Establishment anglo-americano incomodado com “poder suave” russo

RT in action

Desde há algum tempo, os altos círculos do Establishment anglo-americano têm demonstrado uma irritação crescente com o grande sucesso que a Federação Russa vem obtendo em contraarrestar a sua belicista e provocativa agenda de cerco estratégico, com a arma “suave” da informação. De fato, por intermédio de agências como a rede de televisão RT, Sputnik News (a antiga Novosti), rádio Voice of Russia e outras, que oferecem em vários idiomas uma cobertura jornalística razoavelmente objetiva dos acontecimentos, em especial, os que envolvem a Rússia, Moscou tem logrado atingir audiências cada vez maiores em todo o mundo e, principalmente, nos países ocidentais engajados na agenda anti-russa anglo-americana.

Por isso, não admira que o Establishment tenha passado recibo do seu incômodo, com o artigo de Peter Baker e Steven Erlanger, “Rússia usa dinheiro e ideologia para combater sanções ocidentais”, publicado no New York Times de 7 de junho e reproduzido em vários jornais de outros países, entre eles o brasileiro O Globo (9/06/2015). Os autores não são quaisquer profissionais: Baker é correspondente do jornal na Casa Branca e Erlanger, chefe da sucursal de Londres. São, portanto, integrantes da elite jornalística encarregada de orientar a cobertura midiática de acordo com as visões e interesses dos altos círculos do poder.

Assim, iniciam o artigo afirmando que o conflito na Ucrânia não está sendo travado apenas com tanques, artilharia e tropas, já que “Moscou tem mobilizado diferentes tipos de armas, de acordo com funcionários de governo estadunidenses e europeus: dinheiro, ideologia e desinformação [sic]”.

Segundo eles, “o objetivo do Kremlin parece ser o de semear divisões, desestabilizar a União Europeia e, possivelmente, fraturar o que até agora tem sido um consenso relativamente unificado, embora às vezes frágil, contra a agressão russa [sic]”.

O estilo é caracteristicamente cabotino, usando afirmativas atribuídas a anônimos “funcionários de governo” para acusar a Rússia de utilizar “desinformação” e pretender “desestabilizar a União Europeia” (sua principal parceira comercial, mesmo com as sanções impostas pelo bloco), além de “agressão” contra a Ucrânia.

Adiante, o texto cita um recente discurso do vice-presidente estadunidense Joseph Biden, no qual acusou o Kremlin de estar “trabalhando duro para comprar e cooptar forças políticas europeias, financiando partidos antissistêmicos [sic] tanto de extrema-direita como de extrema-esquerda, em toda a Europa… o presidente [Vladimir] Putin vê tais forças políticas como instrumentos úteis a serem manipulados, para criar fraturas no corpo político europeu, que ele possa, então, explorar”.

Os autores afirmam que “esta é uma conclusão compartilhada pelo governo britânico”.

Em outra passagem, eles investem diretamente contra a estratégia midiática russa, citando nominalmente a rede RT, que vem sendo uma autêntica pedra no sapato para os anglo-americanos:

Há alguns anos, a Rússia tem pago inserções patrocinadas pelo governo em jornais e sítios de internet, em 26 países (inclusive no New York Times). Mais recentemente, ela tem proposto a expansão da RT, a sua rede internacional de televisão, que transmite em inglês e três outras línguas [na verdade, quatro – n.e.] e se delicia em apontar as fraquezas do Ocidente aos franceses e alemães [de fato, a rede chega a mais de 100 países – n.e.].

Pena que eles não tenham incluído qualquer menção à Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade (RFE/RL), criada pela Agência Central de Inteligência (CIA) e o Departamento de Estado, no final da década de 1940, para travar uma guerrilha radiofônica contra a então União Soviética, no âmbito da Guerra Fria, e que mesmo após a implosão da URSS continuou operando com o mesmo nome. Proibida de receber fundos da CIA, em 1972, desde então, a rádio tem sido financiada com recursos especiais do Congresso estadunidense.

Baker e Erlanger prosseguem, acusando Putin de usar dinheiro para “tentar orientar os eventos no Ocidente”, citando como exemplo a contratação do ex-chanceler alemão Gerhard Schröder (1998-2005) pela estatal russa Gazprom. Em contraste, mencionam a recusa do então presidente George W. Bush (2001-2009) de permitir que o ex-secretário de Comércio Donald Evans aceitasse uma oferta semelhante.

Quanto ao uso de dinheiro para “tentar orientar eventos”, efetivamente, os cidadãos interessados tiveram que recorrer a fontes como a RT, a iraniana Press TV e à blogosfera em geral, para saber, por exemplo, que o governo dos EUA, como afirmou a notória subsecretária de Estado Victoria Nuland, gastou 5 bilhões de dólares na Ucrânia para “ensinar” valores democráticos aos ucranianos, após a independência do país, em 1992. A maior parte desse dinheiro foi canalizada por meio das redes da Fundação Nacional para a Democracia (NED, na sigla em inglês), para uma pletora de organizações não-governamentais ucranianas, das quais várias participaram das operações de desestabilização do governo do presidente Viktor Yanukovich, no início de 2014, origem da atual crise no país. Além da Ucrânia, a NED participou ativamente das “revoluções coloridas” ocorridas em outros países da antiga URSS e na ex-Iugoslávia.

Voltando ao artigo, os autores admitem que a Rússia

parece estar ganhando terreno, ultimamente, em países como a Grécia, Hungria, República Checa e, até mesmo, Itália e França… fazendo causa comum com forças de extrema-direita rebeladas contra a ascensão da União Europeia, que têm simpatia com os ataques do Sr. Putin ao que chama o declínio moral do Ocidente.

Como exemplo, citam a Frente Nacional francesa, liderada por Marine Le Pen, e o Partido da Liberdade austríaco. Não obstante, a principal característica que ambos compartilham é uma visão nacionalista da política, rejeitando a submissão da formulação das políticas nacionais aos ditames de Bruxelas, quase invariavelmente alinhados à agenda anglo-americana.

Em um artigo publicado em 15 de maio (sintetizado pela agência Sputnik para quem não domina servo-croata), o cineasta sérvio Emir Kusturica deu uma explicação sobre a influência da RT no “arsenal suave” russo:

Os programas são transmitidos em inglês e vistos por cerca de 700 milhões de pessoas em 200 países. O segredo do sucesso dessa televisão é que está esmagando os estereótipos de Hollywood e da CNN sobre mocinhos e bandidos, onde negros, hispânicos, russos e sérvios são os vilões e os estadunidenses brancos, onde quer que se olhe, são ok.

A análise prossegue, implacável:

[O secretário de Estado John] Kerry e os congressistas estão incomodados com o fato de que a RT envia sinais de que o mundo não é determinado pelo fatalismo do capitalismo liberal, que os EUA estão levando o mundo ao caos, que a Monsanto não está produzindo alimentos saudáveis, que a Coca-Cola é ideal para limpar latarias de automóveis e não para os estômagos humanos, que o mapa social dos EUA está se desagregando a cada dia, que as digitais da CIA estão na crise ucraniana e que a [empresa de mercenários] Blackwater, e não os ativistas da Praça Maidan, disparou contra a polícia ucraniana.

Em contraste, as transmissões da CNN asseguram que desde a década de 1990 os EUA têm encabeçado ações humanitárias, em vez de guerras, e que o que caem dos aviões militares são anjos e não bombas.

Com o tempo, a RT irá desmistificar ainda mais o Sonho Americano e revelará em horário nobre a verdade que tem sido escondida durante décadas dos olhos e corações dos estadunidenses médios, em suas próprias casas e em inglês perfeito, ainda melhor que o usado na CNN.

Ao que parece, um número crescente de cidadãos-espectadores de todo o mundo concorda com ele.

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