Era uma vez um G-7: ilusões de um novo condomínio de poder mundial

A primeira viagem internacional do presidente Joe Biden teve o claro objetivo de transmitir aos sócios minoritários dos EUA no G-7 e na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a mensagem de que Washington, aparentemente, não pretende desistir da sua agenda hegemônica global, e conta com o seu apoio irrestrito no confronto com as potências contestadoras da “ordem internacional baseada em regras”, a Rússia e a China.

Por ordem “baseada em regras”, entendam-se as regras estabelecidas pelos estrategistas e teóricos hegemônicos estadunidenses, que pretendem substituir o fugaz momento unipolar pós-Guerra Fria por uma “Guerra Fria 2.0”. Em essência, trata-se da pretensão de estabelecer um novo condomínio de poder mundial, apresentado como um confronto entre as “democracias” lideradas pela nação “excepcional” e as “autocracias” chinesa e russa, com o propósito ostensivo de fraturar a aliança de fato sino-russa, engajada na construção de uma nova ordem global cooperativa e não hegemônica, baseada na integração físico-econômica eurasiática, esta, a maior ameaça à estrutura de poder do eixo Washington-Nova York-Londres-Bruxelas.

E, para não deixar dúvidas sobre o caráter de virtual cruzada com que Washington pretende revestir a sua agenda, na cúpula da OTAN em Bruxelas, em 14 de junho, Biden reiterou aos seus pares a “obrigação sagrada” dos EUA para com a aliança.

Das três entidades perante as quais Biden se apresentou para enfatizar a liderança estadunidense – o G-7, a OTAN e a União Europeia (UE) –, antes da reunião com o presidente russo Vladimir Putin, em Genebra, no dia 16 (liderança é um exercício cansativo, ainda mais para um homem de 78 anos que está longe da vitalidade de um monarca europeu do século XI ou XII), o G-7 é a mais anacrônica.

Quando foi criado, em meados da década de 1970, as potências industrializadas representavam 70% do Produto Interno Bruto (PIB) global, proporção que caiu para os não mais de 30% atuais. Não por acaso, a criação do G-20, após a Grande Crise de 2008, assinalou um formato bem mais adequado para um fórum de discussões dos grandes problemas mundiais, reunindo nações que representam cerca de 60% da população e 80% do PIB do planeta.

O comunicado conjunto da cúpula realizada em Carbis Bay, Inglaterra, ressalta a dificuldade do grupo para atuar como algo mais que como uma caixa de ressonância de uma agenda ditada de Washington: uma longa declaração de boas intenções com 25 páginas, eufemisticamente batizada como “Agenda para Ação Global para Reconstruir Melhor” (sigla em inglês B3W).

Entre os compromissos estabelecidos, alguns números impressionantes: a oferta de um bilhão de doses de vacinas contra a Covid-19 para os países pobres, para assegurar a vacinação de toda a população mundial até o final de 2022; a mobilização de 100 bilhões de dólares de fontes públicas e privadas por ano, até 2025, para ajudar os países pobres a reduzir as suas emissões de carbono (promessa que vem sendo feita – e adiada – desde a cúpula climática de Paris, em 2015); e, principalmente, uma iniciativa para ajudar os países em desenvolvimento a cobrir os 40 trilhões de dólares em infraestrutura que irão necessitar até 2035.

Este último item, que não consta da declaração oficial e foi anunciado pela Casa Branca, denota uma evidente intenção de contraposição à Iniciativa Cinturão e Rota, o colossal plano de infraestrutura com o qual a China está promovendo a integração física da Eurásia e suas ligações com a África e o Grande Oriente Médio, ao qual já aderiram 140 países de todos os continentes, inclusive a Itália, membro do G-7 (apesar de o recém-empossado primeiro-ministro Mario Draghi ter anunciado a intenção de “rever” a adesão).

Porém, o ceticismo com o qual o plano foi recebido por muitos analistas e comentaristas é mais que justificado, pois o mesmo se baseia na atração de capitais privados, setores cuja margem de manobra é dificultada pela montanha de dívidas corporativas que representa uma espada de Dâmocles para as finanças globais. E outro problema é a intenção ostensiva de vincular os fluxos financeiros internacionais a critérios definidos pela agenda refletida na declaração do G-7 – proteção ambiental, direitos humanos (em geral, com aspas), pautas de gênero e outros itens afins, de cuja fiscalização está incumbida a vasta rede de agências privadas, organizações não-governamentais (ONGs) e entidades similares, que atua como “exército irregular” dos interesses das oligarquias representadas no grupo.

Quanto à generosidade sanitária, ela é tardia e insuficiente para injetar energia nova em um mecanismo esgotado como o G-7.

Essencialmente, o G-7 é uma relíquia de um mundo majoritariamente influenciado pelas agendas de Washington, mas totalmente defasada em relação aos requisitos e desafios de um planeta no rumo de um quadro multipolar com um marco de cooperação entre Estados nacionais, em lugar do confrontacionismo imposto por um centro hegemônico.

Parece evidente que o Brasil terá que posicionar-se nesse novo quadro, preferencialmente, com uma política externa independente e orientada para a consolidação do seu papel como protagonista ativo da integração físico-econômica da América do Sul, que poderá ser um contraponto positivo à integração eurasiática em um marco de cooperação global para um desenvolvimento compartilhado. E, claro, com uma rejeição categórica a qualquer esforço de estabelecimento de um novo condomínio global, posição consistente com a tradicional política externa independente do Itamaraty, implementada, entre outros, por nomes como Araújo Castro.

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