Acordo estratégico Argentina-Rússia “sem maquiagem”

 

cristina

A recente visita da presidente argentina Cristina Kirchner a Moscou representa uma ação diplomática aberta, sem maquiagens e jogos de cena, que mostra uma importante atitude de ambos os governos frente aos desdobramentos da crise global. A visita ocorre no âmbito de uma aproximação Rússia-América do Sul, cujo somatório, apesar de se basear em iniciativas bilaterais, tende a promover uma importante sinergia para o contexto estratégico da convergência de interesses compartilhados pela Rússia e as nações do subcontinente, com vistas à criação de um novo ordenamento do poder global em que a hegemonia de um grupelho de potências ceda a vez a uma agenda cooperativa para a promoção de um esforço compartilhado de desenvolvimento.

Em Moscou, Cristina e seu colega Vladimir Putin assinaram 11 acordos de cooperação em áreas diversas, inclusive energia, ciência e tecnologia, exploração espacial, defesa e outras. Um deles prevê a concessão de uma linha de crédito de 2 bilhões de dólares para a construção da usina hidrelétrica Chihuido I (637 MW), na província de Neuquén, além da participação russa na construção do sexto reator nuclear argentino. Além disso, as estatais Gazprom e YPF assinaram um memorando de entendimento para a exploração de jazidas de gás não convencional em Neuquén, na Patagônia.

Outra iniciativa de grande relevância, destacada pelo próprio Putin, foi o estabelecimento de consultas detalhadas pelos dois governos para avaliar a possibilidade do uso das respectivas moedas nacionais no comércio bilateral. Até o momento, a Rússia tem iniciativas semelhantes com a China, Vietnã, Turquia, Irã, Índia e Cazaquistão (Sputnik News, 23/04/2015).

Em entrevista à rede RT, cujo canal em espanhol já opera na Argentina desde o ano passado, Cristina falou sobre a relevância estratégica da visita:

(…) Hoje, com o presidente Putin, assinamos essa declaração onde sustentamos o diálogo, a política, a diplomacia, o multilateralismo e a ONU [Organização das Nações Unidas] como o único caminho para suspender e fundamentalmente resolver os conflitos, não? Creio que se intenta assustar, e eu dizia outro dia na Cúpula das Américas, ninguém de senso comum pode crer que algum país da região latino-americana possa constituir uma ameaça para a primeira potência do mundo em termos militares, científicos e outros. Ademais, creio que devemos admitir um mundo de novos atores, multipolar, que tem surgido. O que acontece é que houve uma percepção de que, quando caiu a Cortina de Ferro, quando caiu o Muro de Berlim, de que a História havia acabado. Bem, a História nunca acaba, a História sempre prossegue, muda, e ainda bem que muda! E muda com novos protagonistas, novas histórias e novas realidades, e eu creio que a Rússia é um ator em nível global, bem, que não pode ser colocado de lado, e não vejo por que não podemos ter relações com ele. De fato, o segundo investidor em meu país são os Estados Unidos da América. Das 500 empresas mais importantes dos EUA, cem estão radicadas na Argentina. Realmente, colocar a Rússia como um perigo me parece absurdo. (…)

Perguntada sobre se as resistências à aproximação russa com a América do Sul poderiam estar por trás da qualificação da Venezuela como uma ameaça à segurança nacional dos EUA, feita pelo presidente Barack Obama, e as manifestações britânicas sobre uma nova ameaça argentina às Ilhas Malvinas, ou se isto seria uma mera casualidade, Cristina respondeu:

Em política não há casualidades. Em política há estratégias, geopolítica, interesses, tudo isso se mistura e, então, produz determinadas ações por parte de determinados países. Neste caso do Reino Unido, que bom!, das 17 colônias que restam no mundo após um processo de descolonização… dez continuam pertencendo ao Reino Unido, que continua com essa prática colonial. Creio que foi, mais que nada, um exercício de estratégia global de comunicação e eleitoral, pelo fato de [o premier David] Cameron estar próximo de ter eleições. Então, quis assustar as crianças como quando era pequeno: “Neném, tome a sopa, porque senão vêm os comunistas.” Isto já em um mundo totalmente superado… Eu creio que há muita gente que ficou presa nessa visão, a despeito de tudo o que declamam sobre o fim da Guerra Fria, que terminaram os enfrentamentos, que há um mundo mais global. Creio que ficaram presos numa lógica binária, uma lógica onde sempre é preciso ter um inimigo, um adversário para poder existir ou para poder dominar. Me parece que essa lógica binária de amigo-inimigo tem que acabar no mundo, porque, ademais, leva a situações francamente insustentáveis.

Sobre as oposições internas a tal reposicionamento estratégico, disse ela:

Sempre há resistências internas, mas muitas vezes também obedecem a posicionamentos eleitorais. Em outros casos, também se devem a que há gente que se manteve presa no velho mundo. No mundo em que se olhava para um único lado. E a verdade é que hoje não se pode olhar para um único lado. Não podes deixar de olhar para o Norte, obviamente, nem desconhecer o que são os Estados Unidos e o peso específico que este país tem na governança global, por assim dizer. Tampouco se pode esquecer que existe a República Popular da China, que existe a Federação Russa, que emergiu o Sudeste Asiático, que existe a Índia, e que necessitas vincular-te comercial e politicamente com todos. Que já ninguém pode reclamar o monopólio da amizade e das relações… Isso pode acontecer no campo afetivo-pessoal, mas no campo da política e dos países, creio que temos que ter relações com todos aqueles países do mundo (RT, 26/03/2014).

Comentando a visita, o diretor do Instituto da América Latina da Academia Russa de Ciências, Vladimir Davydov, disse ao Financial Times londrino que a Rússia está “atuando como um contraponto aos EUA” na região. Segundo ele, “a América Latina agora se considera mais independente. Eles querem decidir sobre os seus próprios assuntos, não apenas em economia, mas em questões de defesa e política exterior. E nós na Rússia aplaudimos isto (Financial Times, 26/04/2015)”.

Para a analista do Centro de Estudos Nueva Mayoría, Milagros López Belsué, a aproximação argentina com Pequim e Moscou segue uma estratégia de opção frente às potências ocidentais, em um momento em que a Argentina “busca refúgio no mundo emergente” (Nueva Mayoría, 21/05/2015).

Embora não integre os BRICS, a aproximação da Argentina com os dois membros de maior peso do grupo assume uma relevância especial, em um contexto no qual este procura se afirmar como um dos vetores da reordenação do poder global que está em curso. Para não poucos observadores, alguns episódios recentes que têm agitado o país, como o misterioso assassinato do promotor Alberto Nisman, podem estar vinculados a tal cenário externo, no qual as potências hegemônicas se empenham em preservar a sua posição.

Nesse cenário, a própria sobrevivência do Mercosul poderá vir a depender da convergência de interesses e agendas com o BRICS, perspectiva para a qual as elites regionais que apoiam o bloco sul-americano precisarão estar bastante atentas.

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