“Ensimesmamento” estadunidense abre espaço para ordem global cooperativa

Os EUA experimentam uma virtual guerra civil política, opondo o presidente Donald Trump e um pequeno punhado de assessores ao núcleo duro do Establishment, um amálgama entre o “complexo de segurança nacional” e Wall Street, crescentemente ensimesmado e aferrado à perigosíssima ilusão de que poderá sustentar a sua agenda hegemônica a qualquer custo, mesmo com o risco de provocar um novo conflito global de grandes proporções.

Trump, um jogador pragmático e intuitivo, venceu as eleições de 2016 prometendo “secar o pântano” das tramoias de Washington e questionando a multitentacular presença militar dos EUA em quase todas as regiões do planeta, principalmente, quanto aos custos de tais aventuras. A despeito da sua obsessão com o acordo nuclear com o Irã (mais devida ao fato de ter sido assinado por seu detestado antecessor Barack Obama), prometeu um entendimento com a Rússia de Vladimir Putin e retirar o quanto antes as tropas estadunidenses da Síria de Bashar al-Assad.

Porém, em poucas semanas na Casa Branca, se deu conta de que os presidentes estadunidenses têm influência restrita na formulação da política externa do país. De fato, esta é alienada ao “complexo de segurança nacional” e o último que tentou contrariar a regra, John F. Kennedy (1961-63), não chegou a completar três anos de mandato. Para o complexo, os conflitos permanentes constituem um meio de vida permanente para justificar os colossais gastos com a rubrica “defesa”, que representam mais de metade dos gastos discricionários do orçamento federal.

É conhecido o relato de uma das primeiras reuniões de Trump com os seus assessores e chefes militares, na qual questionou por que os EUA mantinham tantas tropas no Afeganistão (após 16 anos de conflito) e na Coreia do Sul, e por que ainda tinham tropas na Síria. “Vocês caras querem que eu envie tropas a toda parte. Qual é a justificativa?” – perguntou, impaciente. Na ocasião, o secretário de Defesa, general James Mattis, respondeu que a presença estadunidense em tais lugares era necessária “para impedir que uma bomba detone na Times Square [em Nova York]… Infelizmente, senhor, o senhor não tem escolha. O senhor será um presidente de tempo de guerra”.

O resultado das eleições intermediárias de 6 de novembro, que deu o controle da Câmara dos Deputados ao Partido Democrata e deixou o Senado nas mãos dos republicanos, pode sinalizar uma influência ainda maior dos belicistas sobre Trump, uma vez que a Câmara Alta é a caixa de ressonância da política externa vinculada aos interesses do “complexo de segurança nacional”.

Não obstante, como Trump não é um integrante inato do Establishment e tem um interesse real em recuperar parte das capacidades produtivas do país perdidas para a “globalização”, como prometeu em sua campanha eleitoral, é possível que o seu embate com os “ensimesmados” amplie a janela de oportunidades externas para iniciativas tendentes a reforçar a construção da nova ordem cooperativa. Examinemos dois exemplos relevantes.

Nesse contexto, não é casual que os EUA sejam vistos como o maior obstáculo à emergência dessa ordem cooperativa e não hegemônica, baseada em um cenário multipolar de influência política e econômica, em substituição à “unipolaridade” militar e econômico-financeira desfrutada pela superpotência estadunidense desde o fim da Guerra Fria, há mais de um quarto de século.

Afinal, nenhum outro país detém tais prerrogativas: 1) mais de 800 bases militares em 80 países; 2) sete frotas que operam em todos os oceanos do mundo; 3) um orçamento de “segurança nacional” que supera os gastos de defesa combinados de todos os demais países do mundo; 4) um sistema de vigilância eletrônica capaz de interceptar mais de 80% de todas as comunicações eletrônicas feitas no planeta; 5) tem na força militar o seu instrumento favorecido de política externa; 6) detém o privilégio de emitir indiscriminadamente a moeda de reserva e referência internacional (dólar); 7) controla ou influencia de forma determinante as instituições multilaterais (Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Organização Mundial do Comércio) e o sistema financeiro internacional, que funcionam como a espinha dorsal da “hiperglobalização” (como a denomina a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento-UNCTAD).

Uma pesquisa realizada em 2017 pelo Pew Research Center de Washington, em 30 países, quase todos aliados dos EUA, 35% dos entrevistados consideraram o poder e a influência dos EUA como uma “grande ameaça” ao mundo, contra 31% que optaram pela Rússia e a China, os únicos outros países citados.

Uma pesquisa anterior, realizada em 2013 pelos institutos WIN e Gallup International, em 65 países, apresentou um resultado ainda mais contundente: 24% dos entrevistados apontaram espontaneamente os EUA como “a maior ameaça à paz mundial”, o único país que conseguiu um percentual de dois dígitos (para comparação, a China ficou com 6%; Irã e Coreia do Norte, 5%; e Rússia, 2%).

Assim, países antagonizados pelos EUA e até mesmo antigos aliados articulam-se em diversas instâncias, para criar alternativas ao empenho de Washington de preservar a sua hegemonia à custa dos interesses legítimos dos demais países. O principal exemplo é a emergência da Eurásia como o novo centro de gravidade geoeconômico do planeta, turbinado pela ativa cooperação estratégica e econômica entre a China e a Rússia, que vem sendo gradativamente estendida a outros países.

Dilemas da defesa da Europa

A Europa, tradicionalmente presa ao arranjo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), lançou uma iniciativa de defesa coletiva que dificilmente teria ocorrido fora do contexto da “guerra civil” em Washington, mas que, todavia, não responde de forma concreta aos reais desafios de defesa do continente.

Em 7 de novembro, em Paris, ocorreu a primeira reunião da Iniciativa Europeia de Intervenção (EII, na sigla em inglês), coalizão de dez países europeus destinada ao estabelecimento de uma estrutura de defesa fora do marco da OTAN e, consequentemente, da influência dos EUA.

A iniciativa, oficialmente lançada em junho último, é encabeçada pela França e reúne o Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Finlândia, Estônia, Espanha e Portugal. A intenção é dispor de uma estrutura decisória enxuta (ao contrário da OTAN, que exige o consenso dos seus 29 membros), capaz de operar rapidamente em resposta a crises de natureza humanitária e militar, independentemente da OTAN e da própria União Europeia (UE).

Em entrevista à rádio Europa 1, o presidente francês Emmanuel Macron usou palavras surpreendentes para justificar a criação do que chamou “um real exército europeu”. Segundo ele: “Nós temos que nos proteger com respeito à China, Rússia e até mesmo os EUA. Quando eu vejo o presidente Trump anunciando que está abandonando um importante tratado de desarmamento que foi formado depois que a crise dos euromísseis da década de 1980 atingiu a Europa [referência ao Tratado de Mísseis Intermediários-INF], quem é a principal vítima? A Europa e a sua segurança. A Europa pode assegurar a sua própria proteção contra a Rússia e, até mesmo, um imprevisível presidente Donald Trump (Strategic Culture Foundation, 11/11/2018).”

A previsível resposta de Trump às declarações de Macron veio da forma habitual, via Twitter, em 9 de novembro, qualificando-as como “muito insultuosas” e repetindo a sua antiga litania de que, antes de pensar em um exército próprio, “a Europa deveria primeiro pagar a sua justa parcela na OTAN, que os EUA subsidiam grandemente”.

E nem o encontro pessoal com o presidente francês, dois dias depois, na celebração do centenário do final da I Guerra Mundial, em Paris, serviu para reduzir as salvas de tuítes. De volta a Washington, na segunda-feira 12, Trump afirmou que, na I Guerra Mundial, os franceses “estavam começando a aprender alemão em Paris, antes que os EUA chegassem”, em uma referência à chegada da força expedicionária estadunidense à Europa, em 1917, que acabou sendo o fator decisivo para a derrota alemã no conflito.

Por sua vez, de forma sintomática, o presidente russo Vladimir Putin, que também esteve em Paris, saudou a iniciativa europeia, considerando-a positiva para “reforçar o novo mundo multipolar”. Para ele, “a Europa é… uma poderosa união econômica e é apenas natural que queira ser independente e… soberana no campo da defesa e da segurança” (RT, 11/11/2018).

Escrevendo no sítio da Strategic Culture Foundation, o analista Alex Gorka fez uma avaliação otimista sobre a nova organização: “A formação da EII mostra quão profundas são as fraturas que dividem a OTAN e a UE em grupos que perseguem os seus próprios interesses. Essas grandes organizações parecem já ter visto dias melhores. Elas se tornaram muito grandes para ser realmente unidas e fortes… Pode ser que isto nunca seja dito oficialmente, mas as dez nações europeias desfecharam um forte golpe contra a OTAN encabeçada pelos EUA.”

Ademais, afirma, “as tensões e divisões entre a Europa e a Rússia não são para sempre e a EII e a Rússia não têm que ser adversárias, uma vendo a outra através de alças de mira. Afinal, elas enfrentam ameaças de segurança comuns. Cedo ou tarde, a cooperação no campo da segurança estará de volta à agenda”.

Precisamente, as tensões com a Rússia, materializadas de forma clara nas sanções aplicadas a Moscou nos últimos anos, por pretextos que vão desde a retomada da Crimeia ao mal explicado envenenamento do ex-agente de inteligência russo Sergei Skripal e sua filha, no Reino Unido, constituem um dos focos centrais da agenda de segurança europeia, nem de longe contemplado pela formação da EII.

O mesmo argumento vale para o outro problema crucial, a imigração islâmica motivada pelas guerras de destruição implementadas pelas potências da OTAN no Oriente Médio, nas quais os europeus seguiram levianamente a liderança estadunidense e, agora, pagam caro pelas consequências. Aqui, também, é fundamental um entendimento com a Rússia, que, a partir da sua intervenção militar no conflito na Síria, tornou-se o fiel da balança da estabilidade de toda a região. De certa maneira, isso começa a ser admitido, como se mostrou com a recente reunião de cúpula de Macron e sua colega alemã Angela Merkel, em Istambul, com Putin e o turco Recep Erdogan, para discutir a questão síria – emblematicamente, sem a presença de qualquer representante dos EUA.

Em essência, qualquer acordo defensivo na Europa não pode esquivar-se a contemplar os interesses comuns entre o bloco europeu e a Rússia, uma potência cristã que, afinal, também faz parte do continente e faz a sua “ponte terrestre” com a Ásia – condição que os teóricos da geopolítica, de Mackinder a Brzezinski, sempre colocaram na mira das suas maquinações hegemônicas, como pré-condições para a manutenção da hegemonia anglo-americana.

Ásia: audazes movimentos do Japão

Na Ásia, onde a construção da nova ordem cooperativa está mais avançada, impulsionada pela cooperação China-Rússia, o Japão, aliado tradicional dos EUA no pós-guerra, também está se movimentando com insólita independência.

Na última semana de outubro, o primeiro-ministro Shinzo Abe protagonizou uma importante visita de Estado a Pequim, a primeira de um governante japonês em sete anos, acompanhado por uma enorme delegação de quase mil empresários. Das conversas com o presidente Xi Jinping e o premier Li Keqiang, resultaram as seguintes iniciativas: 1) negócios da ordem de 18 bilhões de dólares; 2) um acordo de trocas de moedas no valor de 29 bilhões de dólares, para casos emergenciais de crises; 3) a inclusão do renminbi chinês nas reservas cambiais do Japão; 4) investimentos diretos do Banco do Japão em títulos do governo chinês; 5) a criação de uma linha de comunicação direta (hotline) para eventuais casos futuros de tensões, como as que envolvem as reivindicações chinesas de soberania sobre áreas do Mar do Sul da China.

Igualmente, o governo chinês convidou formalmente o Japão a participar da Iniciativa Cinturão e Rota, o núcleo da agenda de integração eurasiática, que tem sido criticada por países como a Malásia e o Paquistão, este um tradicional aliado da China. Com a participação japonesa, Pequim pretende operar um proveitoso “upgrade” em todo o empreendimento.

Porém, mais significativo do que quaisquer negócios ou acordos do gênero foi o fato de Abe ter transmitido a Xi Jinping a intenção do imperador Akihito de visitar a China antes da sua renúncia, em abril de 2019, para pedir formalmente desculpas pela invasão japonesa ao país, entre 1937 e 1945. Se a visita se confirmar, será um gesto do maior simbolismo para ajudar a reduzir as tensões históricas entre as duas potências asiáticas, cujas recordações daquele acidentado passado têm ressurgido com certa frequência e influenciado negativamente as relações bilaterais, três gerações após o término do conflito. O gesto será ainda mais relevante no âmbito da situação dos dois países em relação aos EUA: a China, oficialmente apontada como potência rival, e o Japão, tradicional aliado em todo o pós-guerra.

Essencialmente, os dois países estabeleceram uma relação de “cooperação, em vez de competição”, expressão usada em ambas as capitais.

Após a visita a Pequim, Abe reuniu-se em Tóquio com o premier indiano Narendra Modi, com que acertou um diálogo regular no âmbito das respectivas chancelarias e ministérios de defesa, além da cooperação em projetos de infraestrutura em Bangladesh, Myanmar e Sri Lanka, e um acordo de trocas de moedas semelhante ao estabelecido com a China, no valor de 75 bilhões de dólares.

E o outro objeto de uma crescente aproximação do Japão é a Rússia, onde Tóquio pretende participar do desenvolvimento econômico da vastíssima região do Extremo Oriente, em projetos de infraestrutura e energia.

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