Brasil: juros x investimentos

Os brasileiros têm presenciado, nos últimos dias, mais uma pedagógica onda de manifestações dos porta-vozes do rentismo financeiro no País, bastante incomodados com o fato de a política monetária não estar sendo determinada exclusivamente pelo “mercado”, mas articulada entre o Banco Central (BC) e o Ministério da Fazenda – e, por extensão, o Palácio do Planalto. Enquanto, aqui dentro, multiplicam-se os clamores por uma nova alta dos juros básicos do BC (taxa Selic), com o velho pretexto de se evitar um surto inflacionário, a alta finança globalizada reforça os seus sócios internos com um esdrúxulo rebaixamento das classificações de risco dos bancos públicos brasileiros. Tudo isso, em meio a mais um “apagão logístico”, que escancara as gritantes deficiências da infraestrutura viária nacional, diante da carência de investimentos que tanto a iniciativa privada como o Estado relutam em fazer.

Nas discussões sobre a inflação e os juros, os rentistas sequer se dão ao trabalho de tentar disfarçar a sua notória insensibilidade social, chegando a propor abertamente a necessidade de frear o crescimento econômico, com o consequente aumento do desemprego. É o caso, por exemplo, do ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, Alexandre Schwartsman, para quem “a saída é frear a economia. É demitir mesmo” – como declarou ao jornal O Globo de 25 de março.

Um pouco mais recatado, seu ex-colega de BC Ilan Goldfajn, atual economista-chefe do Banco Itaú, justifica a sua proposta de alta imediata dos juros: “A inflação não cai num passe de mágica. Não cai porque o Banco Central resolve falar mais duro. Cai com o encontro do crescimento da oferta com o crescimento da demanda. É preciso fazer escolhas. Não dá para fazer omeletes sem quebrar os ovos (O Globo, 25/03/2013).”

Na posição contrária, o ex-ministro Delfim Netto tem se empenhado em ocupar todos os espaços disponíveis para criticar tais propostas. Com a sua verve e ironia habituais, ele afirma que o controle da inflação tem que ser feito sem afetar as conquistas de inclusão social do período recente. Na mesma reportagem do Globo, ele afirma: “A empregada doméstica virou manicure ou foi trabalhar num call center. Agora, ela toma banho com sabonete Dove. A proposta desses ‘gênios’ é fazer com que ela volte a usar sabão de coco, aumentando os juros.”

Em sua coluna semanal, no Valor Econômico de 26 de março, Delfim aponta uma causa menos discutida da inflação, as deficiências de infraestrutura:

(…) Devemos ser humildes na formulação de soluções simples para o fenômeno inflacionário que estamos vivendo. Ele é o radiador que dissipa não apenas o calor gerado por um excesso de demanda ou falta de oferta, mas pela desarticulação logística produzida por 30 anos de descaso com os investimentos em infraestrutura.

Na revista Carta Capital de 27 de março, o ex-ministro volta a bater duro nos “vendedores de vento”, como chama os rentistas, “intermediários da pura especulação financeira, ora espremidos pela baixa do juro e desesperadamente necessitados de uma alta da Selic”. E explica as suas motivações imediatas:

Não são agentes de financiamento da produção, pois vivem de comprar e vender papéis da riqueza imaginária representada pelos famosos derivativos cáusticos, em transações cada vez mais complicadas, com a baixa dos juros. Alguns desses “investidores financeiros” estão à beira do pânico. Eles precisam “vender” para a sociedade a ideia de que somente a elevação dos juros poderá evitar o crescimento da inflação. Pretendem, na realidade, receber antecipadamente as comissões relativas às aplicações dos incautos que pensam estar construindo uma poupança para reforçar a aposentadoria, mas em lugar disso estão empobrecendo.

Na frente externa, a investida rentista veio na forma do rebaixamento em dois graus das notas de crédito de longo prazo da Caixa Econômica Federal (CEF), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da empresa de participações deste último, a BNDESPar, pela agência de classificação de risco Moody’s. A nota oficial da agência sequer se dá ao trabalho de ocultar a motivação eminentemente ideológica da medida: “O BNDES e a Caixa são controlados totalmente pelo governo brasileiro e têm se mostrado engajados no apoio às políticas econômicas contracíclicas, o que tem resultado em taxas de crescimento significativas de ativos e crédito, e indicadores de capital menores (Reuters, 20/03/2013).”

Enquanto comentaristas pró-rentismo se apressavam em exagerar a relevância do fato, como sendo uma “advertência” da alta finança ao governo brasileiro, outros mais sóbrios o reduziam à sua dimensão real. O economista e ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas, afirmou com todas as letras que a decisão não teve critério técnico: “São bancos públicos e, portanto, operam com risco zero. O rebaixamento é mais para criticar a Caixa e o BNDES por terem ’emprestado demais’. A Moody’s está querendo mostrar serviço. Pode até ter um conteúdo ideológico, mas ninguém vai levar em consideração. São bancos garantidos pelo governo (Monitor Mercantil, 21/03/2013).”

Juntamente com um número crescente de especialistas, Freitas defende a necessidade de o governo federal ampliar o volume de investimentos em infraestrutura, mesmo que à custa de um superávit primário menor. E é exatamente disto que o País necessita, com urgência: investimentos públicos em infraestrutura – juntamente com a determinação política imprescindível para se desfazerem certos nós górdios que sufocam a logística nacional.

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