Boston: os "suspeitos de sempre"

Para muitos observadores que têm acompanhado com atenção a série de atentados terroristas ocorridos desde 11 de setembro de 2001, era uma questão de tempo até surgirem os suspeitos habituais e as motivações do ataque em Boston, na linha de chegada da tradicional maratona da cidade: os indefectíveis radicais islâmicos. Como o mundo foi informado pelas autoridades estadunidenses, que estão interrogando o alegado coautor sobrevivente dos ataques, o checheno naturalizado Dzhokhar Tsarnaev e seu irmão Tamerlan, morto em confronto com policiais, teriam agido sozinhos e com motivações religiosas, para “protestar contra as guerras dos EUA no Iraque e no Afeganistão”. Caso encerrado – ou, pelo menos, assim se pretende que seja.

Desafortunadamente, para os que preferem se limitar à ótica simplista veiculada pela grande mídia, o quadro parece ser mais complexo. Como tem sido frequente, ao longo da última década, a ambientação do episódio, as inconsistências do relato adotado como oficial e as numerosas evidências contraditórias deixadas de fora dele levantam, outra vez, fortes suspeitas de que se tratou de mais uma operação encoberta perpetrada por operativos de inteligência e paramilitares, com possíveis vinculações externas, no contexto geral da promoção do terrorismo islâmico como o grande inimigo dos EUA e seus aliados.

O ataque veio sob medida, num momento em que vinham crescendo no país os questionamentos à extensão ad aeternum da “guerra ao terror” e aos crescentes gastos com a segurança nacional, que têm resistido até mesmo aos cortes automáticos determinados na lei orçamentária aprovada em 2012. E, como se fosse um reforço, em outra curiosa coincidência – no caso, com as cartas com bactérias de antraz que acompanharam os ataques de 11 de setembro -, três cartas envenenadas com ricina foram enviadas a autoridades, inclusive o presidente Barack Obama, tendo o FBI detido prontamente um suspeito. Embora este tenha sido devidamente isentado de qualquer responsabilidade e liberado, dias depois, o episódio ajudou a intensificar o clima de terror que se seguiu às devastadoras explosões em Boston (e foi preciso um blogueiro alemão curioso informar que uma receita de fabricação de ricina, apenas ligeiramente encriptada, estava disponível no sítio do FBI).

Outro receio é o de que as repercussões do ataque dificultem a aprovação da lei de imigração mais branda pretendida pelo presidente Barack Obama.

O terror e a comoção se refletiram na paralisação de Boston durante quase dois dias, em consequência da imposição à cidade de uma lei marcial de fato, aplicada por mais de 9 mil agentes policiais locais, estaduais e federais, apoiados por blindados e helicópteros e, não menos, nas imagens de multidões que celebraram a prisão de Dzhokhar, agitando bandeiras nacionais e aos gritos de “USA! USA! USA!”.

Na segunda-feira 22, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, afirmou que, após o ataque em Boston, o país “terá que mudar” a interpretação das leis e do texto constitucional de proteção à privacidade dos cidadãos, devido à crescente ameaça terrorista (AFP, 22/04/2013).

Escrevendo no The Independent de 21 de abril, o jornalista inglês Patrick Cockburn, um veterano correspondente internacional e arguto observador do conturbado cenário global, sintetizou:

Do ponto de vista dos perpetradores de um ataque como o atentado à Maratona de Bsoton, o sucesso ou fracasso depende da reação exagerada das pessoas que foram os seus alvos. Os ataques de 11 de setembro foram bem-sucedidos como um ato de terror, porque levaram os EUA a travar guerras desastrosas no Afeganistão e no Iraque, e a sancionar o uso de tortura e prisões sem julgamento. Eles transformaram os EUA em um Estado mais autoritário, em que as liberdades civis são restringidas ou desconsideradas, e gerou um elefantino e custoso aparato de segurança.

Foi deprimente ver equipes da SWAT fortemente armadas com rifles de assalto e coletes protetores, desembarcando de blindados em Boston, como era costume em Belfast. Os toques de recolher, aos quais se acostumaram os habitantes de Bagdá e Faluja, de repente, se tornaram aceitáveis em Massachusetts. E, em contraste com a Irlanda do Norte e o Iraque, isto foi feito com o aplauso dos habitantes locais. As justificativas para as equipes SWAT e o toque de recolher são compreensíveis, mas medidas como estas tornam as pessoas cumulativamente propensas a aceitar sem protesto um governo autoritário.

Além de extemportâneo, o motivo alegado para o sangrento ataque – um protesto de motivação religiosa contra as invasões do Afeganistão e do Iraque -, não se encaixa bem com as pretensões de dois jovens que viviam legalmente nos EUA há uma década e tinham aspirações profissionais permitidas pelos seus talentos esportivos e acadêmicos: Tamerlan era considerado um promissor boxeador amador e sonhava integrar a equipe olímpica estadunidense; Dzhokhar chegou a ganhar uma bolsa de estudos da municipalidade de Cambridge, como aluno de destaque, e seu perfil na Internet listava carreira e dinheiro como suas motivações principais (o que não implica em contradição com o fato de afirmar que a sua visão do mundo era orientada pelo Islã). Embora, nos últimos anos, Tamerlan tenha começado a demonstrar um até então inusitado interesse no islamismo militante, a ponto de despertar a atenção das autoridades russas (parte da família vive no Daguestão) e do próprio FBI, nada no perfil dos irmãos sugere que fossem capazes de planejar e executar uma ação como a de Boston – principalmente, sem o apoio de profissionais experientes.

Embora, aparentemente, rudimentares, as bombas “de panela de pressão” utilizadas no ataque não são artefatos de construção fácil por amadores orientados por planos encontrados na Internet. Tanto a sua confecção como a operação exigem perícia, para evitar acidentes que transformem os seus manipuladores em vítimas.

Ademais, se o motivo do ataque fosse um “protesto” contra as ações bélicas estadunidenses, por que os irmãos não o anunciaram em tempo, como fazem, habitualmente, os terroristas? E, não o tendo feito, por que, depois que suas fotografias foram divulgadas, dispararam em um frenesi de ações que, fatalmente, atrairiam a perseguição das autoridades policiais, inclusive, anunciando ao motorista de um automóvel sequestrado que eram os responsáveis pelo ataque à maratona e os assassinos do guarda do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT)?

Embora não se descarte que possam ter tido participação na dinâmica do ataque, o mais provável é que ela teria sido em alguma função secundária, que lhes teria sido proposta, por hipótese, como parte de um exercício antiterror (em outra coincidência com 11/9, havia um sendo realizado durante a maratona). Neste caso, ambos teriam sido selecionados como os proverbiais “patsies” (bodes expiatórios), para usar a expressão imortalizada por Lee Harvey Oswald, que levou a culpa pelo assassinato do presidente John F. Kennedy, em 1963.

De fato, desde 2001, o FBI tem se especializado em operações de aliciamento (conhecidas como “sting” no jargão de inteligência), nas quais agentes encobertos da agência procuram indivíduos considerados potenciais terroristas e, com incentivos diversos, os induzem a preparar um ataque, inclusive, fornecendo os meios materiais e o treinamento necessário (Resenha Estratégica, 31/08/2011).

Entrevistada no Daguestão, pela rede Russia Today (21/04/2013), a mãe dos acusados, Zubeidat Tsarnaeva, que também viveu nos EUA, afirmou que o FBI estava em contato com Tamerlan, depois que este passou a manifestar o seu interesse pelo islamismo militante:

Eles me disseram que ele era um líder extremista e que tinham medo dele. Eles me disseram que todas as informações que ele estava conseguindo, ele obtinha desses sítios extremistas da Internet. Isso é uma armação. Ele era controlado pelo FBI por três a cinco anos. Eles sabiam o que meu filho estava fazendo. Eles sabiam que ações e que sítios na Internet ele visitava… Então, como isso pode acontecer? Como eles, que estavam controlando cada passo dele, podem dizer agora que isso é um ato terrorista?

Seu ex-marido, Anzor Tsarnaev, confirmou que o FBI visitou a casa da família em Cambridge, pelo menos cinco vezes, e que esteve presente em um desses interrogatórios de Tamerlan:

Eles disseram que estavam fazendo trabalho preventivo. Eles estavam com medo de que pudesse haver algumas explosões nas ruas de Boston… [Eles disseram,] nós sabemos que sítios você visita, sabemos para quem você liga, sabemos tudo sobre você. Tudo [RT, 20/04/2013).

Como a mãe, Anzor insiste em que os filhos foram vítimas de uma trama. Mas não estão sozinhos. Em entrevista à RT, a ex-agente do FBI Sibel Edmonds, que ganhou notoriedade por ter sido demitida depois de denunciar a cumplicidade de elementos de alto nível da agência com terroristas conhecidos, na esteira dos ataques de 11/9, fez uma sugestão semelhante:

(…) Quando ouvimos a mãe dos suspeitos, ela está falando de um período de três a cinco anos. De acordo com os oficiais do FBI, eles receberam essa informação, essa advertência, em 2011. Então, temos aqui uma inconsistência. A outra inconsistência importante para a qual devemos prestar atenção é a descrição feita pela mãe dos maneirismos e da conversação com os suspeitos e com a família, quando os visitaram, nos últimos três a cinco anos. Se encaixam perfeitamente no estilo de recrutamento da comunidade de inteligência. Quando você vai ao suspeitose diz a ele: “Nós sabemos que você é decente, sabemos que não está fazendo nada errado, sabemos que você é bom.” E, o minuto seguinte, dizem: “Você pode ser perigoso.” Isto, logo depois de receber aquela informação do governo russo, para ameaçá-los com esta informação para algum propósito, para usá-los como informantes ou para outras agendas (RT, 21/04/2013).

Para complicar ainda mais o panorama, um estudante saudita que foi ferido em uma das explosões e chegou a ser detido como suspeito, foi rapidamente deportado do país “por motivos de segurança nacional”, depois que o embaixador saudita em Washington teve uma reunião não marcada com o presidente Barack Obama (Asia Times Online, 23/04/2013).

Sintomaticamente, o sítio israelense Debka File (20/04/2013), conhecido como conduto do serviço de inteligência Mossad, especialmente, para a sua habitual agenda de desinformação, afirmou que os irmãos Tsarnaev eram

agentes duplos, recrutados pelos serviços de inteligência estadunidenses e sauditas para penetrar as redes wahabitas jihadistas que se espalham pelo Cáucaso russo, com o apoio de certas instituições financeiras sauditas. Em vez disto, os dois ex-chechenos (sic) traíram a sua missão e se juntaram secretamente às redes de islamistas radicais.

Um dos principais grupos islamistas insurgentes do Cáucaso negou qualquer envolvimento com o ataque em Boston: “O comando dos mujahidin Vilayat do Daguestão… declara que os combatantes do Cáucaso não têm quaisquer atividades militares contra os EUA. Nós estamos combatendo apenas a Rússia, que não só é responsável pela ocupação do Cáucaso, mas também por crimes monstruosos contra os muçulmanos (AFP, 21/04/2013).”

Ainda há muitas perguntas sem respostas adequadas, entre elas:

– Por que Dzhokhar foi interrogado, inicialmente, sem a presença de um advogado, de modo a não deixar dúvidas sobre as suas declarações (feitas por escrito)?

– Por que as autoridades negaram a realização de um exercício antiterror, presenciado por muitas testemunhas, percepção reforçada pela presença de cães farejadores, atiradores em telhados e operativos com uniformes da empresa de mercenários Craft International no local da chegada, registrada em numerosas fotos e vídeos?

– Como os irmãos, que demonstravam possuir meios de subsistência modestos, conseguiram um automóvel caro, como a Mercedes E350 SUV diante da qual Tamerlan foi fotografado e Dzhokhar deixou em uma oficina mecânica por duas semanas, antes dos ataques (em outra coincidência, o mesmo modelo do veículo supostamente sequestrado por eles)?

– Quem matou o guarda do MIT, crime atribuído aos irmãos, mas cujo autor foi inicialmente descrito pela polícia como “um hispânico com um chapéu”?

As respostas a elas, talvez, ajudem a lançar mais luz sobre mais este imbróglio da infindável “guerra ao terror”.

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