Barbarossa, 80 anos

“Dortmund! Mohn! Kresse! Aster! Aster!”

Há 80 anos, essas palavras de código sinalizaram a deflagração da maior investida militar da História, a Operação Barbarossa, invasão da União Soviética pelas forças da Alemanha Nazista de Adolf Hitler, que resultaria em quase quatro anos da maior carnificina da II Guerra Mundial, com a morte de 30 milhões de seres humanos, entre militares e civis.

Na madrugada de 22 de junho de 1941, uma colossal força de 3,6 milhões de homens (80% do Exército alemão mais tropas auxiliares finlandesas, húngaras, eslovacas e romenas), 2.700 aviões, 3.600 tanques, 7.100 canhões, 600 mil veículos motorizados e 600 mil cavalos, iniciou um devastador ataque contra as forças defensivas soviéticas ao longo de uma frente de quase 2.600 quilômetros, entre a Finlândia e a Romênia, em três grandes grupos de exércitos direcionados contra Leningrado, ao norte, Moscou, no centro, e Kiev, na Ucrânia, ao sul.

O objetivo geral de Hitler era a conquista da maior parte da Rússia Europeia, a Bielorrússia e a Ucrânia, territórios que deveriam proporcionar ao Terceiro Reich o “espaço vital” e os recursos naturais que, na visão do Führer, faltavam à Alemanha para tornar-se a grande potência mundial. Igualmente, seria uma guerra de extermínio do “comunismo judaico”, eleito o grande inimigo ideológico do nazismo, e das populações eslavas da região, consideradas “raças inferiores”. Em especial, a Ucrânia, com suas férteis áreas agrícolas, deveria representar para o “Grande Reich” um papel semelhante ao da Índia para o Império Britânico.

Tais objetivos já constavam do livro de Hitler, Minha luta (Mein Kampf), publicado em 1926:

(…) Um grande povo, sem possibilidade de aumento territorial, parece destinado ao desaparecimento… A Alemanha tornar-se-á uma potência mundial ou deixará de existir… Quando hoje em dia falamos, na Europa, de nosso solo, pensamos, em primeira linha, somente na Rússia e Estados adjacentes, a ela subordinados. O próprio destino parece querer nos indicar a direção… Nossa finalidade, a missão do movimento nacional-socialista, é, porém, convencer o povo alemão de que não deve ver aí o seu objetivo do futuro realizado na embriaguez de uma nova campanha de Alexandre e sim no trabalho laborioso do arado alemão, ao qual só a espada tem de dar o solo.

Antes da invasão, Hitler não deixou margem a dúvidas sobre o caráter da campanha, quando disse aos seus generais: “Esta é uma guerra de extermínio. Os comandantes devem estar preparados para sacrificar os seus escrúpulos pessoais.”

De fato, as tropas regulares foram seguidas por esquadrões da morte da SS (Einsatzgruppen) encarregados da execução sumária de civis, principalmente judeus, funcionários do governo soviético e outros. Até o final da guerra, estima-se que os Einsatzgruppen tenham assassinado mais de um milhão de pessoas. Ironicamente, a brutalidade nazista impediu que um grande número de ucranianos e bielorrussos apoiassem os invasores contra o regime de Stálin, rival de Hitler em violência, voltada contra o seu próprio povo.

Por ocasião do ataque, encontrava-se em pleno vigor o Pacto de Não-Agressão estabelecido pelos dois ditadores em agosto de 1939, ainda hoje, alvo de tantas polêmicas. Na época, Hitler já tinha a URSS na alça de mira, mas não podia atacá-la sem antes resolver o seu contencioso com a Polônia sobre Dantzig (cidade com mais de 90% de população alemã entregue à Polônia após a I Guerra Mundial) e neutralizar a França como aliada potencial dos soviéticos, a despeito do anticomunismo exacerbado de grande parte de suas elites. Por sua vez, Stálin, depois de frustradas todas as tentativas de estabelecer um pacto defensivo com a França, Inglaterra e Polônia, precisava ganhar tempo para preparar as suas debilitadas forças armadas para o confronto que sabia inevitável. Portanto, o pacto foi um arranjo de conveniência temporário que serviu momentaneamente aos propósitos de ambos, mas Stálin superestimou largamente a sua própria capacidade de “esticá-lo”.

Apesar dos numerosos informes recebidos sobre a invasão, muitos chegando a precisar a data, oriundos dos seus serviços de inteligência, de governos estrangeiros, entre eles, a Inglaterra e os EUA, e até mesmo, por incrível que pareça, do embaixador alemão em Moscou, a obsessão de Stálin com “não provocar” Hitler dificultou sobremaneira a preparação do dispositivo de defesa soviético e, com exceção da Marinha (comandada pelo previdente almirante Nikolai Kuznetsov), o Exército e a Força Aérea foram apanhados desprevenidos.

Os resultados foram catastróficos. A Força Aérea soviética perdeu mais de 4 mil aviões nos primeiros dias, a maior parte destruída no solo. Até o início de outubro, o Exército Vermelho perdeu mais de 2,7 milhões dos seus 5 milhões de homens, entre mortos, feridos e prisioneiros de guerra (a maioria dos quais morreria de fome e maus tratos nos campos de prisioneiros nazistas). Das cinco maiores cidades soviéticas, Minsk, Kharkov e Kiev caíram nas mãos dos invasores e Leningrado, submetida a um cerco que duraria quase 900 dias e causaria a morte de um milhão dos três milhões de habitantes da cidade, a maioria de fome. O alvo seguinte era a capital Moscou.

Entretanto, ao custo de uma monumental perda de vidas, os soviéticos conseguiram contrariar os prognósticos otimistas das lideranças alemãs sobre a campanha rápida de dois ou três meses com que contavam, principalmente, devido às suas limitações de equipamentos, combustíveis e suprimentos. Esta era uma vulnerabilidade da máquina de guerra nazista, agravada pelas dificuldades logísticas criadas pelas vastas distâncias da URSS, problemas que não haviam se manifestado nas fulminantes campanhas de 1939-1940, contra a Polônia, Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica e França. E um aspecto pouco conhecido da campanha no Leste é que boa parte dos combustíveis usados pela Wehrmacht provinha de empresas petrolíferas estadunidenses, disfarçados de remessas à neutra Espanha e à França de Vichy (prática que prosseguiu até mesmo, durante certo tempo, após a declaração de guerra de Hitler aos EUA, em dezembro de 1941).

Assim, apesar dos sucessos iniciais, o ataque alemão foi detido às portas de Moscou, em dezembro, com uma vigorosa contraofensiva comandada pelo general Giorgi Zhukov, que viria a tornar-se um dos grandes líderes militares do conflito. Pela primeira vez, a já esgotada Wehrmacht foi obrigada a recuar e a liderança nazista, inclusive o próprio Hitler, percebeu que a guerra já não poderia ser vencida por meios militares. Todavia, ela ainda duraria na Europa outros 40 longos e sangrentos meses (e mais três até a rendição do Japão).

Desde a Guerra Fria até hoje, autores “revisionistas” a serviço da agenda hegemônica encabeçada pelos EUA têm se empenhado em afirmar que Hitler teria apenas se antecipado a um suposto iminente ataque preventivo soviético, mas isto não resiste à análise mais superficial. De fato, Stálin achava que a guerra com os nazistas era inevitável, mas não a esperava para antes de 1942, quando julgava que suas forças estariam em melhores condições. Tais tentativas têm motivações claramente políticas, com a intenção de distorcer os fatos históricos em apoio a uma agenda de demonização da Rússia como sucessora da URSS. O mesmo se manifesta no empenho de autores e políticos estadunidenses e europeus em equiparar Stálin a Hitler como corresponsáveis pela deflagração da II Guerra Mundial, distorcendo o significado do Pacto de Não-Agressão de 1939.

Em uma cerimônia realizada no Museu Alemão-Russo Berlim-Karlshorst, entidade mantida pelos dois governos, em 18 de junho último, o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier proferiu um emotivo discurso em reconhecimento aos horrores e às vítimas da guerra, no qual ressaltou as responsabilidades da geração atual. Na ocasião, afirmou:

Não é fácil para qualquer um trazer à mente os horrores do passado. Entretanto, reprimir as memórias, não admitir a culpa, nunca torna as coisas mais fáceis. Somente aqueles que aprendem a entender os traços do passado no presente serão equipados para ajudar a desenhar um futuro que evite guerras, rejeite a tirania e possibilite a coexistência pacífica em liberdade… O que lhes digo hoje é: neste dia, estamos recordando os milhões e milhões que perderam as suas vidas, recordemos o quão preciosa é a reconciliação, quando ela cresceu sobre os túmulos dos caídos. Este presente de reconciliação acarreta uma grande responsabilidade para a Alemanha. Nós queremos, e de fato queremos, fazer tudo para proteger o direito internacional e a integridade territorial neste continente, e lutar pela paz com e entre os Estados sucessores da antiga União Soviética (HistoryNet, 18/06/2021).

Por sua vez, o presidente russo Vladimir Putin escreveu um artigo para o jornal alemão Die Zeit, publicado em 22 de junho, no qual, depois de citar os enormes sacrifícios do povo soviético, lamentou os presentes desencontros entre as nações europeias e a Rússia, materializados na crescentemente agressiva atitude da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). E concluiu com um apelo:

O mundo é um lugar dinâmico, às voltas com novos desafios e ameaças. Nós simplesmente não podemos dar-nos ao luxo de carregar o fardo de desentendimentos, maus sentimentos, conflitos e erros do passado. Este é um fardo que nos impedirá de concentrar-nos nos desafios que enfrentamos. Nós estamos convencidos de que todos nós deveríamos reconhecer esses erros e corrigi-los. O nosso objetivo comum e inquestionável é assegurar a segurança em todo o continente, sem linhas divisórias, um espaço comum para a cooperação equitativa e o desenvolvimento inclusivo, para a prosperidade da Europa e do mundo como um todo (RT, 22/06/2021).

Que essas palavras calem fundo entre todos os europeus, cujos pais e avós experimentaram os horrores da guerra mais devastadora da História.

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