Brasil: "sinodependência" perigosa

As exportações para a China ocupam uma proporção rapidamente crescente no volume do comércio exterior brasileiro. Em apenas uma década, as exportações destinadas ao país oriental passaram de 4% do total, em 2001, para os 21% registrados em setembro último, proporção quase igual aos 24% destinados à União Europeia (UE) – que, há dez anos, recebia 39% das exportações nacionais. Na proporção por país, a China já é a maior parceira comercial do Brasil, deixando para trás os EUA, com 15%. De janeiro a setembro de 2012, o comércio bilateral superou os 57 bilhões de dólares, com um saldo de 7,2 bilhões favorável ao Brasil (O Globo, 14/10/2012).

Em circunstâncias normais, qualquer aumento dos volumes de comércio entre dois países deveriam ser motivo de celebração. Porém, no caso em pauta, a situação é bastante preocupante para os brasileiros, devido: 1) à dependência ascendente de um mercado principal para assegurar saldos comerciais; 2) aos prognósticos de forte redução dos índices de crescimento da China, no futuro imediato; e 3) à grande concentração das exportações em uma reduzida pauta de produtos primários.

Embora o Brasil tenha se beneficiado bastante com os saldos das exportações para o mercado chinês, a situação numericamente favorável ao País poderá não se sustentar a médio e longo prazos, devido a um previsível desaquecimento da economia asiática. Uma importante advertência neste sentido veio do economista Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim, que prognostica não apenas uma forte desaceleração nos índices de crescimento econômico do país, como também uma drástica queda nos preços das commodities, cuja expansão na última década se deveu, em grande medida, ao crescimento chinês.

Em entrevista ao jornal O Globo de 12 de outubro, Pettis afirma que a média de crescimento do PIB chinês não deverá exceder 3-4% na próxima década. Além disto, ele questiona até mesmo os índices oficiais recentes:

Não creio que existam muitos economistas que não desconfiem que o crescimento real da China em 2012 é bem menor do que o informado oficialmente. É muito difícil conciliar crescimento de 7% a 8% (estatística oficial) com uma alta bem menor no consumo de energia e no fluxo de carga e, ainda, com relatos de problemas de liquidez no mercado de crédito.

Perguntado sobre os desafios que o “Grande Reequilíbrio” chinês coloca para os grandes produtores de commodities, como o Brasil, Pettis respondeu:

Eu tenho me surpreendido sobre o quão pouco e com tanto atraso os maiores produtores de commodities estão se dando conta dos problemas da China. Desde o ano passado, o assunto tem sido mais discutido, porém, eu me preocupo com o fato de que muitos serão surpreendidos.

Pettis faz uma ressalva nesse quadro, afirmando que, se o processo chinês for administrado corretamente, “mesmo uma forte queda no crescimento médio do PIB não vai resultar num forte freio no consumo das famílias. Neste caso, seria bom para os preços dos alimentos”. (Aos interessados, Pettis mantém um blog especializado, o China Financial Markets.)

De fato, a desaceleração oriental já se reflete nas exportações brasileiras de minério de ferro e petróleo, que apresentam quedas nos acumulados deste ano, tanto em volume (respectivamente, menos 1,7% e 15,4%) como em valores (menos 26,7% e 6%). O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, lembra que, de janeiro a setembro, os chineses compraram a metade do minério de ferro e um quinto do petróleo exportados pelo Brasil (Valor Econômico, 15/10/2012).

Um fator complicador é que cerca de 70% das exportações nacionais se concentram em soja, minério de ferro, petróleo, pasta de celulose, açúcar, carnes de aves, ferronióbio e algodão. Em contrapartida, a quase totalidade das exportações chinesas abrange produtos manufaturados ou componentes para aparelhos eletrônicos (vide o quadro abaixo).

Principais produtos exportados para a China

jan-set 2012 (US$ bilhões)

Principais produtos importados da China

jan-set 2012 (US$ bilhões)
Soja
11,145
Aparelhos de TV
1,084
Minérios de ferro
9,4
Partes para aparelhos de telefonia
0,458
Petróleo
2,858
Telas para microcomputadores
0,294
Pasta química de madeira
0,794
Telefones celulares
0,220
Açúcar
0,645
Componentes eletrônicos
0,215
Carnes de aves
0,325
Litorinas (automotoras)
0,205
Ferronióbio
0,287
Partes e peças para computadores
0,196
Algodão
0,283
Lâmpadas fluorescentes
0,182
Fonte: Ministério da Agricultura e Siscomex (Valor Econômico, 14/10/2012).

A “sinodependência” nacional para o acúmulo de saldos comerciais é bastante perigosa e não deve, de modo algum, ser admitida como tendência semipermanente. Ademais, é de grande relevância que não se permita a continuação dos estragos que as importações de produtos manufaturados chineses vêm fazendo na indústria nacional. Em síntese: o alerta amarelo está aceso para o Brasil.

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