“Ecoterrorismo” contra linha de transmissão do Madeira?

linha-transmissão-Madeira

Uma das linhas de transmissão de energia do Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira, que leva eletricidade das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, a Araraquara (SP), tem sido submetida a uma sabotagem sistemática. Entre novembro de 2014 e dezembro de 2015, nada menos que 12 torres da linha foram derrubadas, tendo os três últimos casos ocorridos em 2 de dezembro último. Pela sua gravidade, o caso está sendo investigado não apenas pelas autoridades policiais estaduais, mas também pelo Exército e pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Segundo a ata de uma reunião sobre o caso, realizada no início de dezembro e obtida pela revista Exame (1/01/2016), os ataques estão concentrados em áreas isoladas de Rondônia, no meio da mata, tendo dez deles ocorrido na região entre os municípios de Rolim de Moura e Castanheiras. As investigações ocorrem em sigilo e poucas informações têm sido divulgadas.

O documento afirma que uma das hipóteses levantadas sobre a autoria das sabotagens envolveria retaliações referentes a problemas trabalhistas da empresa que construiu dez das 12 torres derrubadas, às voltas com quase 200 processos na Justiça do Trabalho. Mas não há qualquer acusação contra ninguém, nem suspeitos apontados.

Na reunião, ficou acertada a realização de uma campanha na região dos ataques, por rádio e panfletos, não só para esclarecimento, mas também para pedir ajuda aos moradores locais, para que fiquem atentos a quaisquer ações suspeitas.

Por conta da sabotagem, as duas usinas hidrelétricas não estão entregando toda a eletricidade que são capazes de gerar, atualmente, cerca de 5600 megawatts (de um total de 7300 MW, quando todas as suas turbinas estiverem em operação). Além disso, a sabotagem deverá prejudicar os testes de operação da segunda linha de transmissão do complexo, que deveriam ser iniciados este mês.

A previsão é que o reparo das torres derrubadas seja concluído ainda em fevereiro (Rondônia ao Vivo, 11/02/2016).

As duas linhas do Complexo do Rio Madeira serão as maiores do Brasil, com 10 mil torres em uma extensão de 2.375 quilômetros, cruzando cinco estados. Quando estiverem plenamente operacionais, poderão transmitir 12,8 gigawatts de eletricidade. Suas operadoras são, respectivamente, a Norte Brasil Transmissora de Energia (NBTE) , formada pela Abengoa e a Eletronorte, e a Interligação Elétrica do Madeira (IE Madeira), consórcio integrado pela Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP), Furnas e Centrais Elétricas do São Francisco (Chesf).

A sabotagem de torres de 40 metros de altura e dez toneladas de peso é uma tarefa complexa e arriscada, exigindo profundos conhecimentos profissionais específicos. Evidentemente, a possibilidade de represálias por parte de trabalhadores demitidos insatisfeitos é bastante plausível e, seguramente, está entre as hipóteses de trabalho dos investigadores. Entretanto, outra hipótese que não pode ser desconsiderada é a de uma ação ligada à campanha permanente do aparato ambientalista-indigenista contra as hidrelétricas amazônicas, que tem envolvido ações de sabotagem ostensivas, como já ocorreu nos canteiros de obras das hidrelétricas de Jirau, São Domingos e Belo Monte, em várias oportunidades, nas quais as reivindicações trabalhistas serviram apenas como pretextos para as ações de sabotagem, que configuravam autênticas operações de “ecoterrorismo geopolítico” (ver, por exemplo,Alerta Científico e Ambiental, 24/03/2011, 31/03/2011, 4/04/2012 e 15/11/2012).

Naqueles casos, o padrão foi o mesmo: grupos de homens encapuzados, com bom conhecimento da disposição dos canteiros de obras e dos seus pontos mais vulneráveis, provocaram incêndios e depredações, atuando sob a cobertura de reivindicações trabalhistas, enquanto as entidades representativas dos trabalhadores negociavam com as empresas concessionárias.

Em Jirau, em março de 2011 e abril de 2012, os próprios trabalhadores informaram que os encapuzados que incitaram o motim não eram funcionários das empresas responsáveis pela obra. Uma credenciada fonte de inteligência militar consultada por este Alerta afirmou que as informações eram coerente com a necessidade de planejamento e disposição prévia dos meios necessários a ações daquele porte, como a estocagem de galões de combustível em locais específicos.

No caso do ataque ao canteiro da UHE São Domingos, no rio Verde (MS), também em março de 2011, o próprio Sindicato dos Trabalhadores da Construção Pesada de Mato Grosso do Sul qualificou o motim como um movimento “isolado” e de “vandalismo”. Segundo o sindicato, as reclamações de trabalhadores sobre a melhoria das condições de trabalho, feitas na semana anterior ao tumulto, já haviam sido objeto de um termo de compromisso assinado com a concessionária Eletrosul e estavam sendo atendidas pelo consórcio construtor.

No primeiro ataque a Belo Monte, em novembro de 2012, três dos canteiros de obras da usina foram atacados por grupos de 20-30 encapuzados, provocando a suspensão dos trabalhos. Na ocasião, a Polícia Civil do Pará deteve cinco suspeitos de participação nos ataques, ligados à organização Central Sindical e Popular (Conlutas).

Fundada em 2010, a Conlutas é um agrupamento de grupelhos radicais engajados em campanhas em favor dos sem-terras, sem-teto e quilombolas, jactando-se de ser “a maior central sindical que faz oposição, à esquerda e a nível nacional (sic), ao governo Dilma”. Embora, em seu sítio, não se encontrem referências às suas fontes de financiamento, o fato de dispor de escritórios em 13 estados sugere que tem à disposição recursos consideráveis, sendo, com sua ideologia extremista e militância adestrada em ações radicais, o tipo de entidade que poderia proporcionar a organizações estrangeiras o elemento humano para semelhantes ações antinacionais.

De fato, na sua “História”, encontra-se o seguinte parágrafo:

O internacionalismo ativo, a solidariedade internacional entre os trabalhadores e trabalhadoras é parte constitutiva de nosso programa, um objetivo permanente a ser buscado pela Central. A libertação da classe trabalhadora de toda forma de opressão e exploração é uma tarefa que não se inscreve apenas nos marcos de um país e deve ser tomada no plano internacional.

De qualquer maneira, esse tipo de sabotagem não é novidade entre esses círculos radicalizados. Em setembro de 1994, três membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foram presos nas proximidades da Reserva Ecológica da Serra dos Carajás, no Pará, ao tentar sabotar uma torre de uma linha de transmissão. Interrogados pela policia, eles declararam que pretendiam derrubar a torre para causar um blecaute, com o intuito de criar uma diversão para que seus companheiros pudessem invadir as terras da reserva ecológica, há semanas na mira do movimento (Jornal Nacional, 9/09/1994).

Na ocasião, o jornal Solidariedade Ibero-americana (1ª quinzena de setembro de 1994) advertiu: “A ação de Carajás aponta para uma escalada qualitativa na pauta das lideranças do MST, passando a visar diretamente objetivos estratégicos de infra-estrutura, como é o caso das linhas de transmissão, ao estilo de grupos abertamente terroristas, como o Sendero Luminoso peruano e o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) mexicano.”

Na edição da segunda quinzena de fevereiro de 1998, o jornal fazia novo alerta sobre o assunto: “Desde a origem da organização, a liderança do MST estabeleceu que não desejava constituir-se em um simples movimento de colonizadores de terras, mas que concentrariam as suas exigências de terras nas regiões mais férteis do país, que já possuíam infraestrutura moderna, como o Estado do Paraná. Em 1990, invadiram terras ao redor de um complexo hidrelétrico e petroquímico no Rio Grande do Sul… Na ocasião, fontes de inteligência militar denunciaram que quadros do Sendero Luminoso estavam instruindo as lideranças do MST. Posteriormente, divulgaram-se informações sobre os vínculos entre o MST e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC)… É bastante conhecida a vulnerabilidade das torres de transmissão à sabotagem terrorista. Por exemplo, o Sendero Luminoso demonstrava freqüentemente a sua predileção por derrubar torres de transmissão, devido aos danos e impactos políticos imediatos que causavam.”

Em setembro de 2005, três torres de uma linha da Eletronorte, em Lucas do Rio Verde (MT), foram derrubadas, deixando 25 cidades da região sem eletricidade durante dias (Notícias Terra, 2/09/2005).

Em agosto de 2008, houve novas tentativas na mesma região, mas funcionários da Eletronorte conseguiram impedir a derrubada das torres (Só Notícias, 15/08/2008).

Pelo menos outro caso semelhante, no Acre, envolveu uma quadrilha que tentava extorquir a Eletronorte.

Embora os responsáveis por vários casos não tenham sido identificados, é bastante provável que o fator “ecoterrorista” esteja presente em pelo menos alguns deles, principalmente, considerando-se a proximidade de grupos radicais como o MST, Conlutas e similares com organizações nacionais e estrangeiras que têm feito dos problemas ambientais e indígenas brasileiros os pretextos para a sua agenda antidesenvolvimentista. A sabotagem em Rondônia se enquadra perfeitamente nesse contexto.

x

Check Also

Neocolonialismo “verde” mostra suas garras

A União Europeia (UE) escancarou definitivamente a sua intenção de empregar os temas ambientais como ...