Brasil: movimento contra desindustrialização

“De um lado teremos o setor produtivo; do outro estarão os especuladores. Para que lado o governo irá?” A pergunta, feita pelo presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Wagner Gomes, sintetiza a questão crucial para a reversão do perigoso fenômeno da desindustrialização, que ameaça o País. Gomes se referia à crescente articulada mobilização das centrais sindicais e entidades empresariais, para um enfrentamento coordenado do desafio de sensibilizar a opinião pública e, principalmente, o Governo Federal, para a gravidade e urgência do problema (Abimaq – Clipping e Tendências, 28/02/2012).

Na segunda-feira 27 de fevereiro, representantes de 19 entidades empresariais e oito sindicais se reuniram, em São Paulo (SP), para formalizar uma agenda conjunta de ações, que incluem reuniões e manifestações públicas em vários estados, para debater com o restante da sociedade a grave situação da indústria e suas consequências negativas para o desenvolvimento nacional. Igualmente, foi lançado o manifesto “Grito de alerta em defesa da produção e do emprego brasileiros”, que esboça um panorama dos problemas do setor industrial e apresenta um conjunto de sugestões para o seu enfrentamento.

De uma forma sintomática das dificuldades que empresários e sindicalistas deverão ter para sensibilizar o Governo Federal, a reunião deveria contar com a presença, confirmada anteriormente, do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel. Porém, na sexta-feira 24, a assessoria do ministro comunicou que ele não iria ao encontro.

A ausência de Pimentel gerou críticas durante a reunião. “Não deveríamos estar em lados opostos. Precisamos de todos unidos”, afirmou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), Paulo Skaf, anfitrião do evento.

Curiosamente, a agenda do ministro para o dia 27, como consta no sítio do ministério, previa reuniões com o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Cledorvino Belini, o chanceler Antonio Patriota e o presidente do conselho de administração do Grupo LAEP, Marcus Alberto Elias (este último é um grupo especializado em private equity). Como, evidentemente, nenhuma destas reuniões foi marcada na sexta-feira, pode-se supor que o ministro não tinha mesmo qualquer intenção de comparecer à reunião em São Paulo.

Na ocasião, o presidente da CTB assinalou a existência de uma disputa interna no governo sobre os rumos do processo de desenvolvimento: “Este nosso pacto entre trabalhadores e empresários tem força para definir esse rumo, pois a briga é bastante complicada. Os rentistas, certamente, não vão ficar apenas olhando. Certamente eles tentarão nos dividir.”

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, resumiu as expectativas dos participantes da reunião: “Não tem governo no mundo que não se mova a partir de pressão. O governo Dilma tem que ver que há algo diferente aqui, ver que nosso movimento não é brincadeira.”

A mobilização empresarial e sindical é mais que oportuna, pois somente com a sinergia resultante de uma convergência dos interesses, em prol do objetivo maior de preservar um parque produtivo construído ao longo de mais de sete décadas, haverá condições objetivas capazes de sensibilizar um governo que, de um modo geral, tem sido controlado pelo rentismo.

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