Brasil: delírios "neoconservadores" solicitam intervenção dos EUA

Na esteira do clima de polarização ensejado pela recente campanha eleitoral, um grupo de autodenominados “promotores da democracia e da liberdade no Brasil” difundiu nas chamadas redes sociais uma patética solicitação ao governo dos EUA, na plataforma We, the People (Nós, o povo) do sítio da Casa Branca, um posicionamento estadunidense “contra a expansão comunista na América Latina”. Até a terça-feira 4 de novembro, mais de 123 mil pessoas já haviam assinado a petição (UOL, 4/11/2014).

Ou seja, o que tais autoproclamados defensores da “democracia” e da “liberdade” pedem é nada menos que uma intervenção de Washington na política interna brasileira – fazendo, exatamente, o jogo dos “neoconservadores” estadunidenses, a agressiva facção intervencionista que domina a política externa do governo de Barack Obama.

Por ironia, coube à própria embaixadora estadunidense em Brasília, Arlissa Reynolds, apontar o ridículo da pretensão, esclarecendo que: 1) a plataforma We, the People se destina exclusivamente a cidadãos estadunidenses (o que fica claro para qualquer um que se dê ao trabalho de ler o seu regulamento); e 2) a posição oficial da Casa Branca sobre as eleições brasileiras foi manifestada por “uma declaração parabenizando a presidente Dilma Rousseff por sua reeleição”.

Na mesma linha, circula uma petição pedindo o impeachment de Dilma, criados originalmente no sítio da ONG estadunidense Avaaz, dirigida pelo canadense Ricken Patel, que tem uma trajetória de serviços prestados a fundações oligárquicas e ONGs vinculadas aos altos círculos do Establishment anglo-americano. Porém, o grande número de protestos contra a petição, que incluem muitos integrantes da própria “comunidade” da Avaaz, levou a ONG a publicar uma declaração, dizendo que “a maioria dos membros não apoia tal petição, mas também acredita que ela não deve ser retirada do ar”.

Igualmente, vem sendo divulgada na internet uma série de alertas sobre uma alegada ameaça de instauração de um regime “bolivariano” no Brasil. Ora, os autores de tais advertências parecem ignorar que o movimento iniciado pelo então tenente-coronel e futuro presidente Hugo Chávez, na Venezuela, foi um movimento cívico-militar que ocupou os espaços proporcionados pelo desmoronamento do regime neoliberal que o antecedeu. No caso do Brasil, ainda que certos grupos encastelados no governo federal pudessem abrigar tais delírios, inexiste qualquer possibilidade de uma aliança militar com os movimentos sociais radicais associados ao Partido dos Trabalhadores, sem a qual é impossível qualquer iniciativa do gênero.

Ademais, o fato é que, a despeito da reeleição da presidente, o PT foi o grande derrotado das eleições e, para criar condições de governabilidade, Dilma terá, necessariamente, que descartar as diretrizes políticas radicais promovidas por aqueles grupos ideológicos do partido, em especial, as políticas ambiental e indígena e a manipulação dos “direitos humanos” (manifestada, por exemplo, na tentativa de extensão dos trabalhos da chamada Comissão Nacional da Verdade, após a entrega do seu relatório, prevista para dezembro) – que podem ser consideradas como contrapartes daqueles jogos virtuais de uma Guerra Fria rediviva.

De forma sintomática, em entrevista à BBC Brasil (11/11/2014), o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, cuja saída do cargo já foi anunciada, fez um balanço da gestão de Dilma e afirmou que ela “avançou pouco” nas demandas de movimentos sociais, sobretudo, nas reformas agrária e urbana e na demarcação de terras indígenas, sinalizando que a presidente deve esperar pressões renovadas vindas destes setores.

O que realmente preocupa os círculos “neoconservadores” é o fato de o Brasil estar se consolidando no âmbito do grupo BRICS, que, mesmo sem qualquer pretensão de constituir uma aliança política formal, tem se convertido na principal força contestatória do atual sistema hegemônico global encabeçado pelo eixo Washington-Londres, em particular, com o estreitamento de posições entre a China e a Rússia de Vladimir Putin. Não por acaso, os chefes de governo dos países do grupo estiveram entre os primeiros a cumprimentar a presidente brasileira pela sua reeleição.

De qualquer maneira, é importante ressaltar que a participação brasileira no BRICS e as iniciativas para a integração da América do Sul e a projeção para a África constituem expressões de políticas de Estado e não apenas de um governo particular, de modo que dificilmente seriam alteradas, inclusive, em um governo do PSDB (embora, por suas vinculações internacionais, não se poderia afirmar o mesmo em um eventual governo da ex-senadora Marina Silva).

x

Check Also

Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão ...