Em Davos, dois caminhos para o mundo

A reunião anual deste ano do Fórum Econômico Mundial (WEF), o conhecido Fórum de Davos (25-29 de janeiro), teve que ser realizada de forma virtual, devido à pandemia de Covid-19. O tema foi o “Grande Reset” (aqui, mantemos a expressão mais conhecida no País, em vez da literal “Grande Reinicialização”), uma pretendida repaginação do turbocapitalismo globalizado para dar-lhe uma face aparentemente mais humanizada, o chamado “capitalismo das partes interessadas” (stakeholder capitalism, em inglês), apresentado sob o disfarce de uma suposta salvação do planeta das consequências das mudanças climáticas e da devastação ambiental, inclusive, da Floresta Amazônica brasileira.

O tema principal da reunião foi o “Grande Reset” (aqui, mantemos a expressão mais conhecida no País, em vez da literal “Grande Reinicialização”), uma pretendida repaginação do turbocapitalismo globalizado para dar-lhe uma face aparentemente mais humanizada, o chamado “capitalismo das partes interessadas” (stakeholder capitalism, em inglês), apresentado sob o disfarce de uma suposta salvação do planeta das consequências das mudanças climáticas e da devastação ambiental, inclusive, da Floresta Amazônica brasileira.

O fundador e presidente do WEF, Klaus Schwab, assim define o “capitalismo das partes interessadas”: “É uma forma de capitalismo em que as empresas não apenas otimizam os lucros de curto prazo para os acionistas, mas buscam uma criação de valor a longo prazo, levando em conta as necessidades de todas as partes interessadas e da sociedade como um todo (WEF, 22/01/2021).”

Adiante, ele explica:

A mais importante característica do modelo de capitalismo das partes interessadas é que os desafios do nosso sistema são, agora, claramente globais. Economias, sociedades e o meio ambiente estão mais estreitamente vinculados entre si do que há 50 anos. O modelo que apresentamos aqui e, portanto, fundamentalmente global por natureza, assim como as duas partes interessadas primárias.

Isto vale, acima de tudo, para o planeta. A saúde do planeta, sabemos agora, é dependente não apenas das decisões individuais e nacionais, mas da soma de decisões tomadas por atores de todo o mundo. Portanto, se quisermos salvaguardar o planeta para as futuras gerações, cada parte interessada precisará assumir a responsabilidade pela sua parte na tarefa. (…) Assim, o planeta é o centro do sistema econômico global e a sua saúde deveria ser otimizada nas decisões tomadas por todas as demais partes interessadas. (…) A mesma interconectividade pode ser observada para as pessoas que vivem no planeta. O bem-estar das pessoas em uma sociedade afeta o das de outra, e cabe a todos nós como cidadãos globais (sic) otimizar o bem-estar de todos. O fracasso em fazer isto recairá, inevitavelmente, sobre nós (grifos no original).

Na aparência, preocupações nobres e relevantes. O diabo, porém, como de hábito, se esconde nos detalhes. Como temos ressaltado, as elites “globalistas” de Davos pretendem usar a situação de emergência criada pela pandemia para acelerar a implementação de tal agenda, cujo objetivo é subordinar as atividades produtivas em geral, a critérios de “sustentabilidade” e “neutralidade de carbono”, os novos indicadores selecionados para arbitrar as iniciativas e políticas de desenvolvimento, principalmente, nas economias emergentes. E quem definirá tais critérios? Entidades adredemente criadas para a função, a exemplo das agências de classificação de risco que respaldam as negociações com títulos de dívidas públicas e corporativas, várias delas já em funcionamento.

Como enfatizou, em uma sessão dedicada ao tema, o executivo-chefe do megafundo de gestão de ativos BlackRock, Laurence Fink: “Vamos precisar de 50 trilhões de dólares em investimentos para chegar a um mundo de emissões líquidas zero [de carbono]… Na medida em que mais empresas divulgarem seus relatórios e tivermos dados melhores em cada nível corporativo, seremos capazes de customizar e personalizar os portfólios. Isto vai fazer a diferença entre as companhias que forem bem-sucedidas e as que não forem (WEF, 26/01/2021).”

Por trás do jargão financista, o recado é claro: as empresas que não se enquadrarem nos requisitos de “sustentabilidade”, visando ao utópico mundo de “emissões líquidas zero”, serão excluídas do Admirável Mundo Novo idealizado pelos comensais virtuais de Davos. E o mesmo argumento vale para os países que insistirem em restringir as suas opções de desenvolvimento aos fluxos financeiros internacionais, além de não se articularem para neutralizar os impactos políticos e econômicos de tal agenda exclusivista, cujo efeito principal será aprofundar as mesmas desigualdades que aqueles potentados globais propalam combater.

O contraste com essa visão utópica – distópica seria um adjetivo melhor – foi proporcionado pelos líderes dos dois países que estão encabeçando a reconfiguração da ordem de poder mundial em curso, de um quadro de hegemonia e confrontação para outro de multilateralismo e cooperação, o presidente chinês Xi Jinping e seu colega russo Vladimir Putin.

O recado de Pequim: “A abordagem equivocada do antagonismo e da confrontação, seja na forma de Guerra Fria, guerra quente, guerra comercial ou guerra tecnológica, acabaria por prejudicar os interesses de todos os países. (…) As diferenças, em si, não são causa para alarme. O que é alarmante é a arrogância, o preconceito e o ódio.”

E a definição prática de multilateralismo: “(…) Ter as questões internacionais resolvidas por meio de consultas, e o futuro do mundo decidido conjuntamente por todos. (…) Empobrecer o vizinho, agir com autossuficiência e descambar para o isolamento arrogante, sempre levará ao fracasso (Asia Times, 26/01/2021).”

O discurso do líder do Kremlin foi uma master class sobre princípios civilizatórios (cuja leitura integral recomendamos enfaticamente):

Uma vez mais, quero enfatizar a minha tese de que os problemas socioeconômicos acumulados são a causa fundamental do crescimento global instável. (…)

Está claro que o mundo não pode continuar a criar uma economia que beneficiará apenas um milhão de pessoas, ou mesmo o bilhão dourado. Este é um preceito destrutivo. Esse modelo é desequilibrado por definição. Os acontecimentos recentes, inclusive as crises migratórias, têm reafirmado isso novamente. (…)

Obviamente, a era ligada às tentativas de construir um mundo centralizado e unipolar acabou. Para ser honesto, ela nem mesmo começou. Foi feita uma mera tentativa nessa direção, mas, agora, isto também é história. A essência desse monopólio vai contra a diversidade cultural e histórica da nossa civilização. (…)

Todos sabemos que, na história do mundo, a competição e a rivalidade entre países nunca cessou, não está cessando e nunca cessará. As diferenças e um choque de interesses também são naturais para um corpo tão complicado como a civilização humana. Porém, em momentos críticos, isso não a impediu de reunir os seus esforços – ao contrário, a uniu nos destinos mais importantes da humanidade. Eu acredito que este é o período que vivemos hoje (Kremlin, 27/01/2021).

Em essência, a crise civilizatória gerada pela mudança de época histórica que vivemos não pode ser solucionada por uma mera “reinicialização” de um sistema global viciado em privilégios para uma ínfima minoria, em detrimento das legítimas aspirações e dos direitos da esmagadora maioria da humanidade ao pleno desenvolvimento dos seus potenciais e ao gozo de um bem-estar, para o qual não há razões objetivas para não ser compartilhado por virtualmente cada ser humano do planeta. Viabilizar esta perspectiva, em uma geração ou pouco mais, é o grande desafio real que a humanidade confronta, não as ameaças artificiais ou distorcidas pelo proverbial “Homem de Davos”.

N. dos E. – Uma discussão de fundo sobre o “Grande Reset” se encontra neste vídeo, no canal Conversa ao Pé do Rádio, de Rubem Gonzalez, com a participação do jornalista Lorenzo Carrasco, presidente do conselho editorial da Resenha Estratégica, e o cientista político Felipe Quintas (https://www.youtube.com/watch?v=gDHHMN2ev-s&feature=youtu.be).

(Foto: Mikhail Klimentiev/Sputniknews)