El más que oportuno reinicio de Angra 3; ¿Y el reactor multipropósito brasileño?

O cenário é velho conhecido: um novo conflito armado entre Israel e os palestinos de Gaza, com destruição e mortes pendendo de forma altamente desproporcional contra os palestinos (mais de 250, a metade crianças e mulheres, contra 12 israelenses). Como de hábito, os EUA reconhecem prontamente o “direito de Israel à autodefesa” e bloqueiam qualquer ação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, até mesmo uma mera moção de cessar-fogo. Um pouco menos hipócrita, a União Europeia (UE) aprova um pedido de cessar-fogo, mas não faz qualquer menção à violação sistemática dos direitos humanos dos palestinos pela política supremacista e anexionista de Israel, causa direta da instabilidade na região (atitude oposta à assertividade mostrada contra a Rússia por motivos questionáveis e comparativamente pífios, como o suposto envenenamento de um opositor do governo de Moscou). Desta vez, porém, há algo diferente no ar.

Primeiro, a virtual rebelião dos israelenses árabes frente à brutalidade do governo de Benjamin Netanyahu contra a população de Gaza, que vive precariamente em uma das áreas mais densamente povoadas do mundo (2 milhões de pessoas em 365 quilômetros quadrados, área inferior à metade da Zona Oeste do Rio de Janeiro). Motim que se inflamou ainda mais depois que um israelense árabe da cidade de Lod foi ferozmente linchado por militantes judeus armados, em uma cena filmada por celulares e rapidamente divulgada em todo o mundo, levando o governo a decretar o estado de emergência na cidade. Houve conflitos em 18 cidades onde há significativas populações árabes. Para Israel, o cenário é dos mais preocupantes, pois as gerações jovens não se mostram dispostas a esperar ad aeternum por uma solução para o drama palestino.

Em segundo lugar, o Hamas, que controla Gaza com a Jihad Islâmica, demonstrou uma surpreendente capacidade de retaliação aos ataques israelenses, disparando centenas de foguetes a distâncias e com precisão inusitadas, chegando a atingir Tel Aviv, a 100 quilômetros de distância (estima-se que alguns deles tenham um alcance de até 250 km, o que coloca a maior parte do território israelense ao seu alcance). Embora a maioria deles tenha sido interceptada pelo sofisticado sistema antimísseis “Domo de ferro”, a rápida evolução da capacidade ofensiva do Hamas acendeu o alerta vermelho entre as lideranças militares de Israel, diante da constatação de que seus adversários não são mais meros sacos de pancada. Em um confronto maior, por exemplo, com o Hizbollah libanês, que tem um arsenal muito maior e mais preciso, uma ação de flanco do Hamas poderia criar sérios problemas. Aliás, é sugestivo que, dias antes do início do confronto, Israel tenha cancelado um exercício militar de um mês inteiro que simulava uma nova guerra com o grupo libanês, cuja vitória no conflito de 2006 ainda está atravessada na garganta do comando militar israelense.

O enésimo conflito israelense-palestino é mais uma manifestação do “excepcionalismo” de Israel, que se jacta de escrever as suas regras de conduta e de ignorar as críticas internacionais à sua truculência com os palestinos. Atitude que se enquadra no contexto da mentalidade supremacista equivalente das oligarquias anglo-americanas, que têm apoiado Israel como um bastião avançado do “excepcionalismo” no Oriente Médio, mantendo a região sob instabilidade constante e obstaculizando o seu pleno desenvolvimento, como parte de uma estratégia de controle de recursos energéticos.

Todavia, assim como o “excepcionalismo” anglo-americano encontra-se em acentuado esgotamento, a sua contraparte israelense, a “predestinação” ou qualquer outro rótulo para a mentalidade colonial, também demonstra evidentes sinais de desgaste. O regime de “apartheid” com o qual Israel submete os palestinos não tem futuro e não pode ser sustentado indefinidamente, mesmo com o uso de meios militares (apesar de Netanyahu ter prometido transformar o país em uma “superpotência”). Em 2006, Israel perdeu a sua aura de invencibilidade militar diante da chuva de mísseis do Hizbollah. Agora, apesar da destruição causada, ficou também sem o seu o poder dissuasório frente ao Hamas – sem falar na reprovação moral da maior parte da comunidade internacional, que não segue a orientação de Washington, Londres ou Bruxelas. Combinados com a insatisfação crescente dos seus cidadãos de origem árabe e, não menos, com uma dinâmica global refratária a hegemonias e supremacismos, tais fatores deverão fazer com que, cedo ou tarde, as lideranças israelenses tenham que levar a sério a necessidade de uma solução política definitiva para o drama dos palestinos.

Nesse cenário, é evidente que os EUA perderam qualquer capacidade de apresentar-se como um mediador confiável, posição que, possivelmente, pode ser assumida pela Rússia, devido ao seu crescente protagonismo na região, após a intervenção militar que impediu que a Síria fosse esfacelada por mercenários jihadistas e com as suas relações amigáveis com Israel e a Turquia.

E não deixa de ser significativo que, como reiterou no seu recente discurso no desfile militar do Dia da Vitória, em 9 de maio, o presidente Vladimir Putin tenha sido um aberto opositor do “excepcionalismo” e de quaisquer de suas variantes que queiram justificar o supremacismo imposto pela força.

(Foto: Wikimedia Commons.)

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