China-Rússia: "acordo do século" – mas apenas passo inicial

Apontado por numerosos comentaristas como o “acordo do século”, o pacote de negociações acertado durante a recente visita do presidente russo Vladimir Putin a Xangai, a despeito da sua dimensão, é apenas um primeiro passo no caminho do estabelecimento de uma nova dinâmica de desenvolvimento global, que supere o unilateralismo dos interesses hegemônicos do eixo Washington-Wall Street-Londres-Bruxelas.

O acordo é um triunfo político inegável para Putin e uma resposta prática à insidiosa política “ocidental” de contenção da Rússia. Para a China, foi um sucesso econômico, que lhe permite planificar com maior liberdade o desenvolvimento nacional. Para o mundo, um indício da emergência de uma nova ordem monetária e financeira, na qual acordos regionais de desenvolvimento físico-econômico criarão os seus próprios mecanismos, abrindo caminho à possibilidade de instauração de uma ordem monetária multipolar, que substitua de fato a ordem hegemônica do dólar. Na realidade, a possibilidade de a Europa, especialmente, a Alemanha, se unir a este impulso eurasiático, representa a principal motivação dos centros de poder anglo-americanos para fustigar os principais conflitos em curso no planeta, especialmente, na Ucrânia. Portanto, não se trata de trocar uma hegemonia por outra, mas de criar uma nova era para a Civilização mundial, à qual aqueles poderes em decadência resistem a ferro e fogo, literalmente falando.

De fato, os dois gigantes manifestaram a intenção de elevar as suas já significativas relações econômicas, tecnológicas, militares e políticas a níveis raras vezes atingidos entre grandes potências. Sem chegar a estabelecer formalmente uma “aliança”, é inegável que Pequim e Moscou percebem tal parceria como um importante instrumento para a consecução dos seus próprios interesses nacionais, em um perigoso cenário global de crise econômico-financeira e tensões internacionais acirradas pela agressividade do eixo “ocidental” encabeçado pelos EUA. Um indicador disto é o fato de que a cúpula de Xangai, paralela à realização da 4ª. Conferência sobre Interação e Medidas de Construção de Confiança na Ásia (CICA, na sigla em inglês), é o quarto encontro entre Putin e seu colega chinês Xi Jinping, desde março, tendo o último visitado Moscou três vezes, este ano.

A própria opção de Putin de comparecer ao encontro é significativa, pois, até agora, a pouco conhecida CICA, criada em 1992, não passava de um fórum de discussões quase inócuo, apesar de reunir integrantes de peso entre os seus 24 membros – além da China e Rússia, inclui, entre outros, Coreia, Tailândia, Turquia, Irã, Israel e Japão (como observador). No evento, Xi enfatizou a necessidade de a região estabelecer uma nova arquitetura de segurança coletiva, mais adequada às suas próprias necessidades – uma clara alusão às crescentes intervenções dos EUA no Pacífico Ocidental. Para ele, a entidade deveria se converter em um “diálogo de segurança e uma plataforma de cooperação”, estabelecendo um “mecanismo de consultas de defesa” e um “centro de respostas de segurança” para grandes emergências (AP, 21/05/2014).

Compreensivelmente, uma mídia internacional mais inclinada aos aspectos econômicos deu mais destaque ao megacontrato assinado entre a estatal russa Gazprom e a sua contraparte chinesa CNPC, para o fornecimento de 38 bilhões de metros cúbicos anuais de gás natural à China ao longo de 30 anos, negócio estimado em 400 bilhões de dólares, dos quais a CNPC deverá antecipar 25 bilhões, para a construção da infraestrutura necessária. Como enfatizou o próprio Putin, apenas o desenvolvimento dos campos gasíferos de Irkutsk e Yakutia-Sakha e a construção do gasoduto até a China deverão ser, “sem qualquer exagero, o maior projeto de construção do mundo, nos próximos quatro anos” (Novosti, 21/05/2014).

O contrato, que vinha sendo negociado há uma década, é um dos maiores da História e proporciona à Rússia uma oportuna diversificação das suas exportações energéticas, colocadas na alça de mira das sanções impostas por Washington e Bruxelas, por conta da assertividade de Moscou na crise na Ucrânia, a despeito da dependência europeia do gás russo em cerca de um terço das suas necessidades.

Atualmente, o comércio bilateral sino-russo está na casa de 90 bilhões de dólares anuais, com perspectivas de atingir 100 bilhões, em um prazo relativamente curto.

Porém, uma iniciativa com potencial de influência global ainda maior é a intenção dos dois governos de ampliar os pagamentos mútuos nas moedas nacionais, além de considerar a criação de novos instrumentos financeiros baseados nelas – notícia pouco auspiciosa para o sistema financeiro baseado no dólar estadunidense. Tais medidas poderão ganhar dimensão ainda maior com a esperada confirmação do lançamento oficial do fundo conjunto de reservas e do banco de desenvolvimento do BRICS, que deverá ocorrer na cúpula do grupo em Fortaleza, em julho, logo após a Copa do Mundo.

Isto não significa que Pequim e Moscou estejam interessadas em destronar a moeda estadunidense, até porque a China é a maior detentora de ativos em dólares e tem se beneficiado largamente com o intercâmbio de produtos baratos por dólares. Mas os dois países atuam de forma reativa, no caso da Rússia, pressionada pelas sanções econômicas impostas pelos EUA e a União Europeia (UE), e duplamente preventiva, com o intento de estabelecer uma proteção mínima contra uma eventual derrocada da moeda estadunidense, que um número crescente de analistas considera uma questão de “quando”, em vez de “se”. Não por acaso, ambos estão acumulando vastas quantidades de ouro físico, que, segundo a maioria dos analistas, superam amplamente as reservas oficiais.

Outras iniciativas relevantes anunciadas em Xangai envolvem a cooperação em áreas intensivas em tecnologia, como a aviação civil e militar. Em seu discurso em Xangai, Putin se referiu à cooperação bilateral em tecnologia militar como “um importante fator de estabilidade e segurança, na região e no mundo como um todo”.

Igualmente, o presidente russo mencionou a criação de uma Universidade Russo-Chinesa, baseada nos modelos da Universidade Estatal de Moscou e a Universidade de Tecnologia de Pequim (Kremlin, 20/05/2014).

A ostensiva aceleração da parceria russo-chinesa é uma reação imediata às pressões estadunidenses e europeias contra Moscou, motivadas pela crise ucraniana. De uma forma explícita, ela apresenta ao mundo uma perspectiva construtiva oposta à agenda de dominação financeira e promoção de instabilidade, oferecida por Washington e Bruxelas, como se vê na Ucrânia e em uma lista de países, que inclui a Síria, Líbia, Iraque, Afeganistão, Irã e Kosovo. Em especial, ela engloba os dois “sonhos de consumo” de Moscou e Pequim – respectivamente, uma área de livre comércio entre Lisboa e Vladivostok e a construção de uma “Nova Rota da Seda”, um vasto corredor de infraestrutura de transportes entre a China e a Europa, já nos estágios iniciais.

Desafortunadamente, a concretização plena de tal perspectiva não pode prescindir do lado europeu, que, no momento, está excluído dela, devido à submissão europeia à agenda hegemônica estadunidense, ditada pelos setores mais belicistas do Establishment anglo-americano.

Ademais, o “modelo chinês” de produção industrial, baseado em baixos salários, não é sustentável a longo prazo, inclusive, por provocar uma desindustrialização precoce em numerosos países, com os consequentes impactos socioeconômicos e políticos causados pelo fenômeno.



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