Argentina e Ucrânia: duas frentes da mesma guerra

Em 16 de junho, a Suprema Corte dos EUA deu ganho de causa a dois fundos de investimentos detentores de títulos da dívida argentina, determinando que o governo de Buenos Aires deveria pagar-lhes imediatamente a quantia de 1,5 bilhão de dólares, o que, se não fosse feito, implicaria na ameaça de arresto de bens argentinos em todo o mundo. Os fundos, NML Capital e Aurelius Capital Management, são dois dos mais notórios representantes dos chamados “fundos abutres”, notórios pela prática de comprar títulos de países endividados por uma pequena fração do seu valor de face e exigir judicialmente o seu pagamento integral. Na decisão, o tribunal ignorou o fato de que a medida implicava na ameaça de inadimplência dos pagamentos regulares que vêm sendo efetuados após a renegociação da dívida argentina, em 2005, nos termos aceitos por 93% dos credores do país e, com ela, o risco de uma nova moratória argentina – de alto risco para o já fragilizado sistema financeiro globalizado.

Em nota oficial, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD) afirmou que a decisão “estabelece um precedente legal que poderá ter profundas consequências para o sistema financeiro internacional”.

Igualmente, em uma reunião convocada para discutir o assunto, a Organização dos Estados Americanos (OEA) divulgou uma declaração, na qual respalda a posição da Argentina e afirma ser “essencial para a estabilidade e previsibilidade da arquitetura financeira internacional garantir que os acordos alcançados sejam respeitados”. De forma emblemática, a decisão não recebeu o apoio dos EUA e do Canadá, países diretamente vinculados ao centro da estrutura de poder hegemônico global, que se empenha em preservar os pilares centrais do seu poderio – o papel do dólar estadunidense como moeda de referência mundial e a capacidade de projeção militar dos EUA e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a todas as suas áreas de interesse.

No outro lado do mundo, no final de junho, a Ucrânia, Geórgia e Moldávia assinaram um acordo de parceria comercial e política com a União Europeia (UE), cujo nome oficial – Acordo de Associação e Área de Livre Mercado Profunda e Abrangente – é autoexplicativo quanto ao alcance de sua proposta. Trata-se do mesmo acordo rejeitado, em novembro último, pelo então presidente ucraniano Viktor Yanukovich, atitude que motivou a insidiosa campanha que o derrubou, em março, com apoio ostensivo dos EUA e seus aliados da OTAN, e mergulhou o país em uma guerra civil cujo desfecho ainda não está à vista. Junto com ele, veio o inexorável pacote de “apoio” do Fundo Monetário Internacional (FMI), cujas consequências são conhecidas, em termos de arrochos fiscais e salariais, redução de investimentos e serviços públicos, desnacionalização econômica e retração econômica.

Em entrevista à rede de televisão russa RT, o economista estadunidense Michael Hudson, professor da Universidade de Missouri, sintetizou:

O princípio básico a se ter em mente é o de que, hoje, as finanças representam guerra por meios não militares. O objetivo de colocar um país em dívida é obter o seu excedente econômico, acabando com a sua propriedade. A principal propriedade a ser obtida é que ele possa produzir exportações e gerar divisas. Para a Ucrânia, isto significa, principalmente, as companhias manufatureiras e mineradoras do Leste, que, atualmente, estão nas mãos dos oligarcas. Para os investidores estrangeiros, o problema, agora, é como transferir estes ativos e as suas receitas para mãos estrangeiras – em uma economia cujos pagamentos internacionais estão em déficit crônico, como resultado da fracassada reestruturação pós-1991. É aí que entra o FMI. (…) O FMI transfere um crédito para a sua “conta Ucrânia”, que, então, é usada para pagar os credores estrangeiros. Na verdade, o dinheiro nunca chega à Ucrânia ou aos outros países que tomam empréstimos no FMI. Ele é pago às contas dos estrangeiros, inclusive, governos credores, como no caso dos empréstimos do FMI à Grécia. Estes empréstimos vêm com “condicionalidades”, que impõem austeridade. Por sua vez, isto mergulha a economia cada vez mais na dívida, forçando os governos a apertar ainda mais o orçamento, operar com déficits orçamentários cada vez menores e vender ativos públicos (RT, 7/07/2014).

No caso ucraniano, os acordos com a UE e o FMI foram assinados em paralelo com a decisão do governo de Kiev de desfechar uma pesada ofensiva militar contra os insurgentes do Leste, com o apoio ostensivo de Washington (embora com reservas nas capitais europeias). Atitude que muitos observadores creditam a um esforço para forçar uma intervenção direta da Federação Russa de Vladimir Putin, que defende um cessar-fogo imediato e negociações que conduzam a uma federalização do país, cenário mais aceitável às populações do Leste e do Sul, culturalmente mais ligadas à Rússia do que os seus compatriotas ocidentais.

Até o momento, Putin não demonstrou qualquer intenção de morder a isca. Ao contrário, tem se empenhado em demonstrar aos seus colegas ocidentais a necessidade de um arranjo cooperativo, para um enfrentamento efetivo dos problemas multifacetados que ameaçam aprofundar a crise global, tanto na Ucrânia como no Oriente Médio, nos quais a Rússia detém um papel crucial. Infelizmente, os seus apelos têm caído em ouvidos moucos, em especial, em Washington e Londres, onde os mentores da agenda hegemônica global se esmeram na tentativa de preservação do status quo, ainda que à custa do aprofundamento dos conflitos que assolam aquelas regiões do planeta e, não menos, da crise financeira e econômica mundial – combinação potencialmente letal, que algumas mentes delirantes veem como oportunidade para o estabelecimento de uma efetiva estrutura de “governo mundial”.

Assim, a dívida da Argentina e a investida militar contra os insurgentes ucranianos representam duas frentes de uma mesma guerra, não declarada mas travada pelos mentores de tal estratégia hegemônica, para impedir ou, pelo menos, retardar ao máximo o advento de um cenário multipolar na organização mundial, que abra caminho para a resolução pacífica de contenciosos e o estabelecimento de um novo sistema financeiro internacional, reorientado para a reconstrução da economia mundial, em um marco de cooperação internacional e interregional para um impulso de desenvolvimento compartilhado.

Nesse contexto, o papel da Rússia é dos mais relevantes, tanto em termos estratégico-políticos, como pela cooperação pouco velada com a China, no sentido de estabelecer um marco “extradólar” para o comércio bilateral, que possa, eventualmente, ser estendido a outros países, além do trabalho no âmbito do grupo BRICS para a criação de um banco de fomento e um fundo emergencial de reservas, separado da estrutura do FMI e do Banco Mundial, controlados por Washington e seus aliados.

A cúpula dos BRICS, em Fortaleza, logo após a Copa do Mundo, poderá apresentar importantes novidades para essa contraofensiva.





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