Argentina e Brasil: perspectivas diferentes na exploração espacial

Até o final do ano, deverá ser lançado ao espaço o primeiro protótipo do foguete lançador de satélites argentino Tronador II. Fruto de um bem pensado projeto que integra o bem sucedido programa espacial do país vizinho, o foguete deverá colocar a Argentina no seleto clube de dez países do mundo que detêm tal tecnologia.
O Tronador II poderá lançar satélites de até 250 kg em órbitas de baixa altura, a até 700 km da superfície terrestre. O foguete em desenvolvimento é a segunda etapa do projeto Tronador, que está sob responsabilidade da Comisión Nacional de Actividades Espaciales (CONAE), órgão estatal que executa o Plano Nacional Espacial argentino. O projeto teve início na segunda metade da década passada, por iniciativa da própria CONAE, sendo que a principal empresa contratada para a sua execução é a VENG (Vehículo Espacial de Nueva Generación), uma sociedade de capitais públicos e privados, e a ela cabe o desenvolvimento dos motores de quatro toneladas empuxo e do sistema de propulsão.

A versão inicial da primeira versão dessa família de foguetes (Tronador I) foi um pequeno foguete de um único estágio, com 3,4 metros de altura, lançado com sucesso em 2007, da mesma forma que a versão seguinte, Tronador Ib, com 6 metros de altura, lançado em 2008. O foguete em desenvolvimento está sendo projetado para ser um veículo de navegação autônoma – uma vez programado, ele será capaz de buscar a sua órbita – , o que representa um grande avanço para a capacitação tecnológica do programa.

Na versão definitiva, o foguete terá dois estágios. O primeiro funcionará nos primeiros dois minutos de voo, até que consiga vencer a força da gravidade, desprendendo-se ao alcançar a altura de 100 km e caindo no oceano – consumindo nesse processo 90% de todo o combustível. Os 10% restantes serão empregados no segundo estágio, que colocará o satélite na órbita pré-determinada.

Cohete_Tronador_II-CONAE

Maquete do foguete Tronador II (Conae)

A decisão do governo argentino com o projeto foi a de que a maior parte dos componentes e da tecnologia fossem desenvolvidos no próprio país, em vez de recorrer às importações. Isto fez com que o desafio fosse maior e, possivelmente, aumentou os custos, mas a contrapartida foi a qualificação do pessoal empregado na empreitada.
Um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do foguete, o engenheiro aeronáutico Marcos Actis, decano da Universidad Nacional de La Plata (UNLP) e chefe de uma equipe de 150 pesquisadores, é um veterano do programa espacial argentino, atuando em projetos da CONAE desde 1996, junto com numerosos colegas da UNLP.

O projeto Tronador reúne um total de 600 profissionais altamente capacitados, dos quais 250 trabalham na VENG S.A. e outros 200 atuam em numerosos institutos de pesquisa, como o Centro de Investigaciones Ópticas, o Instituto Argentino de Radioastronomía, as universidades de Buenos Aires, Tecnológica Nacional, de Córdoba e de Mar del Plata, o Instituto Universitario Aeronáutico, a Comisión Nacional de Energía Atómica (CNEA), o Servicio Meteorológico Nacional, o Instituto Balseiro, Y-TEC (centro de desenvolvimento de tecnologia da Yacimientos Petrolíferos Fiscales – YPF) e a Planta Piloto de Ingeniería Química (Plapiqui).

Contudo, a que mais se destaca dentre os institutos de pesquisas participantes do projeto do foguete é a INVAP, cujo papel estratégico para os principais projetos de ciência e tecnologia argentinos já foi comentada por este Alerta(16/10/2015). Trata-se de uma extraordinária empresa de tecnologias avançadas sediada em Bariloche, criada em 1976, a partir do setor de pesquisas da Comissão Nacional de Energia Atômica (CNAE). É controlada pelo governo da província de Rio Negro, mas atua como uma empresa privada, desenvolvendo projetos de satélites, radares, reatores e equipamentos nucleares, geradores eólicos, plantas de liofilização, equipamentos de radioterapia, monitores para a exploração petrolífera e outros.

Em maio de 2013, a INVAP foi contratada pelo governo brasileiro para a construção do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), que será usado na produção de radioisótopos e em pesquisas nucleares. Além disso, essa empresa foi responsável por outro projeto de grande importância para a ciência e tecnologia do país vizinho: o satélite geoestacionário Arsat-1, que entrou em operação com sucesso no dia 16 de outubro de 2014. Tal façanha tecnológica que fez com que a Argentina entrasse para o seleto grupo de nações que projetam e fabricam satélites de forma totalmente autônoma, juntando-se aos EUA, União Europeia, Rússia, Israel, Japão, China e Índia.

Os cientistas e tecnólogos envolvidos no projeto afirmam que esse esforço trará benefícios em outras áreas da economia argentina. Um exemplo das tecnologias de ponta desenvolvidas no âmbito do Tronador II é o combustível, criado por uma equipe de especialistas do centro de desenvolvimento tecnológico da YPF. Segundo Gustavo Bianchi, doutor em Ciência de Materiais da Universidad de Mar del Plata, ex-pesquisador da CNEA e diretor do centro, o combustível é “de um tipo que somente três países produzem: Estados Unidos, China e Rússia (La Nación, 16/02/2015)”.

Outro exemplo é o alumínio de altíssima qualidade em desenvolvimento na UNLP. Segundo Actis, “a Argentina exporta alumínio, mas o de preço baixo. O barato é exportado e, depois, compramos alumínio caro. O nosso alumínio vale uns 2.000 dólares a tonelada, mas o que importamos, custa uns 20.000. E o espacial, que é o que estamos fazendo na faculdade, ao redor de 2000.000 dólares. O dado interessante é que este último se usa para veículos espaciais, mas também serve para a indústria automobilística. É uma tecnologia de grande valor agregado. O mesmo ocorre com os sistemas de navegação”.

No Centro de Investigações Óticas do Conicet, Ricardo Duchowicz e Gustavo Torchia lideram dois dos grupos que, junto com o de Mario Garavaglia, desenvolvem há mais de uma década os giroscópios que estarão encarregados de monitorar o vôo do lançador e os sensores que permitirão controlar a integridade estrutural do foguete. Os três grupos de cientistas trabalham de maneira coordenada desde 2009. O giroscópio é um equipamento que detecta o grau de giro que o foguete faz durante o seu voo e tem um grau de precisão tão grande que é capaz de detectar a rotação da Terra se colocado sobre uma mesa.

O projeto também dá outras contribuições importantes, além do desenvolvimento de novas tecnologias que a Argentina não dominava, como o estímulo à formação de recursos humanos. “Enviamos docentes e estudantes para se capacitarem no exterior… e outros, para fazer mestrados e doutorados em engenharia aeroespacial. (…) Para medir o impacto que tem esse projeto, basta mencionar que a carreira de engenharia aeronáutica costumava ter apenas 70 alunos (por ano), e neste ano tem 140”.

Os coordenadores do projeto Tronador II preveem novos testes este ano com o protótipo VEx5, que já possui dois estágios de lançamento. Segundo Servidia, isso “implica a avaliação progressiva de uma série de objetivos, como a separação de etapas, o voo controlado, a partida e o impulso do motor do último estágio, e do mecanismo de abertura da ‘cofia’ (onde o satélite fica alojado). As provas serão realizadas a partir da região vizinha de Pipinas, ao norte da baía de Samborombón”.

A construção dessas instalações e o desenvolvimento do projeto do foguete reativaram a economia da área, sendo celebrada pela população local, apesar de algumas tentativas de grupos ambientalistas de criar problemas, logo superadas. O voo inaugural da versão definitiva do foguete está previsto para dezembro deste ano (Clarín, 6/03/2014).

O orçamento do projeto Tronador II para o período de 2014 a 2016 é de 2 bilhões de pesos (equivalente a 230 milhões de dólares). Entre 2003 e 2014, a CONAE gastou 3,9 bilhões de pesos (cerca de 440 milhões de dólares) em todo o programa espacial do país (Télam, 19/08/2014). Tais valores confirmam a capacidade argentina de desenvolver projetos aeroespaciais eficientes a um custo bastante razoável e com a necessária continuidade, o que tem a contrapartida na prioridade atribuída ao programa espacial por sucessivos governos, conferindo-lhe a condição de programa de Estado (ao contrário de um certo país vizinho).

Enquanto isso, num grande país ao norte…

Ao mesmo tempo em que os “hermanos” estão em vias de lançar o seu próprio lançador de satélites, o Brasil patina sem qualquer perspectiva à vista para dispor de um veículo semelhante. O desenvolvimento do Veículo Lançador de Satélites (VLS) encontra-se virtualmente paralisado, assim como o Cyclone-4, que deveria resultar do acordo assinado com a Ucrânia em 2007, com a criação da empresa binacional Alcântara Cyclone Space (ACS). Segundo reportagem do jornal O Globo, até agora, já foram gastos R$ 477 milhões, mas todos os investimentos foram interrompidos há mais de um ano e não há qualquer previsão sequer para o fim das obras mais básicas.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) admitiu que o projeto demanda “investimentos adicionais que alteram profundamente os custos iniciais”. Entretanto, “não há previsão” sequer para conclusão das obras no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Com o congelamento de fato dos investimentos e a parada total das obras, muitos operários já abandonaram a cidade, céticos em relação à conclusão da empreitada, que já chegou a reunir dois mil trabalhadores (O Globo, 15/02/2015).

Já o desenvolvimento do foguete, sob responsabilidade da Ucrânia, está 87% concluído e a parte restante depende do avanço da parte brasileira, além de ajustes para que o foguete possa disputar uma fatia de mercado. Porém, segundo a reportagem do Globo, o orçamento do MCTI na área espacial está totalmente dedicado ao monitoramento da Terra, para estudar os efeitos da estiagem que assola o Sudeste, e não há verbas previstas para o Cyclone-4.

A despeito do congelamento dos investimentos, a ACS continua consumindo recursos públicos: em 2014, teriam sido gastos R$ 13 milhões com o pagamento de encargos administrativos, funcionários, diretores e conselheiros. Segundo a revista Veja (25/02/2015), caso o programa seja efetivamente cancelado, o governo ucraniano ainda poderá mover uma ação contra o Brasil em cortes internacionais e obter até R$ 822 milhões como indenização pelos investimentos feitos por Kiev no projeto.

É lamentável se constatar o contraste gritante entre os programas espaciais argentino e brasileiro. Enquanto os vizinhos, com todas as dificuldades políticas e econômicas, tratam o seu como um programa de Estado e atribuem a ele as dotações orçamentárias correspondentes, por aqui, o quadro é o oposto, com as lideranças políticas demonstrando um desconhecimento e uma indiferença abissais sobre a importância estratégica das atividades aeroespaciais.

Diante de tal cenário, ainda mais incerto diante do quadro de austeridade orçamentária em curso, se faz necessária uma ampla revisão do programa, envolvendo lideranças políticas, comunidade científica, representantes da industria, militares e entidades interessadas, de modo a adequá-lo à realidade. Talvez, seja mais factível se deixar de lado as ambiciosas metas da última versão do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), e concentrar os esforços em projetos passíveis de concretização a médio prazo. Além de se decidir de vez o destino do acordo com a Ucrânia – encerrando-o, se for o caso -, poderiam ser mantidos os projetos já em curso, como o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), o satélite de sensoriamento remoto Amazônia-1, os satélites oceanográficos SABIA-Mar, que estão sendo desenvolvidos justamente em parceria com a Argentina e os satélites de coleta de dados ambientais. Além deles, seria de grande relevância colocar na pauta um satélite meteorológico e outro de vigilância, que poderia ter usos civis e militares. Em ambos os casos, um aprofundamento da parceria com a Argentina poderia ser bastante produtiva, assim como para um segundo satélite geoestacionário.

A rigor, seria uma decisão de grande alcance estratégico se o Brasil e a Argentina estreitassem a cooperação nessa área, para o que ambos teriam muito a ganhar. Tal cooperação poderia, posteriormente, resultar no embrião de uma futura agência espacial sul-americana, nos moldes do que faz a União Europeia. Isso permitiria dividir custos, compartilhar os subprodutos das atividades espaciais, qualificar quadros de alto nível e, não menos, contribuiria sobremaneira para uma integração regional em alto nível. Mas, para que isto se concretize, falta um item fundamental: vontade política.

6 comments

  1. Maceió,11 de março de 2015

    Senhores(as)

    A meu ver;o mundo sempre teve homens malucos,que só pensam em
    destruição.Creio que tais mentes malignas,são regidas por Satanás.O a-
    tual pateta russo Vladmir Putin,é um dos doidos varridos,como o foi o psi-
    copata austríaco Adolf Hitler.

    Cordialmente

    Adriel Batista Correia de Melo

  2. O Brasil está sem rumo. Aparentemente houve influência ideológica ou capitulação das principais entidades brasileiras no programa espacial brasileiro. Obviamente nem EUA e nem Europa tinham interesse nesse projeto. Mas o pior é saber que é perfeitamente possível que tudo isso tenha sido mera incompetência interna, sucateamento do CTA, da AEB, do INPE e da indústria aeroespacial por tabela. O povo brasileiro é um sobrevivente no mar de caos e apatia da nossa elite dirigente ambidestra.

  3. É preciso que lembremos da explosão que destruiu a Base de Alcântara logo depois de descoberta pelo exército a trama de FHC ao querer entregar esta base aos estadunidenses. Daí o prejuizo foi enorme, digo até incalculavel com a morte de mais de 20 dos nossos maiores cientistas. A base teve que ser praticamente refeita para poder dá início a todo um projeto interrompido por este atentado. Já na Argentina não houve nada que a impedisse de continuar a dá vida a seu projeto.

  4. Penso que a pesquisa nesta área depende de uma decisão estratégica com a envolvencia de várias áreas públicas e privadas. A dificuldade está na falta de sintonia e decisão política distinguida de ideologia que emperra qualquer iniciativa. Nos tempos que vivemos, se os abnegados cientistas continuarem levando adiante o projeto, mesmo que se arrastando, é o que se pode contar para uma retomada em algum momento da história, com mais lucidez.

  5. Prezado Lino,

    O processo de fazer ciência dos Hermanos é digno de nota. Com recursos exíguos conseguem com objetividade resultados espantosos.

    Eles mencionam sempre o nosso desperdício e falta de objetividade em perseguir uma meta clara e tangível.

    Excelente análise como sempre

    Nelson During

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