civita, poder-se-ia esperar uma coleção de perguntas capciosas, como de fato ocorreu, mas a entrevista proporcionou aos leitores brasileiros uma oportunidade singular para travar contato com a ampla defesa do Estado nacional e suas instituições, feita por Le Pen, que respondeu às “pegadinhas” da jornalista Nathalia Watkins com uma firmeza e objetividade incomuns entre os políticos da sua estatura, e que não se via na França desde os tempos de Charles de Gaulle. Sem surpresa, ela foi definida como sendo “fortemente estatizante, antiamericana, protecionista e nacionalista” – rótulo que representa um autêntico anátema para a corrente ideológica representada pela revista. A seguir, reproduzimos alguns trechos relevantes da entrevista:

Podemos chamá-la de líder da extrema direita francesa?

A Frente Nacional não é um partido de extrema-direita. Somos uma organização patriota, que preza o Estado-nação, o nacionalismo econômico, a independência diplomática em relação aos Estados Unidos e defende uma imigração controlada. Na França, a esquerda e a direita desenvolveram uma mesma e frouxa política. São responsáveis pelos mesmos números elevados de imigração. Por isso, a divisão entre esquerda e direita aqui não existe. É uma miragem. A verdadeira separação é aquela entre os que defendem a nação, como nós, e os que, em benefício do comércio global, advogam o desaparecimento das nações, a abolição das fronteiras e o fim das identidades nacionais. (…)

A senhora é favorita nas pesquisas de intenção de voto para o pleito de 2017. Qual seria a sua primeira medida como presidente da França?

Devolver aos franceses seus direitos, sua soberania. Hoje, ela está com a UE, nossos direitos foram retirados. Não controlamos nossas fronteiras. Nosso orçamento e nossas leis são inferiores àqueles impostos pelos tecnocratas europeus. Quero o poder para devolvê-lo ao povo. Para isso, pretendo organizar um referendo sobre a saída da UE, que é um modelo totalitário.

Que dados justificariam a saída da França da UE?

Um dos continentes mais ricos do mundo está falido. Isso começou com o euro. O desemprego e a pobreza explodiram. Nossas economias estão em crise. As políticas de austeridade criaram um sofrimento imenso. Hoje a UE é sinônimo de guerra. O conflito na Ucrânia, as disputas em Kosovo, a luta econômica que coloca os povos uns contra os outros e elimina direitos sociais. Isso criou o que chamo de “dumping social”, que agora se torna também ambiental e monetário.

O que é exatamente “dumping social”?

É a eliminação dos direitos sociais locais que exacerba a concorrência entre os trabalhadores, produzindo um efeito do qual apenas algumas multinacionais se aproveitam.

Não foi justamente o fim dos nacionalismos e do protecionismo econômico, dois pilares da UE, que garantiu tantas décadas de paz na Europa?

Isso é uma grande mentira. Foi a paz que permitiu a construção da UE, não o contrário.

Então, o que produziu a paz, na sua opinião?

Foram a vontade das nações e o aprendizado com os erros das guerras do passado que evitaram novos conflitos. Na Ucrânia, o que está acontecendo hoje é resultado da influência americana. Para defenderem seus interesses, os Estados Unidos mostraram-se dispostos a lançar uma guerra no seio da Europa, depois de terem feito o mesmo por todo o Oriente Médio. (…)

Seria melhor que os Estados Unidos não fizessem nada?

Eles deveriam parar de tentar ser os policiais do mundo.

Se os Estados Unidos não ajudarem, como os ucranianos poderão se defender?

Como não há agressão, não há do que se defender. São os ucranianos que estão bombardeando parte de sua população civil. O resultado das conversas diplomáticas deve incluir a federalização da Ucrânia, mas para isso é preciso um compromisso de que Kiev não se junte à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Isso é desejo dos americanos, que querem, por meio da OTAN, abrir frentes até a fronteira russa, o que é inadmissível para Moscou.

O papel da OTAN não seria impedir ou pelo menos retardar o expansionismo de Putin?

A OTAN não tem razão de existir. Depois do fim da União Soviética, essa entidade deveria ter sido dissolvida. Em vez disso, ela se tornou uma arma nas mãos dos Estados Unidos. A Rússia e Vladimir Putin, por outro lado, não têm nenhuma pretensão expansionista. Só o que fazem é responder a uma agressão dos americanos em sua zona de influência econômica. (…)

Nicolás Maduro, na Venezuela, também fala, a exemplo da senhora, em defesa dos interesses nacionais, mas os resultados são desastrosos. A senhora admira esse pessoal? (sic)

Uma nação precisa preservar sua identidade econômica e fazer escolhas que são do interesse do povo. Olhe só a questão da indústria do aço na França. Um país grande como o nosso, com uma grande indústria de armamentos, não pode depender de uma multinacional estrangeira e fundos de investimentos multinacionais para esse setor. O Estado tem de ter em suas mãos os setores essenciais para seu desenvolvimento. É preciso independência alimentar, energética e militar. (…) Quando uma empresa estratégica está nas mãos de um país como o Catar, que financia o fundamentalismo islâmico, nossa nação fica vulnerável.

Hugo Chávez era um político de esquerda. Qual é a sua opinião sobre ele?

Chávez tinha uma posição política totalmente oposta à da Frente Nacional. Mas vale refletir que os americanos há muito tempo demonizam seus adversários. Separam o mundo entre bem e mal. Isso pode funcionar para crianças, mas não para pessoas que pensam com o livre arbítrio, que julgam os fatos a partir de um ponto de vista mais inteligente e equilibrado. (…)

A senhora concorda que, no passado, o período de bonança econômica da Europa se deveu aos imigrantes?

Não, absolutamente. A França acolheu imigrantes europeus em uma proporção razoável, e eles foram assimilados completamente pela cultura do nosso país. Nos anos 1970, a pedido dos patrões das maiores empresas, a França aceitou um fluxo massivo de imigrantes com o objetivo único de forçar a diminuição dos salários. Foi uma manobra para reduzir os custos das empresas e repassá-los ao povo. O resultado foi que o sistema social francês teve que acolher os imigrantes sub-remunerados, e a pobreza e o desemprego continuaram intactos.

Deportar imigrantes é uma solução?

Primeiro, é preciso interromper a imigração. A assimilação na Europa tem sido um fracasso total. A situação econômica não permite receber as pessoas nas condições desejáveis. Precisamos mostrar isso e, assim, reduzir a atratividade do nosso país junto às populações pobres que têm a intenção de vir para cá.

Não é difícil imaginar a surpresa e o desconforto da entrevistadora – que, certamente, será compartilhado por muitos leitores habituais da revista – diante de tantas respostas contrárias às posições e pontos de vista geralmente difundidos pela grande mídia internacional e brasileira. De qualquer maneira, mesmo sem se concordar totalmente com a líder da Frente Nacional, é um alento constatar que uma firme defensora do Estado nacional soberano poderá, no futuro próximo, estar à frente de uma das grandes potências mundiais.

4 comments

  1. Existe uma filosofia politica acerca a figura da “ferradura” – onde esquerda e direita inclinam no mesmo rumo. Hoje tem nome de “populismo nacionalista” e esta na nova proganda de Washington contra governos “independentes” que favorecem a concordancia nacional no centro politico, sem “lutas ideologicas” nem da direita (exemplo Ayn Rand), nem da esquerda (exemplo Trotsky). Mas nao e preciso olhar para Europa: Na Nicaragua, no Equador, a na Bolivia de hoje (de hoje agora! ) e posivel observar o pragmatismo centrista, nacionalista e independista. (Dilma procura o mesmo rumo!) O problema na Europa da OTAN e que a maioria dos politicos estao alugados ou ameacados por EUA para funcionar como “parceiros”. E a midia na Europa, como no Brasil, esta financiada por EUA ou “parceiros” alugados de EUA. Exemplo “El Pais” de Espanha pertenece a PRISA e o interes maioritario de PRISA pertenece a “Liberty Acquistions Holdings” um “hedge fund” de bilionarios tipo “Bilderberg” nos EUA. Para confundir, “El Pais” a vezes publica um comentario “independente” e fora da propaganda, mas “El Pais” e um organo de propaganda geopolitica ao servico dos intereses de EUA.(“Veja” parece adotou a estrategica com a entrevista de LaPen) — Na Alemanha, pedra central na Europa continental (junta com Franca) – existe um onda de nacionalismo independista que se expresa contra a imigracao islamica como ameaca contra o “Occidente europeo” , mas no profundo tambem contra o dominio geopolitico desde EUA. Obviamente EUA e a midia controlada por EUA favorecem a imigracao de islamistas para assim estimular a necessidade de “parceiria de seguranca” do mundo “Occidental” contra os “extremistas islamistas”. Mesmo como existem na America Latina e no Brasil grupos de “extrema esquerda” ou “anarquistas” sutilmente estimulados por agentes da “esquerda (falsa)” de Alemanha (origem dos “black bloc”) : Para fazer medo ao centro politica e assim favorecer os “salvadores” desde a direita (entreguista) e a para refugio na “security partnership” con el “hemisphere security leader”… : O jogo dos EUA (e Bretanha) e sofisticado.

  2. Por trás de todas essas crises, na Europa e no continente Sulamericano, existem grupos empenhados no encolhimento e até a destruição dos Estados Nacionais soberanos. O objetivo é impor um governo mundial para o benefício de poucos. Todas ou quase todas as crises incluindo as grandes guerras foram com esse objetivo. É preciso que se entenda a natureza do problema para combatê-lo. Mariana Le Pen colocou o dedo na ferida. O grupo mdos Bilderberg trabalha para esse fim a mais de sessenta anos movimentando recurssos humanos e financeiros que dariam para acabar a pobreza e promover a paz. Em 1950 o banqueiro Paul M Warburg disse: ” Quer queiramos ou não, teremos um governo mundial. A única questão é se será com comsentimento ou por imposição”., Dependerá de nós se vamos consentir..

  3. Gostaria da opinião de vocês: Fechar as portas da Europa para a imigração, é a solução para evitar a expansão do Islamismo radical no Continente (Europa)?

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