Decadência do Ocidente e retirada estratégica

Por Luiz Edmundo Nava Lara*

Em 1942, a Alemanha já havia perdido a II Guerra Mundial. Isto é o que o historiador inglês B.H. Liddell Hart diz, nas memórias do marechal Erwin Rommel, editadas por ele. A carta de Rommel à sua esposa, de 15 de junho de 1944, reproduzida nesse livro, diz: “Ontem, eu estava na vanguarda. A situação não melhora. Devemos preparar-nos para acontecimentos sérios. As tropas, tanto da SS como do Exército, se batem com grande coragem, mas o equilíbrio de forças se inclina cada vez mais a favor do inimigo. Nossa aviação tem um papel muito modesto na zona de combate. Estou bem. Tenho que manter a minha cabeça erguida, mesmo quando devemos abandonar muitas esperanças. Em breve, enfrentaremos decisões sérias que te recordarão a nossa conversa de novembro de 1942.”

A referência feita por Rommel remetia a uma conversa mantida por ele com a esposa, após uma reunião com o Führer Adolf Hitler e o comandante da Força Aérea, Hermann Goering, em seguida à derrota alemã na Batalha de El Alamein (outubro-novembro de 1942, no Egito). Na ocasião, ele lhe disse que a guerra estava perdida e que deveria ser tentado o mais rápido possível se chegar a uma paz de compromisso (seg. Mariscal Rommel, Memorias: Los años de derrota, Editora Latino Americana, México, 1957).

Essa paz de compromisso seria tentada mais tarde, em 1943, quando a Frente Oriental também acabava de inclinar-se em favor do Exército soviético. E agora, após a II Guerra Mundial, essa paz de compromisso volta a se manifestar.

Entre 22 de junho, início da invasão alemã, e 15 de julho de 1941, o Exército Vermelho foi esmagado. Lutou com heroísmo, quando lutou ou teve que lutar, mas não conseguiu deter a maquinaria militar alemã, a Wehrmacht. Em 16 de julho, a situação começou a mudar. Naquele dia, as tropas alemãs chegaram à cidade de Smolensk, a 400 quilômetros de Moscou. Ali, o Exército Vermelho estava determinado a deter a Blitzkrieg alemã – e quase conseguiu. Uma luta feroz se travou e, mesmo quando a cidade caiu, os combates prosseguiram até meados de agosto, nas linhas a leste de Smolensk. O avanço alemão não parou, mas os alemães se perguntavam por que os russos não entendiam que haviam sido derrotados.

A decisão de Hitler, de desviar o avanço para Moscou e reforçar os ataques rumo a Leningrado e Kiev, proporcionou um respiro aos soviéticos, mas a Blitzkrieg não existia mais; a até então invencível máquina militar alemã se esgotava na vastidão do solo russo e diante da bravura dos soldados soviéticos. Então, quando o ataque a Moscou foi reiniciado, em novembro (outubro foi literalmente perdido por causa das chuvas), ficou claro que o impulso alemão havia sido contido.

A Batalha de Moscou não foi o que o Alto Comando alemão esperava. O Exército soviético não se mostrava mais desorganizado: os combatentes que enfrentavam a máquina de guerra alemã diante da capital não eram mais os soldados bisonhos de junho, mas os siberianos. E siberiano não é um termo racial ou regional, mas refere-se aos soldados soviéticos que derrotaram o Japão, naquela guerra desconhecida que a Rússia e o Japão travaram no Extremo Oriente, na fronteira entre a URSS, Mongólia e Manchúria, entre maio e setembro de 1939 [Batalhas de Khalkhin Gol – n.e.], que terminou com uma decisiva vitória soviética. A indústria, que havia sido transferida às pressas para o outro lado dos Urais, estava começando a funcionar, graças ao patriotismo dos soviéticos que não estavam na frente. Os alemães já haviam enfrentado os capazes tanques russos e os temiam, e, agora, os enfrentavam em formações bem organizadas e concentradas.

Em 6 de dezembro, os alemães sofreram uma derrota esmagadora e tiveram que fugir, não foi uma mera retirada, deixando para trás uma grande quantidade de equipamentos e materiais e milhares de mortos. A guerra já estava perdida para a Alemanha, embora ainda faltasse derrotá-la.

A União Soviética estava sozinha contra um poderio difícil de imaginar: veículos fabricados na França, Alemanha e Checoslováquia; tanques britânicos, franceses e checos capturados; as maiores e mais produtivas áreas industriais do mundo, o Ruhr, o Reno, as regiões fronteiriças da Itália e da França e a peça principal, a Silésia, metade polonesa e metade checa; mão-de-obra escrava para fazer e desfazer; a Finlândia, à qual não faltavam motivos de ressentimento contra a URSS, juntara-se à Alemanha no avanço contra Leningrado; e contava com soldados não apenas nacionais, mas também dos países ocupados. A vitória não só parecia possível, mas fácil.

No entanto, os alemães não contavam com duas coisas. Primeiro, o patriotismo soviético não estava nos seus cálculos. Segundo, lhes faltava gasolina. Claro, a vastidão do território soviético jogou contra eles, mas também contra os soviéticos, bem como o clima; afinal, 45 graus abaixo de zero é temperatura mortal para qualquer homem, só que os soviéticos estavam vestidos adequadamente para o inverno e suas armas e equipamentos foram fabricados para o clima da URSS. As imagens de propaganda dos soldados soviéticos atacando em esquis ou a cavalo nas paisagens de inverno dizem muito sobre isso. As imagens de soldados atacando a cavalo e sabres na mão, no meio do inverno, foram uma das muitas maneiras de animar o moral da população soviética. Na realidade, os cavalos não passavam de meios de transporte e eram mantidos em segurança, longe da frente de batalha. Na Polônia, a cavalaria polonesa se atreveu a enfrentar os tanques alemães e foi completamente destruída.

Após a fuga de Moscou, o Exército alemão se retirou para uma distância entre 200 e 300 km de Moscou. Leningrado estava sitiada e Kiev caíra. Ou seja, grosso modo, a frente se estabilizou em uma linha que ia de Leningrado (hoje São Petersburgo) até Rostov, no Mar Negro.

A Wehrmacht precisava resolver o problema do combustível. Até aquele momento, as reservas haviam sido suficientes para a invasão, mas, agora, a sua escassez começava a ser sentida. A decisão foi tomar os campos de petróleo de Baku, no Cáucaso. Mas, para isto, seria preciso conter o Exército Vermelho. A decisão foi capturar Stalingrado.

A Alemanha não tinha petróleo. Nos países que ocupou, as reservas de combustível destes países foram prontamente capturadas. Conseguiram algo, anexando a Áustria, um pouco mais com a invasão da Polônia e, finalmente, logrou acesso ao petróleo da Romênia, com a ressalva de que os campos produtores estavam a pouca distância da Península da Crimeia, de onde, quase desde o início da invasão alemã, partiam ataques aéreos contra eles.

Os ataques a Stalingrado e ao Cáucaso foram simultâneos. As duas campanhas estão estreitamente ligadas. Com a conquista da Crimeia e a tomada de Stalingrado, se protegeriam as tropas que se dirigiam a Baku pelas montanhas caucasianas.

Na Crimeia, se defrontaram os dois aspectos que marcaram os dois primeiros anos da guerra: o indescritível patriotismo de Sebastopol e a incompetente defesa da Península de Kerch. Mas, de uma maneira ou de outra, a linha de frente se manteve. Os militares soviéticos estavam aprendendo a lidar com os alemães a duras penas. Os alemães, conscientes da incapacidade de vencer a guerra, tinham que buscar combustível para sustentar o esforço de guerra e buscar um “empate”, para negociar a paz em condições de poder, que possuíam e ainda era formidável.

A campanha de Stalingrado é amplamente conhecida, tanto pelo seu heroísmo como pela magistral demonstração da capacidade tática do general Georgi Zhukov. A cidade resistiu a um ataque brutal: o pior bombardeio aéreo até então sofrido por uma cidade. No primeiro dia, quase a metade da cidade foi riscada do mapa, com 40 mil pessoas mortas. Mas Stalingrado permaneceu firme. Combateu e combateu sem descanso. As tropas alemãs chegaram ao Volga e foram rechaçadas. Elas voltaram ao rio, dividiram o Exército Vermelho em dois, mas não conseguiram subjugá-lo. Até que, em meados de outubro, o Exército alemão parou, não podia mais. Então, começou a ofensiva soviética, pelo norte e pelo sul do que restava da cidade, e isto não é mera retórica, a cidade fora arrasada – mas não desistiu.

Nessa ofensiva, um exército italiano, um romeno e o Sexto Exército alemão, comandado pelo general Friedrich Paulus, foram cercados.

Erich von Manstein, comandante do recém-criado Grupo de Exércitos Don, tentou romper o cerco, mas foi detido e teve que retirar-se – agora, sim, de forma ordenada – em direção ao Mar Negro. A ofensiva de Zhukov não se deteve e fez com que os alemães perdessem Rostov e Kharkhov. O exército que ocupava o Cáucaso se dirigiu apressadamente para o norte, pois o risco de ficar preso era iminente.

Com a vitória de Stalingrado, Baku foi salva. Os soviéticos, agora, tinham o comando das ações. A perspectiva de uma paz negociada desapareceu e a Alemanha corria o risco de, mesmo com todas as suas forças, ser derrotada no início de 1943. Von Manstein tinha, agora, que usar todas as suas habilidades criativas para conter o avanço soviético, pois a derrota fora esmagadora e havia o risco de que todas as tropas que fugiam do Cáucaso, as que se retiravam das vizinhanças imediatas de Stalingrado e as que estavam ao redor da Crimeia, fossem avassaladas. A Alemanha ainda contava com um considerável poderio, mas havia perdido a iniciativa e não tinha mais energia. A indústria soviética agora estava funcionando plenamente; a ajuda dos Aliados ocidentais estava chegando; os comandantes soviéticos se mostravam competentes; e o moral das tropas soviéticas era incomparável. Uma coisa foi o inverno doloroso de 1941-42, outra, o inverno de 1942-43.

A perda de meio milhão de homens e da zona rica em matérias-primas do Leste da Ucrânia seria um golpe do qual a Alemanha não se recuperaria.

Isso era o que o que estava em jogo.

Von Manstein e a retirada estratégica

Foi daí que surgiu a ideia de retirada estratégica ou defesa móvel. A guerra está perdida, von Manstein o sabe. Então, o que deve ser alcançado é uma vitória que faça parecer aos soviéticos que eles não poderiam derrotar a Alemanha. Sob tais condições, busque-se uma paz que preserve a Alemanha nazista. Mas ele não pode fazer frente a Zhukov, o impulso do Exército soviético é enorme. Então, decide recuar, contra as ordens de Hitler.

A enormidade do território soviético joga contra os dois lados. Ao retirar-se, von Manstein se aproxima da sua retaguarda e de suas reservas de gasolina, alimentos, munição e homens. Zhukov, continuando a ofensiva, se afasta das suas bases de suprimentos, que já estão a centenas de quilômetros de distância. O impulso do Exército soviético foi tão sólido que esmagou toda a resistência alemã, mas se afastou bastante dos seus centros de abastecimento. Agora, ele se deparava com o dilema de continuar o ataque – algo a que Stalin o instigava – ou deter-se, embora isto significasse que os alemães poderiam organizar as suas forças para a defesa. Recorde-se de que são cerca de meio milhão de alemães envolvidos na fuga para o Mar Negro.

Zhukov decidiu continuar seu ataque e as tropas de von Manstein continuaram a sua retirada, para se não ficarem na posição de uma bigorna que recebe golpes de um martelo, dirigindo-se ao norte, enquanto tropas alemãs vindas do sul se preparavam para atacar o flanco das forças de Zhukov. Esta foi a primeira e única derrota de Zhukov e a última derrota soviética, ou a última vitória alemã, se se preferir.

Von Manstein obteve uma vitória estratégica dentro da derrota, em meio à retirada. Era possível, dado o poderio alemão, buscar uma paz honrosa, embora os Aliados já tivessem decidido que a única paz possível era a rendição incondicional e diante de todos os Aliados. Stálin tinha uma preocupação paranoica com a possibilidade de a Alemanha de Hitler buscar uma paz em separado com os Aliados ocidentais. Também se mencionava que os alemães procurariam render-se aos Aliados ocidentais, para fazerem uma cruzada contra a União Soviética. Nada disso aconteceu. Não naquele momento.

Agora, estamos em um momento diferente.

Em Nuremberg, von Manstein foi julgado e condenado a 18 anos de prisão, embora a pena tenha sido reduzida posteriormente. Tendo cumprido apenas quatro anos, ele foi libertado. A Europa se via ameaçada pela União Soviética, que, em qualquer momento, poderia despejar uma avalanche dos tanques mais modernos contra uma Europa indefesa. A única pessoa capaz de liderar a defesa daquela já quase vítima dos inenarráveis interesses e apetites soviéticos era, precisamente, o marechal Erich von Manstein.

A estratégia que se tornaria a Operação Gládio tinha a intenção de conter os soviéticos e impedir a ocupação comunista da Europa. E por que von Manstein? Simplesmente, porque ele criou o conceito de retirada estratégica, a retirada vitoriosa dentro da derrota, não para derrotar o oponente, algo impossível, mas para obter condições razoáveis de retirada ou, mesmo, de derrota. A Europa estava estrategicamente em desvantagem, de acordo com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e, dentro dela, tinha que agir para impor condições à União Soviética.

Em suma, toda essa histeria levou à era do terrorismo cego e do assassinato de personalidades políticas, nas décadas de 1970 e 1980. Ela liderou a OTAN na criação de organizações clandestinas, nas quais criminosos comuns se misturavam com terroristas e “combatentes da liberdade” preparados para lutar, supostamente, contra o terror comunista. Eles dispunham de arsenais ocultados fora das vistas do público, para enfrentar a invasão comunista como guerrilheiros. Foi uma época em que, quando se enfrentavam dois bandos, ambos recebiam armas, dinheiro e apoio da mesma fonte. A invasão comunista, que não havia ocorrido em 1960, nem em 1970, como diziam as seitas, tinha agora que coincidir com o ano de 1988, quando se cumpriam 1.000 anos da Terceira Roma, Moscou. Como nos anos anteriores, também não aconteceu.

O que aconteceu, entre 1989 e 1992, foi a queda do Muro de Berlim, o colapso da URSS e o desaparecimento do Pacto de Varsóvia. A ameaça comunista havia se desvanecido. Não havia mais um inimigo à frente. Era o momento de se estabelecer uma paz duradoura em todo o mundo. O Ocidente, ou melhor, os Estados Unidos, prometeu que a OTAN não se aproximaria das fronteiras russas. Claro, foram palavras, porque nada se converteu em tratados ou acordos.

O Ocidente se proclamou o vencedor da Guerra Fria, o policial do mundo. Os seus porta-vozes proclamaram o “fim da História”. Ronald Reagan e Margaret Thatcher (quero meu dinheiro!) abriram o caminho para a globalização, talvez, a forma mais corrupta de declínio e, pouco a pouco, 10% da população tornou-se dona de riqueza equivalente à de metade dela; alguns anos depois, a proporção caiu para 1% e, agora, para 0,01% da população detendo mais riqueza que mais da metade inferior. O mundo tinha um dono exclusivo e tinha que aceitar a democratização ocidental e a globalização.

A arrogância do Ocidente, a sua forma de declínio, era imparável. Poderia esmagar quem quisesse sem pedir a permissão de ninguém e, se não acreditarem, perguntem à Servia, Líbia e Iraque. Só haviam deixado algumas pontas soltas. A China, que se encaixava perfeitamente no esquema da globalização e o usava para atender aos seus interesses, e a Rússia, que estava tão enfraquecida que não merecia a menor atenção. Além disso, no novo século, chegou ao poder um homem que fazia parte do círculo de Boris Yeltsin, Vladimir Putin, nada com que se preocupar.

2020: declínio do Ocidente

Agora, estamos em 2020. O declínio do Ocidente é irremediável. Já é um fato que o mundo é multipolar, ou seja, a antiga ordem de um único centro mundial desapareceu. O poderio militar insuperável e invencível do Ocidente foi quebrado, e não apenas pelo anúncio do presidente Putin das novas armas avançadas, que deixaram para trás as democratas ocidentais, mas também pelas declarações do presidente da França, Emmanuel Macron, sobre a “morte cerebral” da OTAN. Se diz que a China será a grande potência mundial em 2050 – falsidade das falsidades, porque a China já é a primeira potência econômica do mundo. O poder econômico estadunidense já é de terceira classe. E isto não é uma afirmação ideológica: durante todo o tempo em que a China crescia a taxas de 8-9% ao ano, os Estados Unidos e a Europa não faziam investimentos em infraestrutura. A China, por outro lado, já possui as melhores ferrovias do mundo, uma rede elétrica que está se estendendo por todo o seu vasto território, está construindo usinas nucleares. Agora, com a epidemia do coronavírus, foi surpreendente a velocidade com que a China pode construir um novo hospital, graças ao uso das mais recentes técnicas, como a impressão 3D. O presidente Donald Trump quer tornar os EUA grandes novamente. Em primeiro lugar, isto significa que seu país não é mais grande como antes, e quando vemos na imprensa que a sua principal preocupação é a venda de grãos para a China, só percebemos declínio. Uma potência, como é a China, está se empenhando para instalar a tecnologia 5G em todo o mundo e está na disputa pela primazia mundial em inteligência artificial (IA).

A Rússia, por outro lado, também está progredindo a um ritmo surpreendente, embora não tanto quanto a China. Já é a quinta economia do mundo. Naturalmente, dada a possibilidade de a Rússia volte a ser incluída no G-7, retomando o G-8, o presidente russo prefere o formato G-20, onde estão a China e a Índia. O mundo já é diferente, não está mudando: já mudou. A Rússia é agora a referência em diplomacia internacional.

Neste exato momento, há um aumento das tensões no Oriente Médio. Mas, recordemos: elas não se parecem com as ocorridas quando o governo da Síria recapturou Aleppo? A Síria está cercando os grupos terroristas que se refugiam em Idlib e a Turquia rasga as suas roupas pela morte dos seus soldados – que estavam entre os terroristas e foram atingidos pelo fogo sírio. Com quem é a reunião do presidente Recep Erdogan para diminuir a tensão? Bem, com Putin. A quem ligaram Macron e a chanceler alemã Angela Merkel? Se não me falha a memória, Putin.

Igualmente, nesses últimos dias, a diplomacia estadunidense fez uma modificação radical em suas declarações: agora, todas as medidas que tomarem seguirão o Direito Internacional. Esta era, até então, a posição invariável da diplomacia e da política russas. Porém, a diferença é que, para os Estados Unidos “a lei sou eu” e, exceto pelas declarações de que agora se regem pelo Direito Internacional, o seu comportamento permanece o mesmo que no passado, a lei dos Estados Unidos se aplica em todo o mundo, em função do seu poderio militar e do poder do dólar.

Antes da chegada de Trump ao poder, a discussão entre os círculos políticos estadunidenses era como recuperar o poder protagonista do país na esfera internacional, uma vez que a Rússia e a China os haviam deslocado. Tudo apontava e, creio, continua apontando, que a sua esfera de influência deve ser a América Latina. No entanto, o fato é que desde 2010 os Estados Unidos estão cientes de que perderam a sua influência. Recordo-me de ler, naquela época, que o presidente Barack Obama gostava de rap, que sabia quem era o rapper Fulano de Tal. Isto se chama decadência. (Recorde-se que, naquela época, o presidente mexicano Vicente Fox declarou, cheio de orgulho, que havia mandado fazer algumas botas de couro em Madri. Quando o presidente José Lopez Portillo visitou a Espanha, em 1977, ele encabeçou a sua comitiva e surpreendeu os especialistas espanhóis em arte com os seus conhecimentos, em uma visita ao Museu do Prado. A isto me refiro quando falo em decadência.)

O último exemplo do fracasso do Ocidente é a recente Conferência de Segurança de Munique. Para mim, com toda franqueza, parecia estar assistindo a um discurso de Josef Goebbels, quando o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, afirmou que o Ocidente “está vencendo” e todos os exemplos dados por ele se referiam à derrota dos EUA e da OTAN no campo militar. Os refugiados, produto das guerras perdidas no Oriente Médio e na Líbia, estão efetivamente indo para a Europa, não para Cuba ou a Venezuela, porque estão longe da Europa. Quem procura refúgio nos Estados Unidos, onde são rechaçados, são latino-americanos, o que, obviamente, ele não mencionou. É verdade que também houve questionamentos europeus sobre o relacionamento entre a Europa e a Rússia. Importantes, evidentemente, mas ainda tíbios.

O problema, tanto na Europa como nos Estados Unidos, é a falta de investimentos, já não apenas em seus territórios, mas em territórios vizinhos. A Europa e os Estados Unidos poderiam ser grandes, e realmente grandes, se ajudassem a transformar e industrializar a América Latina e a África. No entanto, preferem enriquecer o seu seleto grupo de bilionários, em vez de incentivar o progresso. Esta é a decadência.

Nos últimos dias, comentou-se, entre outras coisas, que os Estados Unidos devem aceitar que o mundo mudou e negociar a distribuição de esferas de influência com a China e a Rússia. Tampouco, isto não é uma ideia que se oponha à decadência.

O último ponto: o problema moral dos Estados Unidos e da Europa. A base das sociedades russa e chinesa é a família. Basta observar o debate sobre as modificações propostas por Putin para a Constituição Russa. Este conceito desapareceu quase completamente na sociedade europeia e, nos Estados Unidos, há uma polarização: digamos que metade da população – e nesta metade está Trump – ainda tenha a família como base da sociedade; a outra metade, simplesmente, não tem uma base. O principal perigo de ter uma sociedade sem base é para a segurança nacional. O megaespeculador George Soros sabe que todas as campanhas que patrocina com sua rede de ONGs da “Sociedade Aberta”, sejam feministas, pró-aborto, homossexuais ou de legalização das drogas, não têm nada a ver com seres humanos, pelos quais não tem interesse (na verdade, não é apenas ele, mas todo o mecanismo financeiro de Wall Street, FMI, Banco Mundial etc.). Quando se move uma peça de xadrez, não se acha que ela seja amiga; se tenho que sacrificá-la, o faço e pronto!

Como dizia o grande industrial italiano Enrico Mattei: se tomo um táxi, não tenho que pagar pelo serviço? Deve haver uma sociedade dividida, confrontada e em choque permanente. Esta é uma maneira segura de impedir que a sociedade pense e se concentre em seus problemas reais. Pessoas decadentes induzem mais deterioração desta maneira. A menos que eu esteja enganado, isto diz respeito à segurança nacional. Nessa sociedade confrontada e dividida, o secessionismo é mais provável (em países como o México, é uma ameaça latente, podendo-se perceber o germe desse secessionismo na acirrada oposição ao projeto do Trem Maia), do qual emergem nações ainda mais fracas.

Me parece que o Ocidente está adotando uma defesa móvel, no estilo de von Manstein. Ele já percebeu o seu declínio e está tentando adaptar-se a ele com medidas defensivas, que mostram que ainda tem forças para obter uma “paz negociada”. Aí, precisamente, se mostra o seu declínio, pois com essa maneira decadente de se ver o mundo é impossível entender que o mundo já é outro e que este novo mundo oferece enormes oportunidades de cooperação em questões de comércio, economia, segurança e progresso.

Ou será como o Ricardo III de Shakespeare: estou tão metido em um mar de sangue, que seguir em frente ou recuar não importa.

* O autor é membro do conselho editorial da Capax Dei Editora e correspondente da Resenha Estratégica na Cidade do México.

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