No Chile, ideólogos do terror indigenista disseminam conflitos com mapuches

As violentas ações realizadas em nome de uma pretendia autonomia da etnia mapuche no Chile, instigadas pelas redes “etnonacionalistas” internacionais, estão no seu auge. Com o enfrentamento, cada vez mais radical, estabeleceu-se uma zona de terror nas regiões de Araucanía e Bío Bío. A área em convulsão se encontra na estratégica Patagônia, região rica em recursos naturais compartilhada entre o Chile e a Argentina. Como a comunidade mapuche se espalha por ambos os países, o panorama se agrava ainda mais, com o estabelecimento, por parte do indigenismo radical, de uma escalada de tensões transfronteiriças.

A fúria desatada pelos líderes da “autonomia mapuche” data de 2014, mas tem se agravado este ano, resultando, inclusive, na destruição de igrejas por incêndios criminosos. A situação levou o governo da presidente Michelle Bachelet a pedir ajuda à Igreja Católica, para que se organize uma mesa de diálogo. De acordo com a entidade católica Ajuda à Igreja que Sofre, 15 igrejas foram incendiadas na região, das quais 12 católicas e três evangélicas, sendo que 11 ataques ocorreram desde janeiro deste ano. As ações violentas dos militantes mapuches, também, afetaram alguns seminários católicos. Curiosamente, 55% dos mapuches na região são católicos e outros 37% são evangélicos, pelo que cabe a pergunta: a quem e por que interessa fomentar tal instabilidade em Araucanía? Por esta razão, monsenhor Héctor Eduardo Vargas Bastida, bispo da capital regional, Temuco, incumbido da responsabilidade de chefiar as negociações com as partes afetadas, enfatizou que não se descarta que os líderes dos grupos radicais mapuches sejam elementos estranhos à região.

O bispo se referiu tacitamente à Coordenadoria Arauco-Malleco (CAM), organização que está à frente das ações violentas contra empresas florestais, pequenos produtores e empresas hidrelétricas da região, ainda que não seja o único grupo responsável a praticar tais atos. Com uma ofensiva ao estilo do sanguinário grupo narcoterrorista peruano Sendero Luminoso, a CAM se dedica a disseminar o terror, provocando incêndios em maquinaria agrícola, plantações e até nas casas dos agricultores, a grande maioria dos quais instalados nessas áreas há gerações. O seu objetivo é a recuperação territorial das terras que dizem ser de sua propriedade ancestral, com a finalidade de criar uma “nação mapuche”.

Desde o surgimento da Coordenadoria, em 1998, tal objetivo tem sido defendido explicitamente. Em uma reportagem da agência brasileira Adital, de 14 de abril de 2005, registra-se que, em declarações ao jornal chileno La Tercera (4/04/1999), um dirigente da CAM afirmou, em anonimato: “Para a entidade, a primeira  etapa de luta é a recuperação de 200 mil hectares de terra usurpadas por empresas florestais nas províncias de Arauco e Malleco. (…) Nesse território libertado, pretendemos reconstruir espaços para desenvolver a nossa cultura e cosmovisão, o sentimento de pertencer à terra e começar a reconstruir a nação mapuche.”

Ainda que os dirigentes da CAM neguem a sua autoria na destruição de igrejas, um comunicado publicado pelo site biobiochile.cl, em 16 de abril deste ano, é revelador da sede de vingança que estimula o seu modus operandi. A nota diz que um grupo de pelo menos dez encapuzados armados com escopetas chegou até o fundo da floresta de Mininco, onde incendiaram equipamentos agrícolas pertencentes à empresa Besalco. Foram encontrados panfletos e um comunicado da CAM, no qual o ataque foi justificado, “dentro de um projeto político-estratégico anticapitalista”. O comunicado foi emitido por Órgãos de Resistência Territorial (ORT) da CAM, e ainda afirma o seguinte:

Kiñe. – Reivindicamos, como ORT-CAM Lafkenche Leftraru, a nossa ação de sabotagem, realizada hoje, sábado, 16 de abril, durante a madrugada, contra a empresa Besalco, que se encontrava trabalhando no prédio Tres Sauces de Forestal Mininco, no setor de Cayucupil, Cañet, na província de Arauco. Consistindo em três pneumáticos Bell, uma máquina colhedora e um caminhão guindaste, além de diversas máquinas danificadas.

Epu. – Queremos enfatizar que as nossas ações se encontram dentro de um projeto político estratégico anticapitalista, portanto qualquer de suas expressões, seja florestal, hidroelétrica ou mineradora, serão sabotadas com o objetivo de serem expulsas de nosso território. Reivindicamos o Weichan como nosso caminho de dignidade e autonomia, assumindo a nossa responsabilidade como pu weichafe de reconstruir, recuperar e resistir”.

Kula. – indicar que não compartilhamos a queima de igrejas, pois consideramos que não apontam para o problema estrutural, mas só fazem aprofundar a política repressiva e deslegitimam a nossa luta digna. Portanto, é importante desenvolver uma estratégia de resistência e sabotagem que dê destaque para as nossas ações e seja um real aporte no nosso processo de reconstrução nacional.

Ao final, uma declaração de guerra: “Fora as [empresas extrativistas] florestais, as hidrelétricas e todo o investimento capitalista do território mapuche!”

Se a CAM nega as suas ações contra as igrejas, em outras ocasiões, os seus membros admitiram que elas podem ter sido efetuadas por alguma célula dissidente. É certo que, dentro da estrutura de comando que exige a criação de um enclave mapuche, da qual a CAM é a parte mais visível e violenta, crescem outros tentáculos com vida própria, que podem se tornar “lobos solitários” inspirados na sua propaganda de ódio étnico-racial.

Por exemplo, no último dia 30 de maio, o periódico argentino La Crónica anunciou que havia sido detidos em seu território, em uma localidade da Patagônia, dois terroristas dirigentes da Resistência Ancestral Mapuche ( RAM), acusados de participar da operação denominada Tormenta de Fogo, em Araucanía, precisamente a região dominada pela CAM.

Uma região autônoma mapuche é o denominador comum de uma extensa rede indigenista-ambientalista internacional, que, por meio de poderosas ONGs, dão legitimidade à causa, a qual tem sido apresentada até mesmo nos foros específicos das Nações Unidas. Em particular, a sua radioatividade se irradia a partir da Europa, de onde se comanda uma bem afinada campanha de propaganda. Emblemática desta atividade febril é a ONG Mapuche Nation, sediada em Bristol, Inglaterra, e apoiada, entre outras, pela Christian Aid, uma das entidades que integram a rede do Conselho Mundial de Igrejas. Ao mesmo tempo, os militantes da denominada “Antropologia da Ação”, que se instalaram em toda a Ibero-América, têm defendido a causa da autonomia mapuche como o único movimento de rebelião indígena que resta em todo o continente, desde que o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) no México foi atomizado.

A herança “senderista”

Não surpreende que entre as novas vítimas do terror etnonacionalista se encontre a Igreja Católica. O “justiçamento” de religiosos era também uma das barbaridades cometidas pelo Sendero Luminoso, grupo terrorista peruano que só foi superado em grau de violência pelo atual Estado Islâmico (EI), em suas perseguições contra as minorias cristãs na região do Oriente Médio. Recentemente, o documentário polonês A Life is Never Wasted (Uma vida nunca é desperdiçada), do diretor Krzystof Tadej, vencedor da categoria Melhor Documentário do Festival Internacional de Cinema Católico, revelou os pormenores do assassinato dos missionários franciscanos poloneses Michael Tomaszek e Zbigniew Strałkowsk, pelos terroristas peruanos.

O acontecimento foi narrado pelo então diretor da missão católica, que teve a sorte de escapar do massacre: “A ordem franciscana queria reforçar a sua presença missionária na América Latina com a ocasião do 500° aniversário da evangelização do continente. Decidiu-se abrir uma nova missão em Pariacoto, na diocese de Chimbote. Viajamos no dia 3 de novembro de 1988.”

Explicando porque os religiosos estavam na mira do Sendero, ele disse: “As pessoas, em vez de seguir a eles e à sua ideologia, preferiam colaborar com a missão. Paradoxalmente, os franciscanos foram acusados de fazer o bem (davam de comer às pessoas) e, por isso, de frear a raia do povo e de desacelerar a revolução. Fomos acusados de ser mandados pelo (Papa) João Paulo II e pela CIA (Agência Central de Inteligência), de proclamar a Deus quando, para eles, a religião era o ópio do povo. Assassinando aos sacerdotes, queriam expressas também o seu ódio contra a Igreja e o Papa, que, aos seus olhos, mantinham o sistema imperialista no mundo.”

Para o Sendero Luminoso, o inimigo que se colocava contra a criação de uma nação indígena era tudo o que representasse a civilização ocidental. Esta foi a ideologia que foi colocada na cabeça dos seus dirigentes – professores oriundos da Universidade de Huamanga -, pelos antropólogos e sociólogos da Escola de Altos Estudos da Universidade de Paris, justamente onde também estudou sanguinário líder do Khmer Vermelho cambojano, Pol Pot.

O Sendero Luminoso foi resultado do laboratório do indigenismo, que criou no Peru a Sociedade dos Americanistas, entidade da Antropologia francesa que, já na década de 1930, recomendava a criação de reservas indígenas na América do Sul. Nos anos 1960, um dos filhos prediletos dos “americanistas”, o antropólogo peruano Luis E. Valcárcel, dizia que o Peru era o “paraíso dos antropólogos”.

Mais tarde, nos anos 1970, essas e outras redes de antropólogos se juntaram na “Antropologia da Ação”, criada pelo arquioligarca Conselho Mundial de Igrejas. Esta novidade substituiu a evangelização da população indígena pelo doutrinamento militante, reverenciando a “etnicidade”.

Com semelhante bagagem inflamada, pouco antes de 1992, diversas entidades indigenistas e ambientalistas conformaram o movimento de rebelião contra os 500 anos da Evangelização da América. Um repúdio que, em sua expressão mais radical, justificava os bárbaros assassinatos cometidos pelo Sendero Luminoso, que superaram a casa de 30 mil pessoas.

Também estavam representados ali o EZLN e ativistas e dirigentes da causa mapuche chilena, como o Conselho de Todas as Terras, que na atualidade também realiza ações de “recuperação” territorial em Araucanía. Do Brasil, representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) chegaram a abraçar o lema de que uma de suas metas, a longo prazo, era “apagar o farol” que foi aceso no continente por Cristóvão Colombo.

Não obstante, apesar da aniquilação do Sendero, esses crimes abomináveis continuam tendo seguidores, como se vê no Chile com a CAM, pois seus autores procedem da mesma matriz ideológica. No Brasil, também há redes que se mantém firmes na admiração do dirigente do Sendero, Abimael Guzmán, “o Camarada Gonzalo” (uma das referências que encontramos, por exemplo, no jornal Nova Democracia). Ao mesmo tempo, essa tendência defende as causas do indigenismo, em especial a oposição aos projetos de infraestrutura econômica.

O que hoje se constata no Chile é que o indigenismo-ambientalismo promovido pelas potências hegemônicas, cultivando uma ideologia de ódio, divisão da população e hostilidade aos projetos de infraestrutura, mantém latente na América do Sul uma bomba-relógio que pode ser detonada a qualquer momento. Por isso, não se pode menosprezar o contexto da geopolítica mundial do terror. Chama a atenção a revelação do cientista político sírio Ferhard Ibrahim Seyder, professor da Universidade Livre de Berlim, de que o jihadismo terrorista do EI tem a influência do psiquiatra e filósofo francês Frantz Fanon.

Segundo ele, “é interessante observar também outro fator pouco abordado que tem sua parcela de influência. O livro Os condenados da Terra, de Frantz Fanon, um filósofo francês da Martinica, obra dos anos 1960 que foi redescoberta, é também uma espécie de ‘Bíblia dos jihadistas’, por prever a violência como instrumento contra a violência colonial da qual se julgam vítimas”. Como tem sido documentado, na América Latina, essa obra, que incita ao ódio e cultiva o “expurgo revolucionário”, tem sido guia de ação de vários movimentos radicais.

x

Check Also

Brasil: a urgência de um “Momento Hamilton”

Após a família Mesquita, no tradicional “Estadão”, coube aos irmãos Marinho utilizarem um editorial de O Globo ...