Brasil-Argentina: parceria em defesa precisa ousar para decolar

O ministro da Defesa argentina, Agustín Rossi, visitou Brasília na quinta-feira 21, para tartar de medidas de fortalecimento da parceria bilateral no setor de defesa. Após o encontro com seu colega Celso Amorim, segundo a nota divulgada pelo Ministério da Defesa brasileiro, os dois ministros assinaram a tradicional declaração conjunta, a qual “reforça o compromisso com a vitalidade da associação estratégica entre os dois países, a partir da contínua dinamização da cooperação no âmbito da política de defesa e industrial do setor (Ministério da Defesa, 21/11/2013)”.

Um dos principais temas tratados foi a defesa cibernética, necessidade destacada após a deflagração das denúncias sobre a amplitude da espionagem eletrônica da rede coordenada pela Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, pelo ex-analista Edward Snowden. Na ocasião, Rossi visitou o Centro de Defesa Cibernética do Exército e recebeu o convite de Amorim para que as Forças Armadas argentinas enviem militares aos cursos de guerra cibernética que serão realizados em 2014 e 2015.

Igualmente, o assunto deverá ser tratado no âmbito do Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS), ligado à União das Nações Sul-Americanas (Unasul), onde os dois países pretendem enfatizar a necessidade de cooperação específica na área, em escala regional.

Outra iniciativa encaminhada junto à Unasul é o projeto conjunto de um Veículo Aéreo Não Tripulado (VANT), projetado de acordo com as necessidades dos países da entidade.

A continuação da presença da missão militar no Haiti também foi discutida, tema que ganhou relevância adicional depois que o presidente do Uruguai, José Mujica, manifestou a intenção de encerrar a participação dos militares do país na missão, que se encaminha para completar dez anos, em 2014. Rossi pretende que o assunto seja analisado conjuntamente pelos membros do CDS.

Por sua vez, Amorim apresentou um exemplo que deixa manifesta a questionável justificativa para a permanência da missão das Nações Unidas no Haiti, iniciada em abril de 2004. Segundo o ministro, o goveno brasileiro fez uma doação de 40 milhões de dólares para a construção da usina hidrelétrica de Artibonite, mas os recursos dos demais países doadores não apareceram. “Os recursos que estão parados no Banco Mundial. E as obras somente sairiam se houvesse contribuições de outros parceiros, mas elas não vieram”, lamentou.

A todas as luzes, a presença da missão da ONU no país já ultrapassou em muito a sua utilidade. Mais que militares estrangeiros, o Haiti necessita de apoio para a reconstrução da sua economia física, em projetos como o da usina.

Além do dinheiro, o Brasil doou o projeto básico de engenharia da usina, que foi elaborado pelo Instituto Militar de Engenharia (IME). A usina, a 60 quilômetros da capital Porto Príncipe, teria potência de 32 megawatts, o que permitiria atender 230 mil famílias (MSIa Informa, 3/02/2012).

A cooperação argentino-brasileira na área de defesa, como temos enfatizado repetidamente nesta Resenha, constitui um fator de grande relevância estratégica, não apenas para os dois países, mas para a América do Sul em geral, favorecendo a construção de confiança e a redução de tensões e viabilizando a indução de subprodutos decorrentes da participação das indústrias nacionais em projetos comuns. Não obstante, a velocidade dos avanços precisa aumentar, para que tais benefícios saiam do campo das promessas e se concretizem, em prazos relativamente curtos.

Evidentemente, os conhecidos entraves colocados pelas carências orçamentárias dificultam sobremaneira quaisquer iniciativas que vão além da manutenção – precária – das atividades corriqueiras das Forças Armadas, tanto argentinas como brasileiras. Além deles, uma certa inércia institucional, somada a preconceitos não totalmente superados, faz com que projetos bi ou multinacionais enfrentem grandes dificuldades para decolar. Ainda assim, os potenciais benefícios justificam por larga margem os esforços para superar tais obstáculos.

Talvez, o foco em algumas iniciativas específicas facilite uma “decolagem” definitiva desse importante processo de cooperação, como a defesa cibernética e o projeto do VANT, áreas nas quais os dois países já dispõem de capacidades relevantes.

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