Putin – um mundo de cooperação sem vassalos

Ao contrário dos seus pares das principais potências ocidentais, o presidente russo Vladimir Putin costuma discorrer sobre políticas e ações reais, em vez de meras figuras de retórica que são prontamente contrariadas pela realidade. Um exemplo desta categoria foi o célebre discurso de Barack Obama na Universidade Al-Azhar do Cairo, em 2009, no qual prometeu – e jamais concretizou – “um novo começo” para as relações dos EUA com o mundo árabe.

Como já havia feito na Assembleia Geral das Nações Unidas, em seu discurso na reunião anual do Clube Internacional de Debates de Valdai, em 22 de outubro, Putin não se melindrou em destacar alguns elementos cruciais para o equacionamento da crise estratégica criada pela obstinação de Washington e seus aliados-vassalos com a preservação da sua hegemonia global. Agenda cujos desastrosos resultados podem ser vistos no Grande Oriente Médio, no Norte da África e, não menos, na Europa, com a onda de refugiados que tentam fugir da destruição imposta aos seus países.
No evento, cujo tema foi “As sociedades entre a guerra e a paz: superando a lógica do conflito no mundo de amanhã”, Putin transmitiu uma poderosa mensagem sobre a necessidade de o mundo trocar de vez a confrontação pela cooperação, como norma básica de relacionamento entre as nações e como forma de enfrentamento dos grandes desafios mundiais, a começar pela busca de uma paz duradoura.
Citando o grande escritor Leon Tolstói, autor de Guerra e Paz, para quem a guerra contraria a razão e a natureza humana, Putin afirmou que, com o surgimento das armas nucleares, “ficou claro que não poderia haver um vencedor em um conflito global” e que o único resultado seria uma “destruição mútua garantida”. Por isso, em uma evidente crítica aos seus colegas atuais, louvou os líderes mundiais das décadas de 1950 a 1980, que tratavam “o uso da força armada como uma medida excepcional” e, neste sentido, “agiam com responsabilidade, pesando todas as circunstâncias e consequências possíveis”.
Para ele, a paz nunca vem por si mesma e os períodos de paz na história europeia e mundial sempre se basearam na preservação de equilíbrios entre as forças existentes, como ocorreu com a Paz de Westfalia, no século XVII, o Congresso de Viena de 1817 e em Yalta, ao final da II Guerra Mundial, “quando os vitoriosos da luta contra o nazismo tomaram a decisão de criar a Organização das Nações Unidas e estabelecer os princípios das relações entre os Estados”.
O líder do Kremlin enfatizou que o mundo precisa fazer uma escolha “em favor da cooperação, do respeito e da confiança mútuos, a escolha em favor da paz”. E a solução para o conflito na Síria “pode se tornar um modelo de parceria em nome de interesses comuns, resolvendo problemas que afetam a todos e desenvolvendo um sistema efetivo de gerenciamento de riscos”. Por exemplo, é hora de que todos entendam que o Estado Islâmico é um “inimigo da civilização” e precisa ser combatido por todos, sem jogos duplos sobre inexistentes terroristas “moderados”. Para tanto, a comunidade internacional precisa coordenar as suas ações com a população síria, a quem caberá, em última instância, decidir o destino do seu país.

Ademais, após a derrota do terrorismo, será preciso desenvolver um mapa do caminho para o desenvolvimento econômico e social da região, restaurar a infraestrutura básica, moradia, hospitais e escolas. Somente esse tipo de trabalho criativo no local, após a eliminação do terrorismo e a obtenção de um acordo político, poderá deter o enorme fluxo de refugiados para as nações europeias e fazer retornar os que deixaram a sua pátria. Está claro que a Síria necessitará de uma maciça assistência financeira, econômica e humanitária, para curar as feridas da guerra.

Putin afirmou que considera natural que os Estados tenham os seus próprios interesses, e que a História sempre foi marcada pela competição entre nações e suas alianças. Porém, ressaltou, “o principal é assegurar que essa competição ocorra dentro do marco de normas e regras fixas, nos campos político, legal e moral. Caso contrário, a competição e os conflitos de interesses podem provocar crises agudas e explosões dramáticas”.
Como exemplo, citou as “tentativas de se promover um modelo de dominação unilateral”, que provocou “um desequilíbrio no sistema de direito internacional e regulações globais, o que significa que há uma ameaça de que a competição política, econômica ou militar saia de controle”. O recado para Washington não poderia ser mais claro.
Outro tópico a merecer atenção foi o crescente uso da propaganda como instrumento político:

Nos últimos 25 anos, o limite para o uso da força tem sido consideravelmente reduzido. A imunidade antiguerra que havíamos adquirido após duas guerras mundiais, que tínhamos em um nível subconsciente e psicológico, se enfraqueceu. As próprias percepções da guerra mudaram: para os espectadores de televisão, ela se tornou um entretenimento midiático, como se ninguém morresse em combate, como se as pessoas não sofressem e se cidades e Estados inteiros não fossem destruídos. Infelizmente, a terminologia militar está se tornando parte da vida cotidiana. Assim, as guerras comerciais e sanções se tornaram parte da atual realidade econômica global… Enquanto isso, as sanções também são usadas, frequentemente, como instrumentos de competição desleal, para pressionar ou eliminar os competidores dos mercados. Como exemplo, eu poderia usar a epidemia de multas impostas pelos EUA a empresas, inclusive europeias. (…) É assim que se tratam aliados? Não, é assim que se tratam vassalos que se atrevem a atuar como desejam – eles são punidos pelo mau comportamento.

Na mesma linha, ele criticou a recém-anunciada Parceria Transpacífica (TPP):

Também vemos o processo de criação de blocos econômicos não transparentes, feito praticamente seguindo-se todas as regras de uma conspiração. O objetivo é óbvio: reformatar a economia mundial de uma forma que possibilitaria se extrair lucros maiores da dominação e da disseminação de normas de regulamentação econômicas, comerciais e tecnológicas. A criação de blocos comerciais pela imposição dos termos dos atores mais fortes, claramente, não deixaria o mundo mais seguro, mas criaria apenas bombas relógio e condições para futuros conflitos.

Independentemente do que se pense a seu respeito, Putin está sinalizando que o mundo está diante de uma encruzilhada decisiva: não há mais como se tolerarem as pretensões hegemônicas da oligarquia dirigente de Washington, que representam uma séria ameaça à paz mundial e à perspectiva de que cada nação possa estabelecer o melhor curso para o seu progresso. A alternativa é renunciar à dignidade de cada uma e assumir abertamente a condição de vassalos.

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