Assassinato de Soleimani, linha vermelha

O assassinato do general Qassem Soleimani, comandante da Força Quds do Corpo de Guarda Revolucionária Islâmica iraniana, e do vice-presidente das Forças de Mobilização Popular iraquianas, Abu Mahdi al-Muhandis, na madrugada de 3 de janeiro, no Aeroporto Internacional de Bagdá, em um ataque de mísseis ordenado pelo presidente Donald Trump, traçou uma linha vermelha no terreno das relações internacionais, cujas consequências os demais países do mundo terão que considerar seriamente, quanto à relevância das suas próprias relações com os EUA e, particularmente, no contexto das rápidas mudanças em curso no cenário global.

De fato, a ação escancara para o mundo a intenção dos setores mais reacionários da casta dirigente estadunidense, de levar às últimas consequências a determinação de não admitir o inexorável desgaste da sua hegemonia global desfrutada nas últimas décadas, com base na combinação de projeção externa de poderio militar e supremacia do dólar como moeda de referência internacional. Para tais grupos, que simbolizam a quintessência do egoísmo institucionalizado das elites dirigentes com alcance global, é preferível forçar a deflagração de um conflito de grandes proporções, mesmo ao risco de uma catástrofe planetária, a compartilhar de um novo sistema de relações internacionais baseado na cooperação não hegemônica para o desenvolvimento e o progresso, iniciativa na qual a China e a Rússia assumiram a dianteira, com a dinâmica da integração física e econômica da Eurásia e suas ramificações para os demais continentes.

A diretriz foi explicitada por ninguém menos que o secretário de Estado Mike Pompeo, tido como o principal mentor dos assassinatos, em um discurso na Universidade de Stanford, no qual admitiu que a ação se inseriu no âmbito de uma nova “estratégia de deterrência” contra os inimigos dos EUA, que, além do Irã, inclui a China e a Rússia.

“A importância da deterrência não está confinada ao Irã. Em todos os casos, nós devemos deter inimigos para defender a liberdade (sic). Este é todo o objetivo do trabalho do presidente Trump para tornar as nossas Forças Armadas mais fortes do que jamais foram”, disse ele, citando logo depois a China e a Rússia como alvos da orientação (Reuters, 13/01/2020).

O mero fato de juntar ao Irã as duas potências nucleares que estão encabeçando a integração eurasiática denota a pretensão de preservação hegemônica do Establishment estadunidense, não escapando a nenhum observador minimamente atento o fato de o Irã ser um dos núcleos fundamentais da agenda eurasiática.

Apesar de poucos países terem se manifestado de forma enfática contra os assassinatos, a ação recebeu críticas até mesmo de aliados dos EUA, como o Canadá, e foi silenciosamente recebida na maioria das capitais do planeta como uma transgressão inadmissível de todas as normas do Direito Internacional e da decência, recebendo o apoio de apenas um punhado de governos igualmente reacionários ou de atitude vassala diante de Washington. Para muitos, os EUA se converteram na própria encarnação de um “Estado fora-da-lei” (Rogue State), rótulo criado pelos ideólogos do governo de George W. Bush (2001-09) para enquadrar os países que estavam na sua agenda de “mudanças de regime” – entre eles, o Irã, Síria, Líbia e Iraque.

Soleimani estava em Bagdá em uma missão diplomática oficial, para transmitir ao governo iraquiano a resposta iraniana a um pedido de entendimento feito pela Arábia Saudita e intermediado pelo Iraque, com o evidente endosso dos EUA, já que o regime de Riad não dá um passo sem a anuência de Washington. Por isso, viajava em um voo comercial e sem preocupações exageradas com a sua segurança, o que torna ainda mais execrável a ação estadunidense, atribuída a um impulso irrefletido de Trump diante de uma opção ardilosamente preparada pelos piromaníacos do “Estado profundo” (Deep State).

O mais irônico é que Soleimani foi um importante aliado dos EUA, no Afeganistão, quando a sua Força Quds atuou decisivamente contra o Talibã, e, mais recentemente, na Síria e no Iraque, onde foi decisiva para a derrota do Estado Islâmico, que chegou a dominar uma grande extensão geográfica nos dois países.

Por outro lado, a sua morte poderá acabar sendo o proverbial fio de palha capaz de quebrar a espinha do camelo hegemônico no Oriente Médio, ao atuar como um catalisador da determinação do Irã e seus aliados regionais para forçar uma retirada das forças militares estadunidenses além do nível meramente simbólico. E ninguém deve duvidar da grande capacidade assimétrica de atritos e retaliações que a aliança tem à disposição, como demonstrou a retaliação de Teerã com uma salva de mísseis disparados contra duas bases militares estadunidenses no Iraque, todos os quais atingiram os alvos predeterminados com precisão insuspeitada para o que se conhecia da tecnologia missilística iraniana. A mensagem transmitida por Teerã com o ataque foi ainda mais significativa, pelo fato de tanto Bagdá como Washington terem sido avisadas com antecedência, dando-lhes tempo de evitar mortes desnecessárias. Não obstante, ficou claro para todos os interessados e observadores que o Irã dispõe de meios sofisticados para atingir quaisquer alvos estratégicos dos EUA em toda a região – inclusive, em Israel.

Além do próprio Irã, também os houthis do grupo Ansarullah do Iêmen e o Hizbollah libanês já demonstraram dispor de meios de impor danos proibitivos a quem os tenha como inimigos. Sem falar nas milícias xiitas pró-Irã do Iraque, que podem infernizar a vida das tropas estadunidenses estacionadas no país.

Em paralelo, o destempero estadunidense proporcionou à Rússia de Vladimir Putin uma nova oportunidade para consolidar ainda mais a sua já sólida posição de parceira e negociadora confiável na região, como Putin tratou de demonstrar, com visitas imediatas à Síria e à Turquia, para entendimentos com os presidentes Bashar al-Assad e Recep Erdogan, ambos peças-chave no complexo tabuleiro de xadrez regional. Igualmente, enquanto Trump e seus lugares-tenentes se empenhavam em justificar o injustificável, Putin recebeu em Moscou a chanceler alemã Angela Merkel, em outra reunião não programada, e visitará o premier israelense Benjamin Netanyahu em Tel Aviv, além de a sua chancelaria estar se empenhando em levar à mesa de negociações as partes engajadas na nova escalada do conflito na Líbia, para onde a Turquia já enviou uma força expedicionária.

No frigir dos ovos, a truculência desmedida de Washington simboliza os estertores de uma estrutura de poder imperial irremediavelmente decadente, e é possível que, num futuro próximo, os assassinatos de Bagdá venham a ser vistos como o momento em que essa decadência se tornou irreversível.

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