Brasil: "desindustrialização silenciosa" em marcha

O Brasil vive um processo de “desindustrialização silenciosa” e o momento é “extremamente dramático” para o setor.

A advertência, que se soma às de um número crescente de profissionais do ramo e especialistas, é do recém-eleito presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Carlos Pastoriza. Segundo ele, no primeiro semestre, o setor apresentou uma queda de faturamento de dois dígitos, que se segue às retrações observadas em 2013 e 2012 (Valor Econômico, 29/07/2014).

Juntamente com seu antecessor Luiz Aubert Neto, Pastoriza, que era diretor-secretário da entidade, participou de reuniões com representantes do governo federal, nos últimos meses, inclusive a presidente Dilma Rousseff, além dos candidatos presidenciais Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), para apresentar o sombrio panorama do setor e as propostas da Abimaq para uma reversão do processo. A agenda, resumida em uma cartilha de 31 páginas, pinta um quadro mais que preocupante:

A contínua perda de participação da produção nacional de BKM (Bens de Capital Mecânicos) no consumo aparente, que caiu de 50% há cinco anos para menos de 34% em 2013, está alcançando níveis preocupantes que comprometem a sobrevivência da indústria de máquinas e equipamentos brasileiros.

Segundo informações do MDIC (Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), apenas 15% das importações brasileiras de máquinas e equipamentos são feitas com a utilização de Ex-tarifários [redução temporária de alíquotas de importação – n.e.], que são concedidos quando da inexistência de produção nacional. Isto significa que os demais 85% são importados sem redução de Alíquota do II – Imposto de Importação, em função, basicamente, do preço mais vantajoso do bem importado. Esta simples constatação deixa clara a ameaça à produção nacional constituída pela manutenção de um câmbio defasado e do elevado “Custo Brasil”.

A competitividade da indústria brasileira, possibilitando sua inserção nas cadeias globais de valor depende, portanto, da redução progressiva do “Custo Brasil” com a adoção, pelo Governo brasileiro, de um cronograma que permita eliminá-lo ao longo dos próximos anos.

A cartilha, entregue à presidente e aos candidatos ao Planalto, inclui sugestões de medidas específicas para a indústria de bens de capital e mecânicos, além de propostas sobre as necessárias reformas política, fiscal, tributária e educancional. “Estamos discutindo em profundidade toda a problemática macroeconômica do país e o risco que corremos de dizimar a indústria da transformação”, disse Pastoriza ao Valor.

Ele promete usar a sua gestão para fazer o máximo de pressão possível para que o governo promova mudanças favoráveis à recuperação da indústria de transformação: “O meu objetivo é lutar com todas as forças, angariando mais forças com outros setores, para pressionar o presidente do país a partir de 1º de janeiro de 2015, seja quem for, a fazer reestruturações difíceis e pouco populares.”

Segundo ele, o novo governo terá que enfrentar os problemas estruturais do País, com a redução dos juros e da carga tributária e a tomada de medidas de incentivo aos investimentos produtivos. Caso contrário, “se as reformas não forem feitas, corremos o risco de voltar a ser um país colônia, e não de ser um país potência, como pretendíamos”.

Pastoriza afirma que o setor de transformação é o mais prejudicado pelos altos custos de produção, devido à sua longa cadeia produtiva, que incorre em impostos em cascata. Por isso, “é preciso atacar todos os componentes do ‘custo Brasil’ de maneira radical e obcecada a partir do início do ano que vem. E vamos pressionar para que isso aconteça. Não temos mais tempo a perder”.

Um dado citado denota a extensão das aberrações nacionais. De acordo com ele, hoje, o custo de produção de qualquer equipamento no Brasil é 30% a 40% maior que na Alemanha, um dos países mais desenvolvidos do mundo. “É uma diferença dramática de custos. Ser industrial na indústria da transformação no Brasil virou um grande mico”, lamentou.

Tais perspectivas negativas estão fazendo com que numerosas empresas estejam encerrando as suas operações fabris e se convertendo em importadoras. E, pior, “algumas não estão capitalizadas nem mesmo para fechar suas portas, o que também é caro no Brasil”.

Pelas estimativas da Abimaq, o setor deverá fechar 2014 com um faturamento 11% inferior ao do ano passado, que, por sua vez, foi 5,7% inferior ao de 2012, também inferior ao de 2011. Considerando apenas o mercado interno, o faturamento das empresas locais caiu 33% este ano.

O segmento mais afetado é o das máquinas-ferramentas, sobre o qual Pastoriza faz uma advertência ainda mais contundente: “Essas são as máquinas que qualquer outra indústria precisa, e esses fabricantes estão desaparecendo do mercado. Isso indica uma situação de menor produção da indústria da transformação no futuro próximo.”

Com poucas variantes, o chamado de atenção do novo presidente da Abimaq poderia ser repetido pelos dirigentes de numerosos outros setores produtivos nacionais. Esperemos que, passado o período eleitoral, as lideranças empresariais, em sintonia com outros setores mobilizados da sociedade, consigam se fazer ouvir junto ao novo governo, em um esforço que crie condições, não apenas para a reversão dessa desindustrialização precoce, como também para uma retomada sustentada de um processo robusto de desenvolvimento.

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