Batalha da Grécia: vitória de Pirro para o “Sistema da Dívida”

Atenas-protestos-AP

A esmagadora vitória do “Oxi” (não) no referendo grego de 5 de julho não teve o peso suficiente para que o premier Alexis Tsipras pudesse resistir às brutais pressões dos seus pares europeus, sendo forçado a aceitar um humilhante acordo para manter seu país na zona do euro, em condições ainda mais draconianas do que as da proposta anterior que havia motivado a convocação da consulta popular.

Em benefício de Tsipras, que protagonizou uma das mais humilhantes capitulações já impostas a um chefe de governo em tempos de paz, deve-se registrar que ele se viu na mira de uma barragem de chantagens não apenas inusitada mas que, dificilmente, se poderia imaginar provir de líderes políticos da civilizada Europa, principalmente, da chanceler alemã Angela Merkel, a mais intransigente de todos.

Uma reportagem do Washington Post expõe o abissal nível de moralidade ao qual desceram Merkel, o presidente francês François Hollande e o presidente do Conselho Europeu, o polonês Donald Tusk, em seu ensandecido afã de punir a Grécia pela audácia de ameaçar o “Sistema da Dívida”. Referindo-se às repercussões da capitulação de Tsipras junto aos seus próprios correligionários do partido Syriza, o jornal revelou:

As manobras estão fomentando um profundo sentido de ressentimento entre os aliados de Tsipras e uma convicção de que os europeus buscavam humilhá-lo. Durante uma reunião pivotal com Merkel, Hollande e Donald Tusk, em dado momento, Tsipras recebeu uma pouco velada ameaça de que, se saísse [das negociações] e deixasse o euro, a Grécia correria o risco de ficar sozinha, também em termos geopolíticos. De acordo com dois funcionários em Bruxelas a par da conversa, foi levantado o espectro de uma agressão da Turquia – uma nação vizinha vista na Grécia como um antagonista histórico (Washington Post, 13/07/2015).

Recorde-se que a Grécia e a Turquia são integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e, portanto, tecnicamente aliadas.

A agressividade dos negociadores da União Europeia (UE) foi confirmada pelo ex-ministro da Fazenda Yanis Varoufakis, que renunciou logo após o referendo, para “facilitar” as negociações, já que era considerado persona non grata em Bruxelas. Em uma contundente entrevista à revista inglesa The New Statesman (que reproduzimos integralmente a seguir), Varoufakis criticou o que chamou “a total falta de escrúpulos democráticos dos supostos defensores da democracia europeia”, que concordavam na avaliação do diagnóstico e da solução racional para a crise grega, mas, “ao mesmo tempo, nos olhavam na cara e diziam: ‘Vocês estão certos, mas vamos esmagá-los de qualquer maneira.'”

Não foram poucos os comentaristas que consideraram a submissão da Grécia como uma autêntica vitória de Pirro para a UE. O editorial do jornal canadense The Globe and Mail de 13 de julho sintetiza com precisão o que parece ser uma percepção generalizada, exceto em Bruxelas e Frankfurt, onde se tomam as decisões financeiras da UE:

A total situação grega não é sustentável. E uma situação que não é sustentável, eventualmente, não se sustentará mais. Em algum momento, alguma coisa irá ceder. Durante sete anos, foram os governos gregos – e de países europeus, da Irlanda a Portugal e à Espanha – que cederam e choramingaram. Por causa disto, todos estão em situação pior. A Europa ficou em uma situação ruim. A Alemanha teve a sua vitória grega; cedo ou tarde, é provável que ela se revele uma vitória pírrica.

Para complicar, o Fundo Monetário Internacional (FMI), que integra a detestada “Troika” junto com o Banco Mundial e a Comissão Europeia, também considera que a crise grega necessitará de um remédio diferente da sangria da “austeridade”. Na terça-feira 14, a agência Reuters vazou trechos de um relatório sigiloso do Fundo, enviado aos governos da zona do euro na véspera, horas após o anúncio do acordo assinado com Tsipras, reconhecendo a necessidade de se conceder à Grécia um “alívio da dívida em uma escala que precisaria ir muito além do que está em consideração até agora [o corte de 30% proposto por Tsipras – n.e.]”.

Além disso, na avaliação do FMI, seria necessário um período de 30 anos para o serviço de toda a dívida grega com governos e investidores europeus, inclusive os novos empréstimos, e uma “extensão bastante dramática dos prazos de vencimento”.

O estudo afirma que, sem isso, a dívida grega saltaria dos atuais 177% do PIB para quase 200%, nos próximos dois anos, e ainda em 2022 estaria no nível de 170%. Ademais, observa, poucos países conseguiram sustentar durante algumas décadas um superávit orçamentário de 3,5% do PIB, como se espera da Grécia.

Mesmo com a aprovação do acordo pelo Parlamento de Atenas, a tragédia grega está muito longe do fim e os próximos capítulos poderão ser ainda mais dramáticos.

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