BRICS celebram oitava cúpula com avanços

“Os rumores sobre a minha morte são um tanto exagerados.”
– Mark Twain

A cada cúpula dos BRICS, a mídia ocidental, brasileira inclusive, se enche de artigos e comentários a respeito de um suposto esvaziamento do grupo integrado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Não obstante, a realização da sua oitava edição, em Goa, Índia, no último fim de semana, parece ecoar as palavras do genial escritor estadunidense, um mestre da ironia fina, diante dos rumores sobre o seu falecimento.

Se, no último ano, não tivesse havido qualquer outro avanço nas atividades conjuntas, o saldo do primeiro ano das operações do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) já justificaria uma celebração. Em abril deste ano, o banco anunciou as suas primeiras operações, com uma previsão de empréstimos no montante de 811 milhões de dólares para projetos de energia renovável – hidrelétrica, solar e eólica – nos cinco países do grupo, cabendo ao Brasil a maior fatia, de 300 milhões de dólares. Em julho, o NBD colocou no mercado títulos denominados em yuans em valor equivalente a 450 milhões de dólares, com vencimento em cinco anos. A demanda por eles foi três vezes superior à oferta (BBC Brasil, 15/10/2016)

Além disso, uma consulta ao sítio do Itamaraty revela que, no período em que a Índia ocupou a presidência rotativa do grupo (repassada à China), foram realizadas nada menos que 113 reuniões de grupos de trabalho sobre os mais diversos temas, inclusive a cooperação científica.

Como tem sido recorrente, o presidente russo Vladimir Putin apresentou uma visão realista do encontro, durante uma conversa com jornalistas russos, na qual a primeira pergunta foi, justamente, sobre a situação do grupo, incluindo uma indagação sobre possíveis repercussões da recente troca de governo no Brasil. O trecho relevante é este, de acordo com a transcrição oficial do Kremlin:

Pergunta – Muito tem se falado na mídia ocidental sobre os BRICS estarem enfrentando momentos difíceis. Desde que o Brasil teve um novo presidente, se diz que o país está pensando se necessita dos BRICS. Não é segredo o estado de tensão que existe entre a Índia e a China. De fato, os EUA têm estado cada vez mais pró-ativos no que diz respeito à Índia. O senhor tem dito, em várias ocasiões, que vê os BRICS como uma associação importante e viável. Quão sérios o senhor pensa que são os desafios enfrentados pelos BRICS, se eles existem? O BRICS conseguirá superá-los e quais são as perspectivas de desenvolvimento dos BRICS em geral?

Putin – Alguns dos nossos parceiros estão sempre tentando escavar problemas e desafios, não importa o que façamos. Mas, como dizemos na Rússia, por que se preocupar com um cisco no olho do seu amigo, quando você tem um graveto no seu? Sempre existem problemas, em qualquer lugar e nas relações entre os países. Isto significa que os países cujos representantes falam sobre os BRICS dessa maneira não têm problemas com os seus parceiros estratégicos e aliados mais próximos? De fato, eles têm um monte de problemas. (…)

Cada país, ainda mais grandes potências, têm os seus próprios problemas que podem ir contra os dos seus aliados mais próximos. Dito isto, em que se baseiam os interesses mútuos dos países dos BRICS? Eles se baseiam na similaridade das suas economias e nos objetivos com que se defrontam. Isto é tão óbvio eu não é preciso ser um especialista para entender. Basta olhar para as suas estruturas econômicas, padrões de desenvolvimento, taxas de crescimento e objetivos.

Você sabe, é esse interesse objetivo em manter contatos e promover a cooperação em várias áreas que está no cerne da nossa associação, e isso incentiva o otimismo. Além disso, para ser honesto, eu estou satisfeito com esse encontro, porque pela primeira vez eu vi que todas as partes envolvidas estavam genuinamente interessadas em desenvolver relações dentro desse marco, que poderá pavimentar o caminho para a cooperação em áreas específicas.

Novas áreas e marcos de cooperação, por exemplo, cooperação industrial, estão sendo desenvolvidos sobre as estruturas que já existem, como o Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo Contingencial de Reservas dos BRICS, com um capital total de 200 bilhões de dólares, uma quantia substancial, que será aumentada no futuro.

Nós estamos discutindo a introdução de padrões técnicos uniformes. Essas são iniciativas fundamentais para abrir caminho para a harmonização do desenvolvimento econômico e de políticas.

Ontem à noite, meu colega brasileiro e eu tivemos uma prolongada conversa para revisar o estado das nossas respectivas economias. Nela, vimos que temos muito em comum. Nós enfrentamos desafios globais comuns e seria mais fácil superá-los se combinarmos os nossos esforços.

Somando tudo, eu tenho uma visão bastante positiva dessa associação e eu acho que os BRICS têm toda chance de se desenvolver ainda mais.

Apesar de alguns jornalistas brasileiros terem dado destaque ao fato de o presidente Michel Temer não ter tido reuniões bilaterais com Putin e o presidente chinês Xi Jinping, a própria qualificação do presidente russo sobre a conversa com o brasileiro, no jantar oficial, sugere que não houve qualquer premeditação depreciativa por parte da chancelaria russa.

Uma iniciativa das mais interessantes – e potencialmente polêmicas – é a intenção de criação de uma agência qualificadora de riscos do grupo, que será objeto de estudos específicos. Previsivelmente, a tecnocracia fazendária brasileira já se posicionou contrariamente à proposta, com os argumentos de que ela não teria “credibilidade nos mercados” e “mandaria um sinal negativo para o mercado, justamente quando o Brasil tenta restabelecer pontes com investidores globais (Valor Econômico, 15/10/2016)”. A rigor, para tais prepostos do sistema financeiro encastelados no governo, os BRICS bem poderiam fazer o favor de sumir do mapa, concretizando o sonho dos adversários do grupo.

Para o Dr. Larbi Sadiki, professor de Ciências Políticas da Universidade do Catar,

o que distingue a cúpula atual das suas antecessoras, inclusive a anterior, em Ufá, Rússia, no ano passado, é a forte base existente sobre a qual os BRICS reforçam o seu papel global como um sério impulsionador do crescimento e contribuinte para o multilateralismo, a construção de instituições e a paz global (The BRICS Post, 16/10/2016)

Já o ex-diplomata russo Georgy Toloraya, diretor-executivo do Comitê Nacional Russo de Pesquisas sobre o BRICS, sintetiza assim a sua avaliação da cúpula de Goa e das perspectivas do grupo: (The BRICS Post, 17/10/2016)

Mas o mais importante, e frequentemente passado por alto ou ignorado, é o fato de que os BRICS foram criados para perseguir conjuntamente interesses comuns – e ele é relevante, na medida em que esses esforços conjuntos são mais eficientes do que se os desafios fossem enfrentados isoladamente. O objetivo final, que só os BRICS como uma força única podem atingir, é reformar a ordem mundial de uma maneira que a faça mais justa para a maioria do globo, terminar o velho sistema de dominação e não deixar que um novo sistema de dominação apareça.

Se os BRICS forem bem sucedidos na empreitada de reformar a ordem mundial, seguramente, não será pela via do confronto, mas por apresentar uma alternativa melhor para as relações entre as nações, nesta conturbada fase inicial do século XXI.

x

Check Also

Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão ...