Argentina e Brasil, hora de encerrar torneio de sucata militar

O governo argentino está negociando com a Espanha a compra de caças Mirage F1M, recentemente desativados pela Força Aérea espanhola. Segundo uma reportagem do correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Buenos Aires, Ariel Palacios, publicada em 7 de agosto, a transação envolve 20 aviões, peças e o treinamento de pilotos argentinos pelos espanhóis, a um custo de 220 milhões de dólares. As aeronaves, com 38 anos de uso, deverão substituir o que resta de aviões de combate de primeira linha na Força Aérea Argentina (FAA) – nada mais que 14 caças Dassault Mirage IIIEA e sete Douglas A-4AR Fightinghawk (este último uma versão ligeiramente melhorada dos A-4KU Skyhawk II da Marinha do Brasil), adquiridos na década de 1970. Apesar de justificada pelo comando da FAA, para permitir a manutenção de um mínimo de capacitação operacional dos seus pilotos, a operação tem sido criticada por políticos argentinos. Em sua página no Facebook, o ex-ministro da Economia Roberto Lavagna condenou o gasto de 220 milhões de dólares em aviões tão usados, advertindo para o risco de repetição de uma anterior compra de vagões ferroviários portugueses para a estatal Ferrocarriles Argentinos, que se revelaram imprestáveis.

As chamadas “compras de oportunidade” de equipamentos militares desativados pelos países mais avançados constituem uma prática corrente das Forças Armadas sul-americanas, sempre às voltas com orçamentos limitados – com exceção do Chile, que reforça o seu orçamento militar com 10% das receitas das exportações de cobre do país, efetuadas pela estatal Codelco. E, longe de serem exceções, as F.As. argentinas, em particular, têm sofrido com um descaso deliberado por parte de sucessivos governos, a partir do alinhamento “carnal” de Carlos Menem (1989-1999) com potências extra-hemisféricas com uma agenda de debilitação das instituições militares da região, e as perseguições de cunho ideológico que têm sido uma marca registrada do casal Néstor e Cristina Kirchner, nos últimos dez anos. O resultado é um virtual sucateamento das F.As. do vizinho austral, que as coloca num nível pouco superior à mera subsistência. O deputado Julio Martinez, da União Cívica Radical (UCR), afirmou que, desde 2003, 17 aviões da FAA caíram, “e o número só não é maior porque os aviões não voam por falta de combustível”. Segundo o Clarín (6/08/2013), apenas 17% das aeronaves da força se encontram em condições de voo.

No Brasil, a despeito do desenvolvimento de projetos de tecnologia de ponta, como a construção de submarinos e o avião de transporte KC-390, as restrições orçamentárias têm levado os militares a recorrer rotineiramente a tais aquisições de sucata bélica. Um exemplo recente foi a compra pelo Exército de 34 blindados antiaéreos alemães Gepard 1A2, no valor de R$ 80 milhões, adquiridos a pretexto da segurança das competições esportivas que o País sediará até 2016, bem como da visita do papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude. Anteriormente, o Exército havia adquirido 220 tanques Leopard 1A5, também alemães. Ambos os modelos já foram desativados pelos exércitos europeus nos quais operavam.

No início do ano, foi anunciado o interesse na compra de sistemas antiaéreos russos de última geração, mas até agora não houve uma decisão formal a respeito.

Por sua vez, ao mesmo tempo em que projeta e constrói submarinos de última geração, inclusive de propulsão nuclear, a MB também dá a sua contribuição para essa lamentável competição de sucata, ao insistir em manter o mais que obsoleto navio aeródromo São Paulo (o antigo Foch francês, lançado ao mar em 1960 e desativado pela Marinha francesa em 2000) e os igualmente vetustos caças Skyhawk comprados para operar nele, dos quais 12 (dos 23 comprados no Kuwait) estão sendo modernizados pela Embraer, ao custo de R$ 106 milhões. Igualmente, a força está gastando R$ 122 milhões para comprar e modernizar quatro aviões Grumman C-1A Trader (retirados de serviço em 1988 pela Marinha dos EUA), para realizar tarefas de transporte e reabastecimento no São Paulo. Considerando que a belonave, incorporada à MB em 2001, passou quase sete anos em reparos e testes e que a sua manutenção custa dezenas de milhões de reais por ano, fica difícil justificar tais dispêndios, até mesmo como treinamento. Para o País, em qualquer cenário de conflito, a posse de um porta-aviões, mesmo moderno, é um tanto questionável. No caso mais extremo, a interdição da margem ocidental do Atlântico Sul diante de uma força aeronaval moderna, o emprego de uma única belonave do gênero e seu grupo de proteção seria uma empreitada literalmente suicida. Ao contrário, uma força de submarinos de última geração, especialmente, se operar de mais de uma base e for apoiada por um sistema de vigilância que conte com pelo menos um satélite de reconhecimento, dará à MB uma capacidade inédita para cumprir tal missão.

Percebe-se, assim, que os problemas da defesa nacional não se limitam à miopia estratégica da classe política em relação às necessidades do setor, sempre um dos favoritos para os cortes orçamentários efetuados de forma recorrente pelo governo federal, para cumprir os compromissos com o sempre prioritário serviço da dívida pública. Em vários casos, ao se aferrarem a concepções sobre o emprego da força militar e a opções de equipamentos que as rápidas mudanças políticas e tecnológicas do cenário global têm colocado em questão, os planejadores militares brasileiros também têm dado a sua contribuição para um uso menos adequado dos recursos disponíveis. No caso da MB (cujo pensamento estratégico se baseia nos conceitos estabelecidos, no início do século XX, pelo almirante estadunidense Alfred T. Mahan, que era mais um ideólogo do imperialismo que um estrategista), uma utilização bem melhor para os recursos dispendidos no São Paulo e seus aviões seria a construção de uma há muito necessária segunda base no Nordeste ou Norte do País, contemplada na Estratégia Nacional de Defesa de 2008, mas ainda sem previsão para concretização.

Em lugar de investir em equipamentos obsoletos e de utilidade questionável, as F.As., tanto brasileiras como argentinas, deveriam fazer uma opção preferencial pelo estado da arte, ainda que os equipamentos sejam adquridos em menor quantidade, à espera de dias melhores, favorecidos por um amadurecimento das respectivas sociedades civis quanto às necessidades mínimas da defesa nacional. Recentemente, até mesmo a Bolívia fez isso, ao substituir os seus aviões Lockheed T-33, construídos há quase meio século, por seis jatos de treinamento avançado chineses K-8, capazes de efetuar ações de ataque leve e interdição antinarcóticos, os quais dotam os pilotos da Força Aérea Boliviana com um equipamento de ponta. A própria Argentina estuda a possibilidade de produzir sob licença o caça sino-paquistanês JF-17 Thunder, como foi informado durante o Paris Air Show 2013, em junho último – investimento bem mais vantajoso do que a compra de sucatas espanholas.

Igualmente, devem ser aproveitadas todas as oportunidades para o engajamento das indústrias nacionais e para projetos de cooperação bi ou multinacionais, a exemplo do avião de treinamento básico Unasur-I, cujo desenvolvimento foi aprovado, em maio, pelo Conselho de Defesa da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). O projeto deverá ser coordenado pela Argentina, que o propôs, com a cooperação dos países que disponham de capacidade industrial relevante, e o primeiro protótipo deverá voar em 2017. Quando entrar em produção em série, a aeronave terá condições de substituir os treinadores básicos de todas as forças aéreas sul-americanas, as quais operam modelos antigos que se aproximam do fim de suas vidas úteis ou já deveriam ter sido substituídos. Embora aparentemente modesto, trata-se de um projeto que, se bem conduzido, poderá abrir caminho para iniciativas mais ambiciosas, de maior conteúdo tecnológico, além de representar um importante fator de construção de confiança regional.

Outro interessante campo de cooperação é oferecido pelos VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados), cuja importância tende a crescer na substituição de aviões convencionais em certas missões, principalmente, de reconhecimento e ataque leve. Vários países da região têm projetos próprios de tais aeronaves e o Brasil já projeta motores para elas.

Nesse contexto, o Brasil e a Argentina, que já têm projetos conjuntos, como o jipe militar Gaúcho e a participação da Fábrica Argentina de Aviones (FAdA) no projeto KC-390, podem pensar em voos mais altos, literalmente falando, em termos de capacitação tecnológica e estratégica. Um projeto de enorme alcance seria o desenvolvimento de um satélite de reconhecimento, que poderia ter múltiplas funções militares e civis, como a vigilância das zonas de exploração econômica exclusiva de ambos os países, no Atlântico Sul. O projeto poderia, eventualmente, ser estendido a outros países da região e até mesmo fora dela, como a África do Sul, parceira do Brasil no grupo BRICS. Para as Forças Armadas dos parceiros do projeto, o acesso a um instrumento com semelhante nível de sofisticação representaria um grande salto qualitativo em suas capacidades operacionais, reduzindo a distância que as separa das suas congêneres dos países avançados.

Da mesma forma, seria relevante dar atenção à pesquisa e aplicação de novos princípios físicos nos equipamentos militares, em um processo de interação entre centros de pesquisa militares e civis, como ocorre em países mais avançados. Em março de 2012, o então ministro da Defesa da Federação Russa, Anatoly Serdyukov, anunciou que o planejamento estratégico do país inclui “o desenvolvimento de armamentos baseados em novos princípios físicos: armas de energia direta, armas geofísicas, armas de energia de ondas, armas genéticas, armas psicotrônicas etc”. O desenvolvimento de tais projetos deverá ficar a cargo de uma agência especial, como a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA, na sigla em inglês) estadunidense (RIA Novosti, 22/03/2012). Em uma escala mais modesta, o Brasil e a Argentina, em particular, dispõem de capacidades científico-tecnológicas para uma iniciativa similar, que poderia, por exemplo, dar a partida em um projeto de pesquisas baseado na chamada “energia do ponto-zero” (zero-point energy, em inglês) ou do vácuo quântico, que tem sido objeto de numerosos estudos em vários países industrializados, em iniciativas de pesquisadores isolados e, provavelmente, nos laboratórios de pesquisas sigilosas (black projects) de potências como os EUA.

Para os adeptos dos “negócios como sempre”, algumas dessas propostas podem parecer delirantes, mas nenhuma está fora do alcance das capacidades argentinas e brasileiras. No entanto, para concretizá-las, será preciso um grande esforço de arejamento de concepções e de superação de velhas inércias institucionais, para que possam, de uma vez por todas, deixar para trás esse incômodo torneio de sucatas militares.

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