EUA: desorientação espacial com emergência do mundo multipolar

O desespero e a histeria do núcleo “neoconservador” das elites dirigentes dos EUA com a rápida erosão da sua hegemonia global, que vão se consolidando em um virtual processo de desorientação espacial diante da progressiva consolidação de um quadro de poder multipolar e cooperativo, colocado em marcha pela aliança estratégica China-Rússia em torno da integração física e econômica da Eurásia, ficam evidenciados na sucessão de ameaças e sanções disparadas de Washington, nas últimas semanas.

O sucesso do segundo Fórum da Iniciativa Cinturão e Rota, realizado em Pequim, no final de abril, provocou fortes abalos em Washington. Enquanto o presidente chinês Xi Jinping recebia 38 chefes de Estado e de governo, inclusive de aliados estadunidenses da União Europeia (UE) (Resenha Estratégica, 01/05/2019), em casa, a diretora de Planejamento de Políticas do Departamento de Estado, Kiron Skinner, descrevia a rivalidade EUA-China como um inusitado “choque de civilizações” com uma “potência não-caucasiana”.

“Na China, nós temos um competidor econômico, temos um competidor ideológico, que realmente busca um alcance global que muitos de nós não esperávamos há duas décadas”, disse ela, em um seminário sobre segurança, em 29 de abril (Washington Examiner, 30/04/2019).

Skinner é líder de uma força-tarefa que desenvolve uma estratégia de relações EUA-China baseada no conceito de “potência não-caucasiana”, inspirada na estratégia de contenção da União Soviética estabelecida em 1947 pelo diplomata George Kennan, seguida durante toda a Guerra Fria. A mais recente edição da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA já contempla uma era de “competição de grandes potências”, considerando tanto a China como a Rússia como “potências revisionistas”, ou seja, contestadoras da hegemonia estadunidense.

A resposta chinesa veio prontamente, na Conferência sobre o Diálogo de Civilizações Asiáticas, em Pequim (15-17/05), que reuniu representantes de 47 nações asiáticas e de fora da região, inclusive, novamente, europeias. Na abertura, o anfitrião Xi afirmou que “os desafios globais cada vez mais intensos enfrentados pela humanidade requerem esforços concertados de países de todo o mundo”, ressaltando a necessidade de quatro aspectos para um futuro compartilhado para a Ásia e toda a humanidade: tratar os outros com respeito e como iguais; apreciar a beleza de todas as civilizações; aderir à abertura, inclusão e aprendizado mútuo; e manter o passo com a época (Xinhua, 17/05/2019).

“A História diz que perseguir a superioridade do próprio povo e cultura de cada um causa grandes tragédias à humanidade. Os princípios do respeito mútuo e do tratamento igual deveriam ser seguidos por todos, para fazer frente aos nossos desafios comuns”, fez coro com o italiano Luigi Gambardella, presidente da ChinaEU, uma associação empresarial sediada em Bruxelas.

Outros representantes europeus e de países asiáticos fizeram declarações semelhantes.

Por outro lado, o governo de Donald Trump escalou a guerra comercial que trava com Pequim, um nível acima da aplicação mútua de tarifas de importações, ao proibir empresas estadunidenses de atuar com a gigante chinesa Huawei, a maior fornecedora de equipamentos para redes e telecomunicações do mundo e líder no desenvolvimento da tecnologia 5G. O pretexto alegado, sem surpresa, é a clássica “ameaça à segurança nacional” – talvez, porque os smartphones da Huawei utilizem um nível de criptografia que dificulta extremamente a sua interceptação pelas agressivas agências de inteligência estadunidenses, começando com a notória NSA (Agência de Segurança Nacional). Com isto, três grandes empresas estadunidenses ficarão impedidas de fornecer seus produtos à Huawei – Intel e Qualcomm (semicondutores) e Google (sistema operacional Android) –, mas a gigante chinesa já informou que está desenvolvendo o seu próprio sistema operacional, que estará disponível até o final do ano, além de já dispor de uma subsidiária para a produção de chips, a HiSilicon. Igualmente, vale lembrar que a vice-presidente financeira da empresa, Meng Wanzhou, filha do seu presidente e fundador, Ren Zhengfei, está presa no Canadá desde o ano passado, a pedido dos EUA, podendo ser extraditada para o país.

A investida contra a Huawei é parte de uma feroz disputa sobre a tecnologia 5G, cuja desvantagem os EUA pretendem compensar com as sanções. Não obstante, o tiro pode acabar saindo pela culatra, caso a empresa chinesa consiga substituir por produção própria os itens que atualmente adquire de empresas estadunidenses.

E o prejuízo poderá ser ainda maior, com os EUA transmitindo ao mundo a imagem de um parceiro comercial não confiável, como afirma o economista Richard Wolff, professor emérito da Universidade de Massachusetts. Segundo ele, “aqui está um exemplo terrível de erro de cálculo dos EUA, que é muito similar ao erro de cálculo da guerra de tarifas. Você está ensinando ao resto do mundo a não confiar em fazer negócios com os EUA (RT, 22/05/2019)”.

Outro confronto escolhido a dedo por Washington é contra o Irã. Neste caso, além de já estarem em vigor as sanções totais contra quaisquer empresas que fizerem negócios com o país persa utilizando dólares, o Pentágono enviou ao Golfo Pérsico dois grupos de batalha de porta-aviões e bombardeiros B-52, enquanto o arquibelicista conselheiro de Segurança Nacional John Bolton fala em enviar 120 mil homens para a região. Embora, em parte, a mobilização faça parte da rotação regular de tais forças, ela tem uma clara intenção provocativa, esperando algum incidente que justifique uma ação militar retaliatória.

Por outro lado, de acordo com o jornalista Pepe Escobar, do Asia Times Online, fontes diplomáticas russas e iranianas lhe confirmaram a realização de conversações secretas entre a Rússia, China e Irã, envolvendo garantias das duas superpotências, caso “o ímpeto do Governo Trump para estrangular Teerã até a morte tome o pior rumo imaginável (Asia Times, 15/05/2019)”.

Ademais, Teerã tem condições de infligir direta e indiretamente sérios danos a uma eventual força naval atacante e à infraestrutura militar estadunidense e dos aliados dos EUA no Golfo Pérsico, inclusive a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e, até mesmo, Israel. De modo que, sanções à parte, qualquer ação militar contra o Irã não parece ser uma boa opção.

O lado positivo, destacado por Escobar, envolve uma longa conversa de 90 minutos de Trump com o presidente russo Vladimir Putin, iniciativa da Casa Branca, seguida por uma visita do secretário de Estado Mike Pompeo a Sochi, onde se reuniu com seu colega Sergei Lavrov e com o próprio Putin. Na agenda, uma nova reunião entre os dois presidentes, na cúpula do G-20 em Osaka (28-29 de junho). Apesar de outras tentativas de reaproximação frustradas, é sabido que Trump não compartilha da ojeriza anti-russa dos “neoconservadores” que dominam a política externa estadunidense e, em função da assertividade crescente do Kremlin no teatro eurasiático, pode ser que o seu propalado espírito de negociador o instigue a marcar posição nessa área crucial, até agora terceirizada aos ultrabelicistas do naipe de Bolton, Pompeo e caterva, afastando-se da linha de confrontação permanente fomentada por eles.

Sem dúvida, uma atitude dessas estaria em sintonia com os melhores interesses dos próprios EUA, e o resto do mundo respiraria aliviado.

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