Caso Nisman: sigam os voos dos abutres

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Aos poucos, o caso do misterioso assassinato do promotor argentino Alberto Nisman, em janeiro último, vai revelando evidências que apontam para uma complexa trama internacional, envolvendo interesses estadunidenses, israelenses e da alta finança globalizada. O mais recente personagem a entrar em cena é o bilionário estadunidense Paul Singer, dono do NML Elliott, um dos “fundosabutres” que estão processando o governo argentino para tentar obter um ressarcimento integral dos títulos da dívida argentina que compraram por uma reduzida fração do valor original.

No domingo 19, a presidente Cristina Kirchner publicou em sua página na internet uma nota vinculando Nisman a Singer, o principal representante dos “abutres”, que conseguiram na Justiça dos EUA o bloqueio dos pagamentos da dívida argentina aos credores que aceitaram o acordo de renegociação feito em 2005.

Segundo ela, “estamos diante de um modus operandi de caráter global, que não só fere severamente as soberanias nacionais mas que, além disso, gera operações políticas internacionais de qualquer tipo, forma e cor. São de lobbies até ataques financeiros ou operações midiáticas internacionais simultâneas ou, o que é pior, ações encobertas de diferentes serviços destinados a desestabilizar governos (El País, 19/04/2015)”.

No dia seguinte, o seu chefe de gabinete, Aníbal Fernández, detalhou como Nisman se relacionava com os”abutres” e afirmou que as ações do falecido promotor tinham como objetivo a desestabilização do governo.

“Quando se começa a procurar, se encontra essa Foundation for the Defence of Democracies (FDD). Essa fundação recebeu 3,6 milhões de dólares de Paul Singer, entre 2008ea 2014. Essa fundação é a mesma que fez pelo menos seis informes negativos contra a Argentina, apresentando bem os abutres e questionando a tarefa que se vinha levando a cabo com Teerã”, disse ele, referindo-se ao memorando de entendimento com o governo do Irã, para uma investigação conjunta do atentado à Associação Mutual Israelense Argentina (AMIA), em 1994, que deixou 85 mortos e vinha sendo investigado por Nisman (RT, 20/04/2015).

Segundo ele, “aparece a atividade de Nisman com respeito a relação com a DAIA [Delegação de Associações Israelitas Argentinas] e a AMIA, na qual ele insiste e começa a fazer as suas próprias operações e as conversas com eles sobre atacar o memorando de entendimento”.

Em uma dessas conversas, afirmou, Nisman teria dito: “Se for necessário, Paul Singer vai nos ajudar. E por que disse que Paul Singer ia ajudar? Por que os membros das associações dizem isso e é voz corrente qual é essa relação: porque o próprio diretor-executivo da FDD, Mark Dubowitz, admitiu na CNN que era um amigo pessoal deNisman, com o que todo esse financiamento dos abutres era o que financiava a relação com Nisman.”

Em um artigo publicado no jornal Página 12 (“Abutres, Nisman, DAIA: o caminho do dinheiro”), no sábado 18, o sociólogo Jorge Elbaum, ex-diretor-executivo da DAIA, acrescentou mais detalhes à trama.

De acordo com ele, em dezembro de 2012, o chanceler Héctor Timerman visitou a DAIA para explicar as negociações com o Irã, acusado de ter sido o mandante do atentado à AMIA (Resenha Estratégica, 21/01/2015, 28/01/2015 e 4/03/2015). Na ocasião, se reuniu com lideranças da comunidade judaica e familiares das vítimas do atentado, que teriam considerado positivas as explicações. Logo em seguida, porém, desatou-se uma forte pressão de outros integrantes da comunidade e das embaixadas dos EUA e de Israel, condenando qualquer entendimento com o Irã.

Em janeiro de 2013, Cristina Kirchner anunciou o acordo com o Irã, cujo Memorando de Intendimento foi aprovado pelo Congresso, em 11 de março seguinte. No mesmo dia, escreve Elbaum,

realizou-se uma reunião no bairro de Arlington, em Washington, na qual os membros da Força-Tarefa Estadunidense sobre a Argentina (ATFA, na sigla em inglês) decidiram incorporar o Memorando de Entendimento como mais um aríete para condicionar o nosso país a negociar de forma mais vulnerável frente aos fundos especulativos. Além de tomar a decisão de realizar uma campanha negativa sobre os acordos feitos com Teerã, mediante anúncios publicados em diferentes jornais, resolveu-se contatar dirigentes e políticos locais, para solicitar-lhes que se manifestassem rapidamente de forma crítica sobre o tratado em questão, oferecendo todo tipo de “colaboração para defenestrar o governo argentino.

Em 12 de junho de 2013, a ATFA, majoritariamente financiada por Paul Singer, presidente do fundo NML Elliott, publicou um anúncio intitulado “Aliados vergonhosos”, que mostrava uma fotografia da presidente Cristina Fernández [de Kirchner] junto ao então presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad. “Chegou o momento de se impedir que a Argentina continue transgredindo as leis estadunidenses e as leis internacionais”, dizia o anúncio em letras garrafais. Em 16 de junho de 2014, a Suprema Corte estadunidense decide não assumir o caso da dívida argentina, deixando caminho livre para o juiz [Thomas] Griesa [de Nova York], para continuar amparando os fundos especulativos internacionais.

Em seguida, Elbaum afirma que, em julho de 2013, o presidente da Comissão de Segurança Interior da Câmarados Deputados dos EUA, Jeff Duncan, enviou uma carta a Cristina Kirchner, queixando-se da decisão da procuradora Gils Carbó, de não autorizar o comparecimento de Nisman ao Congresso estadunidense. Dois dias depois, Duncan enviou outra carta, ao secretário de Estado John Kerry, advertindo que “a Argentina pode estar tentando apoiar o programa iraniano ilícito de armas nucleares”.

Na mesma ocasião, o senador Mark Kirk também enviou uma carta a Cristina, questionando as negociações com o Irã:

(…) Dias depois dessas três cartas, o promotor Nisman iniciou uma série de reuniões com osdirigentes da DAIA e da AMIA, onde se acertam os passos seguintes, para evitar a aplicação do memorando. Em tais reuniões… Nisman repetiu fervorosamente que estava disposto a colocar “recursos próprios” para colaborar com a DAIA e destruir o memorando. “Se for necessário, Paul Singer vai nos ajudar”, afirmou, diante dos surpresos interlocutores. (…)

Durante todo o ano de 2013, a Foundation for Defence of Democracies (FDD), think-tank republicano cujo diretor-executivo é Mark Dubowitz, divulgou seis “estudos” destinados a depreciar a política argentina frente aos abutres e as negociações com Teerã. Dubowitz deu uma entrevista à CNN, afirmando ser amigo pessoal de Nisman… O relevante é que a FDD, dirigida pelo amigo íntimo deNisman, recebeu 3,6 milhões de dólares entre 2008 e 2014, provenientes de aportes de Paul Singer, segundo uma reportagem da agência International Press Service. (…)

Se se pretendesse fazer caso omisso de todas essas coincidências chamativas, que poderiam intitular-se um “caminho do dinheiro”, talvez, se devesse iniciar a pesquisa de trás para a frente: após a morte do ex-promotor, foi criada uma página na internet – com domínio nos EUA – em homenagem aNisman. A motivação de tal portal é reconhecer “aqueles que de maneira similar lutam pela justiça e mostram coragem excepcional diante de obstáculos substanciais”. A página http://albertonisman.orgpromove um prêmio internacional apoiado pela FDD, do amigo íntimo de Nisman, Mark Dubowitz. O financiamento do prêmio corresponde, como seria de se esperar, ao senhor dos abutres, o titular do NML Elliott, Paul Singer.

Como afirma Elbaum, são muitas “coincidências” juntas. Seguiremos acompanhando os desdobramentos do caso, que ainda prometem revelações bastante sugestivas sobre os bastidores da “alta política” internacional, nestes tempos de crise sistêmica.

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