Diplomacia hipersônica

Em termos estritamente militares, a estratégia de cerco imposta à Federação Russa pelos EUA e seus submissos aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) tornou-se simbolicamente obsoleta em 1º de março de 2018, com a surpreendente revelação feita pelo presidente Vladimir Putin sobre as novas armas avançadas em desenvolvimento no país, em especial, vários tipos de mísseis hipersônicos para múltiplos empregos.

Tecnicamente, mísseis hipersônicos são armas capazes de voar a velocidades superiores a cinco vezes a velocidade do som (Mach 5), equivalente a mais de 6.080 km/h. Às elevadas velocidade, soma-se a capacidade de manobra nos três eixos espaciais, o que faz as suas trajetórias imprevisíveis e os torna virtualmente invulneráveis aos sistemas de defesa existentes. A nova geração de mísseis russos compreende modelos com ogivas convencionais e nucleares, capazes de serem lançados de plataformas terrestres, navais e aéreas contra alvos terrestres e navais, com velocidades entre Mach 8 e 27 (9.900-32.000 km/h) e alcances entre 1.000 e 18 mil quilômetros.

Bem mais lentos, mas muito mais furtivos, são o míssil de cruzeiro Burevestnik, de propulsão nuclear e alcance praticamente ilimitado, capaz de levar uma ogiva convencional ou nuclear a qualquer lugar do mundo, e o drone submarino nuclear Poseidon, igualmente apto a levar uma ogiva nuclear a qualquer porto ou zona costeira do planeta.

Tais armas, inicialmente recebidas com grande ceticismo no Ocidente, encontram-se plenamente operacionais ou em fase final de testes, conferindo à Rússia uma vantagem de pelo menos uma geração tecnológica sobre o bloco EUA-OTAN. E, para reforçar o seu arsenal avançado e demonstrar a disposição de usá-lo, Moscou acaba de destruir com um míssil especializado um de seus satélites desativados a 645 km de altitude, bem acima das órbitas dos satélites de reconhecimento da Aliança Atlântica, em um claro “recado” de que, juntamente com os centros de comando, controle e comunicações, eles serão alvos primários em qualquer situação de conflito real.

A destruição do satélite demonstrou não apenas a capacidade do míssil A-235 Nudol, mas também a determinação política do Kremlin, uma vez que destruir um satélite não é realmente atitude das mais sensatas, devido à nuvem de detritos que permanece em órbita. Por ironia, a inexistência de um tratado internacional que regulamente ações semelhantes se deve, em grande medida, à oposição dos EUA a qualquer acordo com potencial de limitação de suas atividades espaciais com finalidades militares.

Tais esforços tecnológicos integram o que o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, qualifica como “um desenvolvimento qualitativo das Forças Armadas” do país, motivado pela “difícil situação político militar no mundo e a crescente atividade da OTAN próximo às nossas fronteiras” (RT, 24/11/2021).

Mas a Rússia não é a única “potência revisionista” – para usar a linguagem de certos estrategistas de Washington – que dispõe de tais armamentos. A China, da mesma forma, tem dado grandes passos no domínio das tecnologias hipersônicas, já tendo em operação os mísseis antinavio DF-21D e DF-26, projetados para uso contra as grandes forças-tarefas baseadas em porta-aviões da Marinha dos EUA. Em julho e agosto, foi testado o que parece ser uma segunda geração desses mísseis, com uma tecnologia análoga ao planador hipersônico russo Avangard, causando grande alarme em gabinetes refrigerados de Washington, Londres e Bruxelas.

Até mesmo altas autoridades militares estadunidenses admitem que estão atrás nessa corrida tecnológica, caso do general David Thompson, vice-chefe de Operações Espaciais da Força Espacial: “Nós não estamos tão avançados como os chineses e os russos em termos de programas hipersônicos… temos muita coisa a fazer para alcançá-los muito rapidamente”, admite (Space News, 21/11/2021).”

Para o general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, os recentes testes chineses representam algo próximo a um “momento Sputnik”, recordando o impacto psicológico causado pelo lançamento do primeiro satélite artificial soviético, Sputnik-1, em 1957.

Em uma pífia compensação psicológica pelo atraso, Washington recorreu a tabloides britânicos para divulgar a notícia de que, até 2023, os EUA teriam operacional o míssil hipersônico Dark Eagle, cujos lançadores, instalados na Alemanha, poderiam atingir alvos na Rússia em minutos. O conhecido The Sun chegou a publicar um mapa com a suposta trajetória de um míssil disparado contra Moscou e um cogumelo nuclear sobre a capital russa (RT, 12/11/2021). Todavia, especialistas advertem que o sistema ainda tem adiante uma longa etapa de testes e, dificilmente, estará operacional antes de meados da década.

A despeito dos “recados” emitidos de Moscou e Pequim, sustentados pelas demonstrações de capacidades contra as quais a Aliança Atlântica não tem defesas efetivas, parte de suas lideranças insiste em manter uma pauta de provocações contra as duas superpotências, em torno da Ucrânia e de Taiwan. Mas, por outro lado, é significativo que cabeças mais frias parecem estar tentando colocar água na fervura, advertindo sobre os riscos de escaladas que podem sair de controle.

Para o general Nick Carter, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Reino Unido, o risco de uma guerra com a Rússia é hoje maior do que em qualquer momento de sua carreira militar de 44 anos. Portanto, adverte que seu país seja “cauteloso”, para evitar “uma escalada e erros de cálculo”.

Sua contraparte estadunidense, general Mark Milley, desqualificou notícias de que a Rússia estaria reunindo tropas próximo à fronteira com a Ucrânia, que piromaníacos estão difundindo para atiçar as brasas, afirmando que não via “nada patentemente agressivo” na movimentação militar russa em seu território (Dedefensa, 14/11/2021).

Em paralelo, o presidente Joe Biden acaba de reunir-se de forma virtual com o presidente chinês Xi Jinping e está em articulação uma nova cúpula com Vladimir Putin, ainda este ano ou no início de 2022. Aparentemente, tais arranjos refletem o empenho de uma facção mais realista do Establishment estadunidense em baixar a temperatura das desavenças entre as superpotências, para evitar um desfecho incendiário – e bastante perigoso, principalmente, para os militares da Aliança Atlântica.

E, até mesmo na Alemanha, normalmente dócil às determinações vindas de Washington e Bruxelas, discute-se nos meios políticos a conveniência de o país continuar abrigando armas nucleares estadunidenses em seu território, o que levou o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, a vocalizar a possibilidade de transferi-las a países-membros do Leste Europeu.

Sem dúvida, o fator “hipersônico” está bastante presente nos bastidores dessa diplomacia multipolar.

(Imagem: concepção artística da Raytheon.)

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