Argentina: a bicicleta ficou sem rodas

Após o resgate do governo do presidente Mauricio Macri pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), ficaram bem claros os objetivos do imperialismo internacional do dinheiro, feliz expressão usada pelo papa Pio XI na encíclica Quadragesimo Anno, e seus agentes especuladores para a Argentina. Em abril, o FMI liberou os 12,50 bilhões de dólares da última parcela do empréstimo de quase 80 bilhões anunciado no início de 2019.
Não obstante, dificilmente, se concretizará a esperança de Macri e sua coalizão partidária Mudemos, para um período de tranquilidade e estabilidade econômica que persista durante o ciclo eleitoral que culminará em outubro-dezembro, com a eleição presidencial.

Um boletim da consultoria econômica INVECQ, em 25 de abril, afirma:

O risco político ou eleitoral poderia ser o diferencial que mudou o humor dos detentores da dívida local. No ano passado, mesmo nos piores momentos de instabilidade cambial, as chances de que Mauricio Macri não lograsse a reeleição eram baixas. No entanto, a deterioração do poder de compra dos salários, como resultado da aceleração inflacionária desencadeada como resultado do ajuste da taxa de câmbio, começou gradualmente a corroer a imagem do governo e, em conjunto, as intenções de votono presidente antes das eleições legislativas.
De modo que, com base em algumas pesquisas recentemente divulgadas, em um cenário de segundo turno, a ex-presidente Cristina Fernández [de Kirchner] poderia derrotar Macri. Além da veracidade ou legitimidade desse tipo de pesquisa, o certo é que o conjunto de informações disponíveis mudou nos últimos meses. A reeleição de Macri, que era indiscutível até recentemente, agora está sendo posta em dúvida.

No mesmo dia, o jornal La Nación afirmou que, segundo o Financial Times de Londres, “a Argentina está à beira de uma crise total”, já que o risco país supera os 1.000 pontos, o valor do dólar viola a faixa estabelecida pelo FMI e o risco país é um recorde na era de Macri.

A eterna bicicleta financeira 

Na Argentina, a expressão bicicleta financeira é empregada para rotular a ciranda de capitais estéreis que entra e sai do país em busca de ganhos fáceis. Como escreveu em um editorial de 2017 o jornal Ancasti, o principal periódico da província de Catamarca:

A bicicleta financeira, que tem feito estragos na economia de nosso país, em outros momentos da História – por exemplo, durante a última ditadura militar -, é um mecanismo pelo qual o capital especulativo entra no país para obter elevados retornos financeiros no curto prazo, mas se tratam de dólares que não vão para a economia real.”
O mecanismo preferido pelos especuladores, na atual conjuntura, é emprestar dinheiro ao Estado e obter em troca ganhos extraordinários, pela compra das Letras do Banco Central (Lebac). Estes títulos dão rendimentos sempre superiores a 25% anuais – no ano passado, chegaram a quase 40% -, com um dólar que se manteve estável por quase um ano e meio.

Deve-se levar em conta que esses eram os números de 2017; em 2018 e 2019, a taxa chegou a 70%, o que indica o crescimento desmesurado da especulação financeira.
Em um artigo publicado em 23 de junho de 2017, o jornal espanhol El País publicou um significativo artigo intitulado “Argentina, o paraíso financeiro onde é mais lucrativo emprestar ao Estado do que investir”. O artigo explicava assim a jogatina financeira:

De cada cinco dólares que os estrangeiros ingressaram na Argentina, este ano, quatro foram para o setor financeiro e um para o setor produtivo, segundo os balanços cambiais do Banco Central: 4 bilhões de dólares, contra 1,071 bilhão, nos primeiros cinco meses. de 2017. As altas taxas de juros que a Argentina paga para reduzir a inflação explicam o festim especulativo; a desconfiança dos investidores estrangeiros na estabilidade argentina a longo prazo justifica a seca de investimentos produtivos. A mescla significa que muito poucos assumem o risco de investir na economia real, quando é mais fácil e rápido ganhar com a bolha financeira.

Outra vez, são números de 2017, que se multiplicaram várias vezes desde então.

Quatro décadas de pedaladas neoliberais

Em outro artigo publicado no Diario de Rionegro, o principal jornal da província de mesmo nome, a economista Maria Jesusa Izaguirre proporciona vários elementos para conhecer esse processo gradual mas sistemático:

A partir da ditadura civil-militar de 1976, houve um corte na história argentina, que provocou mudanças políticas, econômicas e sociais de caráter estrutural. O plano econômico de [o ministro da Economia José Alfredo] Martinez de Hoz produziu a ruptura do processo de substituição de importações, que na Argentina havia começado em 1930 e tinha como objetivo primordial o desenvolvimento industrial do país.
A Lei das Instituições Financeiras, promulgada em 1977, propiciou o início de uma economia baseada na valorização financeira ou especulativa, que sucedeu ao modelo de economia produtiva desenvolvido até então. Seu objetivo era, fundamentalmente, limitar a interferência do Estado no sistema financeiro, permitindo que as entidades privadas atuassem livremente sobre os critérios indicativos para a concessão de créditos e a determinação das taxas de juros ativas (juros sobre depósitos a prazo) e passivas (juros de créditos e empréstimos), além de permitir a livre entrada e saída de capitais do país. (…)
O mercado de ações iniciou um período de atividade febril, não como mercado de capitais para empresas, mas alimentado pelas ações e o jogo especulativo (dinheiro para continuar fazendo mais dinheiro no menor tempo possível, comprando e vendendo ações de acordo com as mudanças nas cotações). Em pouco tempo, as ruas da cidade se viram repletas de pessoas dos mais variados níveis sociais, que se dirigiam os bancos em busca de melhores oportunidades financeiras e se aglomeravam diante dos quadros de cotações de ações, como se fosse uma final do campeonato de futebol. Ao mesmo tempo em que se desencorajavam os investimentos produtivos, fábricas fechavam e os trabalhadores se converteram em autônomos ou simples desempregados, multiplicavam-se as pequenas financeiras e as “cavernas” [cuevas no original, cambistas clandestinos – n.e.], onde se apostava forte e no escuro. O dólar entrou em nossas vidas como um negócio muito lucrativo e do qual ainda não pudemos livrar-nos, devido à desvalorização recorrente de nossa moeda. (…)

Em 2014, de acordo com ela, esta era a situação:

De um total de 723 entidades financeiras existentes em 1977, hoje temos apenas 81. Isto se explica pela redução das entidades públicas, dos bancos privados nacionais e, especialmente, das instituições não-bancárias (que passaram de 640, em 1977, para 18 hoje). Numerosas entidades financeiras públicas provinciais foram privatizadas. Das instituições financeiras (bancárias e não bancárias), as de propriedade do capital estrangeiro, 17 em 1977, hoje são 29. Dos 85 bancos de capital nacional em 1977, temos hoje 33.
Entre as dez maiores bancos privados que operam no país, seis são de propriedade estrangeira, e se considerarmos o seu volume de depósitos, ele representa nada menos que 43,5% do total de depósitos no sistema financeiro, evidenciando uma concentração acentuada no setor financeiro privado. Deste volume nas mãos dos maiores bancos, 58% estão nas mãos dos de capital estrangeiro.
A participação da intermediação financeira no PIB argentino aumentou 293% no período 2003-2014, enquanto o setor de bens de produção cresceu 165%, o setor industrial, 123%, e o agro, 149%. Segundo relatórios do Banco Central, o sistema financeiro teve nos últimos 11 anos uma rentabilidade superior à de outras entidades da região ou de economias desenvolvidas, como os Estados Unidos (32,7%). Sua atividade foi caracterizada pela expansão do crédito para consumo de curto prazo e uma proporção mínima dedicada a empréstimos para investimentos produtivos de longo prazo.

Em 1989, Carlos Saúl Menem frustrou a esperança dos argentinos, entregando-se aos braços de Washington. Como escreveu Anabella Busso, professora de Relações Internacionais na Faculdade de Ciências Políticas e Relações Internacionais da Universidade Nacional de Rosario, no livro “A relação bilateral com os Estados Unidos no governo de Carlos Menem: algumas perspectivas e fatos notáveis”:

Menem tornou-se o primeiro presidente peronista a visitar os Estados Unidos. A agenda foi muito ampla e incluiu os temas candentes do momento em todo o continente: buscar o apoio dos EUA nas negociações da Argentina com o Clube de Paris, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional; o fornecimento de equipamento militar argentino a terceiros países; a venda do avião IA-63 Pampa; a questão da energia nuclear; a ratificação do Tratado de Tlatelolco; a desativação do [projeto do míssil] Condor II; a situação política no Panamá e na América Central; a Colômbia e o tráfico de drogas; a normalização das relações com a Grã-Bretanha; a crise do Oriente Médio e o terrorismo.

De fato, a Argentina de Menem abriu mão da sua soberania tecnológica e energética. Assim, a desativação do míssil Condor II tornou-se a condição fundamental para o FMI concordar em negociar com a Argentina. Além disso, Menem privatizou a Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF), empresa emblemática e apoiadora do desenvolvimento industrial argentino desde a sua criação, em 1925.

E, para não mencionar a soberania financeira, o ciclismo financeiro tornou-se o esporte preferido da época. O endividamento para financiá-lo foi brutal e seu auge ocorreu em 2001, com dois milhões de argentinos mergulhando na pobreza, enquanto os bancos especuladores lhes levaram as suas poupanças, tudo de forma “legal”.

Roubo pela esquerda ou pela direita, o dinheiro vai para os mesmos bancos

Após 2001, graças à capacidade agropecuária e a “bonança” da soja na Argentina, o governo de Eduardo Duhalde (2002-03) pode “normalizar” o funcionamento da economia. Além do vento de cauda a favor, devido à crise de 2001, a Argentina decidiu suspender o pagamento da dívida externa.

Em 2003, Néstor Kirchner assumiu a Presidência, sendo sucedido em 2007 por sua esposa, Cristina Fernández de Kirchner, que governou até 2015. De acordo com denúncias que estão sendo investigadas, os Kirchner montaram a maior estrutura da corrupção da história argentina, de tal modo que a bonança da soja e outros benefícios “escaparam” do país para o sistema internacional de lavagem de dinheiro.

O narcotráfico e o contrabando cresceram enormemente. Rosario, a cidade natal dos astros do futebol Lionel Messi e Ángel Di María e terceira maior cidade do país, com seu importante porto fluvial, tornou-se uma praça chave para o narcotráfico. A máfia tem perturbado a vida da cidade, que registra quase um assassinato diário nos acertos de contas das quadrilhas. De Buenos Aires, a violência das favelas (Villas Miseria) se espalhou para outras cidades,  e em todas as villas quem dá as cartas é o narcotráfico.
Ao assumir a presidência, Mauricio Macri recebeu um país com o Banco Central vazio de divisas, a dívida externa havia crescido exponencialmente e os déficits comerciais e fiscais haviam aumentado de forma jamais vista. Mas, obviamente, a bicicleta financeira funcionava às maravilhas, devido à lavagem de dinheiro da corrupção, dos cassinos e do tráfico de drogas.

Infelizmente, Macri e sua equipe não “souberam” como sair da armadilha e elevaram ao topo os capitalistas financeiro, com a conseqüência de que o país está à beira de uma bancarrota de conseqüências semelhantes à de 2001, e com a “ameaça” que o clã Kirchner retorne ao poder perdido . É hora de perceber que hoje a bicicleta não funciona, porque, além de ficar sem rodas, o que está arruinada é a ciclovia!

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