Biópsias do desmoronamento da ordem hegemônica global

O mundo dos oligarcas que têm se empenhado em dominá-lo em favor dos seus interesses, predominantemente hospedados no eixo EUA-Canadá-Europa Ocidental, está com os dias contados, em função das rápidas transformações em curso no cenário global, especialmente, o retorno à ideia do Estado nacional soberano contra as organizações de “governo mundial” que vivem sob a ilusão de um domínio eterno dos destinos da humanidade. Embora quaisquer prognósticos sobre os desdobramentos e os prazos dessa dinâmica sejam arriscados, a percepção se reforça quando é compartilhada por importantes observadores egressos dos próprios quadros de tais estruturas de poder.

Este é o caso, entre muitos outros, do ex-diplomata e ex-oficial de inteligência britânico Alastair Crooke e do veterano jornalista e historiador estadunidense Martin Sieff, ambos credenciados membros das elites dirigentes dos seus países, que, em artigos recentes, comentam sem rodeios os impactos das mudanças globais sobre as agendas oligárquicas.

Comecemos pelo artigo de Crooke (que atualmente dirige o Conflicts Forum, organização sediada em Beirute, Líbano, dedicada a iniciativas para a aproximação entre o mundo islâmico e o Ocidente), publicado em 25 de junho no sítio da Strategic Culture Foundation, organização russa dedicada à discussão de assuntos de interesse estratégico global. Com o sugestivo título “O início do fim da Era Bilderberg”, ele remete às origens da estrutura de poder estabelecida no pós-guerra pela oligarquia anglo-americana e europeia, simbolizada pelas reuniões do famigerado Grupo Bilderberg, e comenta o desgaste da sua visão do mundo, que considera irreversível.

Diz ele:

O início do fim da visão Bilderberg/Soros está à vista. A Velha Ordem se agarrará a ela até a última unha. A visão Bilderberg é a noção de um cosmopolitismo multicultural e internacional, que supere o velho nacionalismo, anunciando o fim de fronteiras e conduza a uma governança “tecnocrática” global, econômica e política, liderada pelos EUA.

As suas raízes remontam a figuras como James Burnham, um ex-trotsquista anti-Stálin, que, escrevendo já em 1941, devendia que as alavancas do poder financeiro e econômico fossem colocadas nas mãos de uma classe administradora, uma elite que seria a única capaz de governar o Estado contemporâneo, graças ao seu conhecimento técnico do mercado e das finanças. Em outras palavras, era um chamado para uma oligarquia tecnocrática e especializada.

Crooke comenta como as ideias de Burnham atraíram a atenção de Frank Wisner, veterano do Gabinete de Serviços Estratégicos (OSS) e um dos fundadores do vasto aparato de inteligência centrado na CIA, que se consolidaria como um dos principais núcleos da estrutura oligárquica criada após a II Guerra Mundial. Segundo ele, Wisner percebeu o mérito delas “para uma ordem global pseudoliberal encabeçada pelos EUA e dirigida pela CIA”. A qualificação “pseudo”, afirma, se deve a que as liberdades defendidas por Burnham “não tinham nada a ver com a liberdade intelectual e as liberdades definidas pela Constituição dos EUA”, mas significavam realmente “conformismo e submissão” a tal hegemonia.

De acordo com Crooke, essa foi a origem de um “plano de batalha permanente para um império estadunidense global”, o qual necessitava de um inimigo permanente e a necessidade de “uma sofisticada campanha psicológica para manter vivo ‘por gerações’ o ódio à Rússia”.

Como parte desse plano de batalha, disse ele, a CIA plantou na Europa uma rede de partidos políticos aparentemente “centristas”, think-tanks e instituições aparentemente independentes e estruturas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Segundo ele, esta oligarquia tecnocrática sente-se hoje ameaçada pelo “inimigo na Casa Branca”, como se referiu ao presidente Donald Trump o editor da revista alemã Der Spiegel [ver Resenha Estratégica, 16/05/2018]. Isto porque, afirma, “goste-se dele ou se o odeie, o presidente Trump tem desempenhado uma parte importante, apenas dizendo o indizível”.

Entretanto, observa:

Mas, na Europa, duas falhas principais no roteiro de Burnham têm contribuído, possivelmente, de forma fatal, para a crise: primeiramente, a política de povoar a Europa com imigrantes, como remédio para a demografia adversa da Europa (e para diluir a sua identidade nacional ao ponto do apagamento): “Longe de conduzir à fusão”, escreve o historiador britânico Niall Ferguson, “a crise de imigração da Europa está levando à fissão. A peça poderia chamar-se ‘O caldeirão do derretimento’… crescentemente… o tema da imigração será visto por futuros historiadores como o solvente fatal da União Europeia. Nos seus relatos, o [referendo] Brexit aparecerá meramente como um sintoma da crise”. E, em segundo lugar, a bifurcação da economia em duas economias não relacionadas e desiguais, como resultado do mau gerenciamento da economia global pela elite (isto é, a óbvia ausência da “prosperidade para todos”).

Por outro lado, Crooke sugere que Trump está do lado errado da História quando investe contra o Irã, como parte das suas concessões aos dois regimes do Oriente Médio que o têm como inimigo existencial, Israel e a Arábia Saudita, em contraste com a atitude europeia favorável à preservação do acordo nuclear assinado com Teerã.

Para ele, porém, embora subjugar o Irã seja o “teste supremo para o restabelecimento da ordem global unipolar”, o país “tem mais alavancagem para assegurar a sobrevivência do que Trump possa ter imaginado”, devido ao seu papel igualmente pivotal para as estratégias geopolíticas multipolares da Rússia e da China.

“Os EUA levarão ao limite o seu domínio do sistema financeiro para estrangular o Irã, e a China e a Rússia farão o que seja necessário, financeiramente e em termos de comércio, para assegurar o que o Irã não imploda economicamente – e permaneça como um pilar da ordem mundial alternativa multipolar”, acrescenta.

Apesar de não acreditar que a Europa se disponha a usar o seu capital político na defesa do acordo nuclear, Crooke aponta outro fator crucial para a crise do sistema hegemônico:

(…) O que estamos dizendo é que a hegemonia do dólar dos EUA tem se mostrado ser tóxica de várias maneiras para o resto do mundo e Trump, ao aplicar essa hegemonia de uma forma tão gangsterística – “Nós somos a América, sua puta!”, como um funcionário da Casa Branca descreveu a abordagem estadunidense –, está alimentando o antagonismo contra a hegemonia do dólar (se não, ainda, contra os EUA de per si). Está empurrando todo o mundo fora dos EUA para uma posição comum de rebelião contra a dominação financeira unipolar estadunidense.

A agenda Bilderberg

O Grupo Bilderberg, ao qual Crooke se refere, foi fundado em 1954 e tem sido o principal centro ostensivo de discussões estratégicas entre as oligarquias dos dois lados do Atlântico. Em suas reuniões anuais, reúne entre 120-140 personalidades das áreas política, empresarial, militar, midiática e acadêmica, para discutir os temas de grande interesse do Establishment. A reunião deste ano, realizada em Turim, Itália, entre 7 e 10 de junho, incluiu temas que apontam para as preocupações citadas por Crooke:

– populismo na Europa;

– o desafio das desigualdades;

– o futuro do trabalho;

– inteligência artificial;

– os EUA antes das eleições de meio de mandato;

– livre comércio;

– liderança mundial dos EUA;

– Rússia;

– computação quântica;

– Arábia Saudita e Irã;

– o mundo da “pós-verdade”;

– eventos atuais.

É relevante registrar também o interesse dos “senhores do Universo” em tecnologias como a inteligência artificial e a computação quântica, que deverão ter um impacto crescente na chamada Quarta Revolução Industrial.

Sieff: mundo mudou, ninguém aqui percebeu

O artigo de Sieff, intitulado “O mundo se transformou e ninguém nos EUA percebeu”, também foi publicado pela Strategic Culture Foundation, em 22 de junho. Diz o autor:

O mundo se transformou e ninguém no Ocidente percebeu. A Índia e o Paquistão se juntaram à Organização de Cooperação de Xangai (SCO). Desde a sua fundação, em 15 de junho de 2001, o organismo de 17 anos se estabeleceu silenciosamente como a principal aliança e agrupamento de nações em toda a Eurásia. Agora, expandiu-se de seis para oito nações e os dois novos membros são as potências regionais gigantes nuclearmente armadas do Sul da Ásia, a Índia, com uma população de 1,324 bilhão, e o Paquistão, com 193,2 milhões de pessoas (ambas em 2016). Em outras palavras, a população combinada das potências da SCO, já com mais de 1,5 bilhão de habitantes, virtualmente dobrou de um único golpe.

As consequências globais de longo prazo desse acontecimento são enormes. Provavelmente, será o mais importante fator singular para assegurar a paz e remover a ameaça da guerra nuclear no Sul da Ásia e de 20% da raça humana. Ele eleva a fração da população mundial total nas oito nações da SCO a 40%, incluindo uma das duas mais poderosas nações com armas termonucleares (Rússia) e três outras potências nucleares (China, Índia e Paquistão).

Sieff registra que o fato representa um triunfo diplomático para a Rússia, de há muito interessada em trazer a sua aliada Índia para o guarda-chuva da SCO, “visão claramente articulada por uma das maiores mentes estratégicas russas do século XX, o ex-premier e ex-chanceler Yevgeny Primakov, morto em 2015”.

Para ele, o novo perfil da SCO é uma conseqüência de uma perda de rumo dos EUA:

O movimento também pode ser visto como uma reação das mais significativas da Índia à crescente volatilidade e imprevisibilidade dos EUA na arena global. Em Washington e na Europa Ocidental, é moda e, de fato, um reflexo inevitável, atribuir tudo isso ao presidente Donald Trump. Mas, em realidade, essa tendência alarmante remonta ao bombardeio do Kosovo pelos EUA e seus aliados da OTAN em 1998, desafiando a falta de sanção no Direito Internacional a uma tal ação, na época, porque outros membros chave do Conselho de Segurança das Nações Unidas se opunham a ela.

Desde então, sob quatro presidentes sucessivos, o apetite dos EUA por intervenções militares imprevisíveis em todo o mundo – usualmente, desacertadas e sem fim – tem infligido sofrimentos e instabilidade em um amplo leque de nações, primariamente, no Oriente Médio (Iraque, Síria, Líbia e Iêmen), mas também na Eurásia (Ucrânia) e no Sul da Ásia (Afeganistão). A entrada tanto da Índia como do Paquistão na SCO é, também, um contundente repúdio dos EUA.

Ao final, o veterano insider dos altos círculos de Washington chama a atenção para a perigosa atitude dos seus pares:

Entretanto, o que temos visto em seguida a esse acontecimento histórico é ainda mais extraordinário. As decisões em Nova Délhi e Islamabad não foram elogiadas, condenadas ou, mesmo, observadas na corrente principal dos debates políticos e estratégicos estadunidenses. Elas foram, simplesmente, totalmente ignoradas. Ver os líderes e formadores de opinião de uma grande superpotência, que ainda imagina ser a hiperpotência dominante, conduzirem os seus assuntos dessa maneira, é potencialmente preocupante e alarmante.

E conclui, talvez, com um misto de resignação e a certeza de quem faz a sua parte:

A realidade é que vivemos em um munto multipolar – e temos vivido claramente, pelo menos, desde 2001. Todavia, esta verdade óbvia continuará a ser negada em Washington, Londres e Paris, em aberto desafio aos fatos abundantemente claros.

As considerações de insiders do calibre de Crooke e Sieff são representativas da visão de setores mais lúcidos do Establishment anglo-americano, que já admitem a insustentabilidade da estrutura hegemônica mantida nas últimas seis décadas, em contraste com os grupos mais empedernidos e agressivos, que se aferram a ela a todo custo. E, da mesma forma, deveriam ser levadas na devida conta em países como o Brasil, onde uma considerável parte das elites locais continua igualmente aferrada a uma caduca visão de submissão preferencial às agendas hegemônicas do Hemisfério Norte.

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