Anglo-americanos em alerta: "haverá outras Ucrânias"

O princípio de soberania no qual o presidente russo Vladimir Putin tem baseado a sua atitude na crise na Ucrânia colocou em xeque a denominada “nova ordem unipolar” – leia-se neoimperialista – imposta ao mundo desde a queda do Muro de Berlim e a implosão da União Soviética.

Tal revés geopolítico começa a revelar-se com a histeria, beirando o pânico, que se manifesta entre as fileiras do poderio hegemônico anglo-americano. Um destes sinais de alarme foi emitido por um credenciado representante dos sentimentos daqueles grupos de poder, o historiador britânico Timothy Garton Ash, em um artigo publicado em vários jornais do mundo, com o sugestivo título “O putinismo e seus admiradores”, no qual deixa claro que o desfecho dos eventos ucranianos pode acelerar o desejo de “descolonização” existente no planeta. A mensagem é: se outras partes do globo começarem a se inspirar em Putin para seguir os seus próprios caminhos, o gênio poderá escapar descontrolado da garrafa.

Publicado no jornal O Estado de S. Paulo de 20 de abril, o texto de Ash começa assim: “Diz qual é a tua Ucrânia e te direi quem és. A crise ucraniana é um teste de Rorschach político não apenas para pessoas, mas também para países. O que a situação revela não é nada animador para o Ocidente. Vladimir Putin tem mais admiradores ao redor do mundo do que se imagina. (…)”

O que mais assusta Ash e seus pares é que tais admiradores não se limitam “aos governos da Venezuela e da Síria”, mas o fato de que “o homem forte da Rússia recebe o apoio tácito de algumas das potências mundiais mais importantes, a começar por China e Índia”. E acrescenta: “Um amigo meu, que acaba de regressar da Índia, observa que, com a provável vitória de Narendra Modi [candidato do Partido Bharatiya Janata às eleições de abril-maio próximos] e a ascensão do ‘capitalismo clientelista’ da Índia, amigos indianos liberais temem que a maior democracia mundial venha a cultivar uma versão própria de putinismo.”

Ele próprio admite a realidade de que pelo menos parte dos integrantes do grupo BRICS tem o potencial para aderir ao que chama “putinismo”. Em sua avaliação: “O que o Ocidente enfrenta agora é o desaparecimento de duas molas gigantescas. Uma, que tem sido comentada exaustivamente, é a mola do descontentamento da Mãe Rússia pelo fato de o seu império estar encolhendo nos últimos 25 anos. A outra é a mola do descontentamento com os séculos de dominação colonial ocidental, que assume formas diferentes nos diferentes países do BRICS e membros do G-20.”

Sua conclusão é a seguinte:

Evidentemente, eles não têm o incansável discurso monolítico da China sobre a humilhação nacional, desde as Guerras do Ópio da Grã-Bretanha. Mas, de uma maneira ou de outra, compartilham de uma profunda preocupação com a própria soberania, a resistência ao fato de americanos e europeus insistirem em dizer o que é melhor para eles e certa satisfação instintiva em ver o Tio Sam (sem falar no pequeno John Bull) sendo humilhado por esse russo agressivo. Viva o putinismo! Obviamente, esse programa não é imediato na Ucrânia, mas é outra questão escancarada pela crise da Europa Oriental. Nesse sentido geopolítico mais amplo, não devemos esquecer de que, à medida que avançarmos no século 21, haverá outras Ucrânias.

Por outro lado, entre as múltiplas variantes contrárias ao “putinismo” que circulam no mundo, uma chama a atenção. Não por acaso, um ataque cozinhado nos centros de inteligência anglo-americanos, desfechado sempre quando surgem homens de Estado que tomam decisões de governo fora do ambiente controlado das categorias permitidas pela “engenharia social” do momento – ou seja, fora dos rótulos dos lugares comuns de direita, esquerda, democracia, plurais, multiculturais e outras.

Incapazes de enquadrar Putin em tais esquemas, as salvas são apontadas contra o que alguns identificam como “neoeurasianismo”, tentativa de identificar como uma ação expansionista o programa de longo prazo do Estado russo, implementado por Putin e seu grupo político. A realidade é que a União Eurasiática, iniciada por ele em 2011, consiste na integração de esforços voltada para o pleno desenvolvimento daquela região do planeta, inclusive a criação de uma vasta rede de infraestrutura, para concretizar um potencial econômico que poderá ser um importante propulsor da recuperação econômica mundial e, por outro lado, implica em um novo sistema de relações não hegemônicas e cooperativas entre os Estados associados.

Na mesma edição do “Estadão”, o correspondente em Paris, Andrei Netto, detalha a origem do “neoeurasianismo” em uma nota intitulada “Doutrina radical norteia ação de Putin na Ucrânia”. Diz ele:

Por trás da ofensiva da Rússia sobre a Ucrânia há mais do que interesses geopolíticos e econômicos. (…) Putin estaria sendo influenciado também pelo ‘neoeurasianismo’, ideologia radical de inspiração nacionalista nascida nos anos 20 e reescrita após o desmoronamento da União Soviética. Fiel à tradição e aos valores cristãos ortodoxos, a doutrina reúne princípios da extrema direita e da extrema esquerda na luta contra seus inimigos: os EUA, a Europa, o Ocidente, o liberalismo e a globalização.

Ele acrescenta que, apesar de ser uma crença antiga, “o renascimento do eurasianismo ocorreu após a queda do Muro de Berlim, por meio do filósofo e cientista político Alexander Dugin”. Dugin é filho de um agente do KGB, criador do partido Eurásia (2002) e descrito como tendo influência tanto sobre Putin como o premier e ex-presidente Dmitri Medvedev. Por isso, afirma o jornalista, Putin “adotou o discurso da ideologia, ressaltando a ideia de ‘tradição’, cara à Igreja Ortodoxa Russa, e recusando o multiculturalismo, a homossexualidade e o que chama ‘valores tradicionais’ dos EUA”.

Entre vários especialistas franceses e ucranianos, ele registra o ataque frontal do filósofo ucraniano Constantin Sigov, da Universidade Kiev-Mohyla e militante do Movimento Euromaidan [que iniciou as manifestações que derrubaram o presidente ucraniano Viktor Yanukovich], para quem o “eurasianismo” é um perigo para o mundo: “É uma salada sem coerência interna que busca elementos do comunismo, do socialismo, do nacionalismo, do cristianismo… Putin é um louco e precisa ser parado enquanto há tempo.”

Não por coincidência, o poder anglo-americano pensa exatamente o mesmo.




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