EUA: declínio e exacerbação do “excepcionalismo”

HILLARY-TRUMP

A corrida presidencial nos EUA, que, aparentemente, caminha para uma definição das candidaturas da senadora Hillary Clinton pelos democratas e do bilionário Donald Trump pelos republicanos, constitui uma demonstração explícita da dificuldade de as elites dirigentes do país aceitarem a emergência de um cenário global multipolar, no qual a superpotência estadunidense terá cada vez mais de levar em conta os interesses de outros países, em lugar da imposição unilateral da sua agenda hegemônica, a sua marca registrada no período pós-Guerra Fria.

Todos os pré-candidatos têm se esmerado em fazer a sua profissão de fé no decantado “excepcionalismo” estadunidense, a crença na superioridade intrínseca do país sobre os demais integrantes do orbe, o que lhe asseguraria o “direito” e a “obrigação” de moldar o mundo de acordo com os seus desígnios – inclusive, manu militari. Neste quesito, Clinton e os senadores republicanos Ted Cruz e Marco Rubio (que acaba de retirar-se do páreo, após ser derrotado por Trump em seu estado, a Flórida) têm se mostrado seguidores quase insuperáveis do mantra “excepcionalista”.

Por outro lado, o inesperado desempenho do senador democrata Bernie Sanders e de Trump reflete um “cansaço” de uma parcela crescente da sociedade estadunidense com as agendas dos dois partidos, nas quais não veem correspondência com os problemas cotidianos que interessam à maioria da cidadania. Embora nenhum dos dois represente uma ruptura com o status quo, o mero fato de estarem questionando o intervencionismo militar que tem marcado a política externa de Washington os colocou na mira dos arautos dos setores mais belicosos do Establishment. Como Sanders não parece representar uma ameaça decisiva a Clinton, as baterias se voltam para Trump, levando os famigerados “neoconservadores” a criticá-lo ferozmente e se alinharem em massa com Clinton.

Em sua coluna de 4 de março no Washington Post, emblematicamente intitulada “Será o fim do Ocidente como o conhecemos?”, a jornalista Anne Applebaum sintetizou os receios dos “senhores da guerra” da capital estadunidense, dos quais é um dos principais arautos:

(…) Estamos diante da possibilidade real da indicação presidencial de Donald Trump no Partido Republicano, que que significa que temos que levar a sério a possibilidade de um presidente Trump. (…) Isto significa que, em janeiro próximo, poderemos ter na Casa Branca um homem que é totalmente desinteressado no que os presidentes Obama, Bush, Clinton, Reagan – bem como Johnson, Nixon e Truman – chamavam “os nossos valores compartilhados”. Trump tem defendido a tortura, deportações em massa e discriminação religiosa. Ele se jacta de que “não se importaria muito” se a Ucrânia fosse admitida na OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte]; ele não se interessa pela OTAN e por suas garantias de segurança. Sobre a Europa, ele escreveu que ‘os conflitos deles não valem vidas estadunidenses. Retirar-nos da Europa economizaria para este país milhões de dólares anualmente’. De qualquer maneira, ele prefere a companhia de ditadores à de outros democratas. “Você pode fazer acordos com aquela gente”, disse ele sobre a Rússia. “Eu teria uma grande relação com Putin.”

No New York Times, em sua coluna de 14 de março, o economista Paul Krugman oferece uma explicação para o “fenômeno Trump”:

(…) Deixemos de lado essa ficção de que o fenômeno Trump representa algum tipo de intrusão imprevisível no curso normal da política republicana. Ao contrário, o partido passou décadas incentivando e explorando a própria raiva que, agora, está levando o Sr. Trump à indicação. Cedo ou tarde, essa raiva estava destinada a sair de controle do Establishment. Donald Trump não é um acidente. O seu partido preparou a sua chegada.

Ou seja, para Applebaum e seus correligionários, o problema com Trump não é representado pela sua notória intolerância étnica e religiosa, os seus discursos hidrófobos contra imigrantes hispânicos e muçulmanos, mas o questionamento ao pilar central do intervencionismo “excepcionalista”, que, por sua vez, representa a principal justificativa para a existência do monumental “complexo de segurança nacional” e os seus estreitos vínculos com a indústria petrolífera e o sistema financeiro de Wall Street – em suma, o coração do poderio oligárquico estadunidense. Em realidade, seja qual for o desfecho da eleição, será uma disputa entre cultores de uma mesma visão do mundo, talvez, com matizes diferenciados, mas de caráter fundamentalmente supremacista.

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