Eleições nos EUA: se correr, bicho pega, se ficar, bicho come

A pouco mais de dois meses das eleições presidenciais nos EUA, as lideranças brasileiras de todos os setores tratam de avaliar as possibilidades de vitória dos dois candidatos e, em especial, as implicações de cada um para as relações bilaterais. Tarefa complicada pelo fato de que, pela primeira vez, um governo brasileiro deixa de lado o pragmatismo habitual da diplomacia nacional e demonstra publicamente a sua preferência por um candidato, no caso, o presidente Donald Trump. Não obstante, a despeito dessa inclinação (que, em alguns casos, tem bordejado uma subserviência incompatível com a dignidade de uma nação soberana), as evidências apontam que, para o Brasil, não será muito diferente se relacionar com um Trump revigorado ou com um Joe Biden energizado por uma assertiva vice-presidente Kamala Harris.

De fato, a despeito da “relação especial” com Trump trombeteada pelo presidente Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo, que preside a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, Donald tem tratado o Brasil com o pragmatismo conveniente às suas pretensões eleitorais, como se viu na recente pressão para a anulação das tarifas brasileiras de importação de etanol. Ou na ultrajante ameaça do embaixador Todd Chapman sobre eventuais “consequências” para o País, caso Brasília mantenha a empresa chinesa Huawei incluída na licitação da tecnologia de comunicações 5G, prevista para 2021. Ou, ainda, a provocativa decisão de Washington de apresentar uma candidatura própria à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ignorando a candidatura brasileira e quebrando uma tradição que remonta à criação do banco, em 1959, pela qual a presidência é ocupada por um representante latino-americano e a vice-presidência por um estadunidense.

Em particular, dado o entusiasmo com que Trump abraçou a agenda do Establishment para a seleção da China como o “inimigo número um” de uma Guerra Fria rediviva, é de se esperar que, passada a eleição, aumente bastante a pressão para que Brasília tome partido no confronto de Washington com a superpotência asiática, maior parceira comercial de ambos os países. Agenda que, a rigor, não mudaria muito em um eventual Governo Biden-Harris, cujos currículos não denotam qualquer inclinação para contrariar os interesses do Establishment, muito ao contrário.

Ademais, uma vitória da dupla Biden-Harris traria um incômodo a mais para o Brasil, não só devido à antipatia que ambos já demonstraram em relação ao presidente Jair Bolsonaro, mas, principalmente, por serem fervorosos adeptos da agenda ambientalista-indigenista-identitária, bastante popular entre os setores mais à esquerda do Partido Democrata.

A propósito da senadora Harris (democrata-Califórnia), entusiasticamente saudada por parte da mídia e dos setores ditos progressistas da política brasileira, vale a pena observar a sua qualificação feita pelo veterano jornalista estadunidense Martin Sieff, um dos mais argutos comentaristas do cenário atual:

Ninguém se engane. Se Joe Biden vencer em novembro, Kamala Harris será presidente dos Estados Unidos. Não em oito anos, mas muito possivelmente em menos de um. Biden tem 78 anos e as suas confusões em público são agora dolorosamente óbvias para todos, motivo pelo qual os 65 milhões de estadunidenses que votaram por reflexo em Barack Obama e Hillary Clinton ainda se recusam a admiti-las. Mas elas estão lá, e Biden tem 78 anos. De início, os EUA serão governados pelo seu chefe de gabinete, que será a posição de poder real. Mas, mais cedo do que tarde, Kamala Harris será presidente dos Estados Unidos.

Esta é uma bem-vinda e confortadora perspectiva para o Estado Profundo… pois eles preferem Kamala Harris como presidente, muito mais que Donald Trump ou Joe Biden. (…)

Como muitos outros promotores estadunidenses bem sucedidos que conheci, ela brilha como cão de caça e parece ser inteiramente irrefletida. Aponte-lhe a direção certa (ou errada) e ela atacará como um pitbull. (…) Como Theodore Roosevelt em 1900, Richard Nixon em 1952 e o próprio Biden em 2008, ela atuará como o rottweiler de Biden. (…) As mesmas qualidades (e a falta delas) que farão de Kamala Harris uma integrante tão letalmente efetiva da campanha democrata, nos próximos três meses, farão dela uma ameaça para o mundo como presidente dos Estados Unidos (Strategic Culture Foundation, 24/08/2020).

Ou seja, em relação a quem venha a ocupar a Casa Branca a partir de janeiro de 2021, a atual postura diplomática do Itamaraty pode colocar o Brasil na situação do conhecido ditado: se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come.

Por conseguinte, a atitude brasileira só pode ser uma: o restabelecimento urgente da política externa independente e pragmática que marcou os melhores momentos da diplomacia nacional desde o final da II Guerra Mundial, recuperando a herança de Oswaldo Aranha, San Thiago Dantas, Araújo Castro, Azeredo da Silveira e Saraiva Guerreiro – nomes, aparentemente, hoje deslocados no Itamaraty.

Tal orientação, ou melhor, reorientação, é fundamental não só para que o País se recuse ao cenário da “Nova Guerra Fria”, mas, principalmente, se posicione como protagonista soberano na reconfiguração da ordem de poder mundial que está em curso. E, não menos importante, possa desenvolver relações igualmente pragmáticas, mas firmes, com a China, não aceitando passivamente o papel de fornecedor de alimentos e matérias-primas para o gigante asiático que caminha a passos largos para tornar-se a maior potência econômica do planeta.

Além de independente, uma nova política externa precisará ser “pró-ativa” em relação à maciça investida ambientalista-indigenista que se avoluma como uma nova forma de colonialismo, para a qual o Brasil necessitará engajar aliados confrontados com problemas semelhantes, não só na vizinhança, mas também na África e na Ásia.

No geral, uma política externa reorientada e equilibrada tende a voltar a ser um referencial na América do Sul e além. E é o mínimo que se espera de uma nação que não pode isentar-se de um destino de de grandeza.

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