"Banco dos BRICS" pode apontar caminho para recuperação mundial

A proposta do “Banco dos BRICS”, ou “Banco Sul-Sul”, à falta de nomes melhores, foi apresentada pela Índia, na reunião dos ministros da Fazenda do grupo, realizada à margem da reunião dos ministros do G-20, na Cidade do México, como já vem se tornando uma praxe em encontros do gênero. A entidade funcionaria como um banco multilateral de desenvolvimento, comandado apenas por economias emergentes.

A sugestão já vinha sendo discutida desde o final de 2011, mas ganhou um reforço diante da intenção manifesta dos EUA de indicarem outro estadunidense para a sucessão de Robert Zoellick na presidência do Banco Mundial, em junho próximo, em uma indicação de que não estão dispostos a abrir mão do acordo informal que tem mantido o controle do banco nas mãos de Washington, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) é controlado pelos europeus.

Segundo o correspondente do Valor Econômico, Alex Ribeiro (27/02/2012), em princípio, o Brasil seria simpático à ideia, embora todos os envolvidos reconhecem que, se for adiante, trata-se de uma proposta de longo prazo.

Não obstante, o mero fato de ter sido lançada publicamente é indicativo, não apenas de uma autoconfiança que até há pouco não era comum entre esses países, como, também, da percepção de que eles podem – e devem – sinalizar uma atitude diferenciada diante de um cenário global em rápida transformação.

O Dr. Boris Martinov, diretor do Instituto da América Latina da Academia Russa de Ciências, confirma essa percepção e vai além: para ele, os BRICS podem representar “uma nova filosofia civilizadora”. Em entrevista ao sítio Voz da Rússia (27/02/2012), ele afirma:

Os problemas globais não faltam. Mas eles não se resolvem – são apenas formulados, enquanto que os fenômenos críticos se agravam cada vez mais. Os países ocidentais já não dispõem de forças e ambições suficientes para remediar a situação. E aí passa a desempenhar um papel ativo o grupo constituído pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – o chamado BRICS. O enfoque dos EUA para com a solução de problemas complexos é bem conhecido: bombardear e mais uma vez bombardear. O grupo BRICS refuta esta política e semelhantes ações. Os países-gigantes emergentes representam interesse para nós, em primeiro lugar, porque podem introduzir uma nova filosofia civilizadora. Esta estrutura única simboliza de forma mais patente a transição da unipolaridade para uma estrutura mundial mais justa.

Em outra entrevista, ao Diário da Rússia de 12 de fevereiro, Martinov destaca as relações da Rússia com o Brasil, defendendo que os dois países deveriam se empenhar em aprofundá-las:

Gostaria que houvesse maior dinâmica entre Rússia e Brasil. A crise econômica e financeira de 2008 impediu os nossos planos, principalmente sobre o comércio bilateral, o que também acabou estagnando as relações externas. O Brasil é um parceiro sério, que exporta grande quantidade de artigos com alto grau de processamento e tem uma economia competitiva. Esse país é o terceiro do mundo em fornecimento de aviões civis e o primeiro em exportação de etanol. O Brasil, assim como a Rússia, tem grandes reservas naturais. Ambos contam como imensos territórios, como a Amazônia e a Sibéria, que precisam de mais segurança, mais presença e melhor distribuição de recursos. (…)

O Brasil é um dos principais parceiros estratégicos para a Rússia, e por isso temos que estreitar nossas relações bilaterais. Um dos pontos a levar em consideração é a presença brasileira no cenário internacional. A Rússia também tem o que oferecer, como a construção de gasodutos e oleodutos. Portanto, é preciso que os nossos empresários fiquem atentos a essas oportunidades. Também podemos criar áreas de cooperação, sendo que uma delas é o turismo. Devido a suas posições geográficas e a seus inúmeros recursos, Brasil e Rússia têm grande apelo aos turistas.

A realidade é que a ideia de uma nova instituição financeira denota o vácuo existente na atual estrutura financeira mundial, que restringe os fluxos de crédito necessários para uma recuperação global da economia física. Por isso, é relevante uma iniciativa que poderá unificar os esforços de desenvolvimento na região eurasiática e além dela. Do desenvolvimento desta região, depende, sem dúvida, qualquer esforço sério de superação da armadilha monetarista em que se encontra a Humanidade. Para o Brasil, a proposta reforça a agenda de aceleração do desenvolvimento da integração física da América do Sul. Tais esforços, combinados com outros de orientação análoga, podem, efetivamente, marcar o runo de uma nova filosofia civilizadora, que permita deixar para trás a disfuncional e catastrófica mentalidade anglo-saxã-calvinista que fundamenta o atual formato das finanças globais.

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