Atrever-se-á a Alemanha a assumir o papel histórico que lhe cabe?

Praticamente ignoradas pela mídia brasileira, as visitas-relâmpago do presidente russo Vladimir Putin à Áustria e à Alemanha, no sábado 19 de agosto, podem sinalizar algo bem mais relevante que um apenas entendimento sobre a expansão do gasoduto Nord Stream 2, motivo destacado por alguns comentaristas internacionais.

Vale observar que se a viagem de Putin estaria justificada se tivesse sido apenas por isso. De fato, a duplicação do existente gasoduto de 1.222 km que liga diretamente a Rússia e a Alemanha via Mar Báltico, um megaprojeto estimado em 9,5 bilhões de euros, é de interesse direto tanto de Berlim como de Viena.

Não obstante, há muito mais em jogo, num momento em que o governo dos EUA parece decidido a dobrar qualquer aposta contrária à sua agenda hegemônica, recorrendo ao jogo pesado das sanções econômicas e políticas, não apenas contra os quatro países já anunciados – Rússia, China, Irã e Turquia –, mas ameaçando desfechá-las contra qualquer outro país que se atreva a burlar as restrições de Washington, um recado direto para a União Europeia (UE).

Além da Rússia, a chanceler Angela Merkel parece disposta a um acercamento com a Turquia de Recep Erdogan, em especial, visando à situação da Síria. Na véspera da reunião com Putin, ela própria afirmou que está em consideração uma possível reunião quadripartite entre a Alemanha, Rússia, França e Turquia, para tratar da pacificação e reconstrução do país árabe devastado por sete anos de guerra. Embora não haja uma data para o encontro, as chancelarias estão trabalhando no assunto. E o próprio Erdogan deverá fazer uma visita oficial a Berlim, em setembro, fato de especial relevância, no momento em que Ankara entra na lista de sancionados de Washington.

O problema é que a Alemanha tem muito a perder com a insistência em manter-se atrelada aos ditames estadunidenses, não só pelos enormes investimentos alemães na Rússia e projetos bilaterais como o Nord Stream 2, mas, principalmente, pela sua condição de elo natural e mais desenvolvido do eixo eurasiático que vai se avolumando como o novo centro de gravidade da economia mundial. Não por acaso, tal condição foi percebida há mais de um século pelo pai da geopolítica britânica, Halford Mackinder, inspirador de todas as manobras anglo-americanas empreendidas desde então, para obstaculizar a cooperação russo-alemã.

Aparentemente uma parcela significativa das elites alemãs já se deu conta e não parece disposta a perpetuar indefinidamente os velhos jogos da Guerra Fria, que têm mantido a Alemanha sob a rédea curta da agenda do Establishment anglo-americano. Já durante a Guerra Fria, a Ostpolitik (Política para o Leste) do chanceler Willy Brandt representou uma política própria da então Alemanha Ocidental diante da União Soviética, da qual resultou, inclusive, a construção dos primeiros gasodutos para o fornecimento de gás natural russo à Europa Ocidental, a partir de meados da década de 1960. Quem sabe se o precedente poderá inspirar Merkel, oriunda da antiga Alemanha Oriental, a demonstrar uma maior autonomia de voo?

De qualquer maneira, o nervosismo do Establishment anglo-americano ficou patenteado na admissão do Financial Times londrino, admitindo de má vontade que a iniciativa de Putin assinala “um ponto de inflexão” nas relações bilaterais. Já a mídia estadunidense, com exceção do Wall Street Journal, preferiu ignorar o encontro.

As próximas semanas serão determinantes para se avaliar se Berlim está mesmo disposta a contrariar Washington, em temas cruciais como as sanções, o conflito na Síria e o acordo nuclear com o Irã. Seja como for, em algum momento, a Alemanha ver-se-á forçada a cuidar dos seus interesses maiores e, consequentemente, assumir o papel histórico que lhe cabe nesse momento de mudança de época global.

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