A Síria e a Guerra dos Boers

O conflito na Síria atinge um perigoso estágio de grande complexidade e altíssima volatilidade, em que qualquer ação dos múltiplos atores envolvidos tem potencial para se desdobrar em consequências de evolução e abrangência imprevisíveis. Neste momento, há dois fatores basilares a serem considerados. O primeiro é que o presidente Bashar al-Assad não parece mais próximo de deixar o posto do que no início da insurreição contra o seu regime, há mais de dois anos. O segundo é que as forças combatentes da chamada “oposição” já são predominantemente integradas por grupos islamitas sectários, muitos ligados à rede terrorista Al-Qaida, cuja eventual conquista de Damasco transformaria o país em um pólo de instabilidade para toda a região.

Uma demonstração de que esta pode ser, efetivamente, a intenção de certos grupos de poder em Washington, foi o ataque aéreo de Israel a instalações militares em Damasco, sob o pretexto de que o alvo teria sido um comboio que transportava armamentos sírios ao grupo libanês Hisbolá, prontamente negado pelo governo sírio. Evidentemente, nenhum observador com conhecimento mínimo dos fatos acredita que o premier Benjamin Netanyahu, com toda a sua belicosidade, ordenaria o ataque sem a anuência prévia do governo de Barack Obama, em cujo interior ocorre um intenso debate sobre a conveniência de uma intervenção militar direta no imbróglio.

Entretanto, se o objetivo era, como parece, lançar uma provocação que motivasse uma resposta militar de Assad e proporcionasse um pretexto para a opção militar, a ação falhou, já que o líder sírio não mordeu a isca. Em entrevista ao jornal libanês Al-Akhbar, reproduzida pela rede de televisão Al-Manar (controlada pelo Hisbolá), em 9 de maio, Assad disse que suas Forças Armadas teriam condições de “satisfazer o desejo dos sírios, e disparar meia dúzia de mísseis contra Israel, em reposta ao ataque israelense contra Damasco. Mas todos sabemos o quanto Israel deseja uma guerra, e que, se os sírios retaliassem, estaríamos aceitando a provocação e cometeríamos um ato de guerra, equivalente ao que fizeram os israelenses”.

Consciente de que uma reação síria seria o estopim de uma escalada no conflito, ele afirmou que “a situação internacional não admite mais uma guerra, que nem Israel nem os EUA podem suportar. Se respondêssemos, teríamos no máximo uma vingança tática. E o que queremos é vingança estratégica: abrir as portas à Resistência e converter a Síria em país da Resistência”.

O ataque israelense ocorreu às vésperas da visita de trabalho do secretário de Estado John Kerry a Moscou, para reuniões com o presidente Vladimir Putin e com seu colega russo Sergei Lavrov. Para reforçar a mão de Kerry nas conversas, na segunda-feira 6 de maio, a Comissão de Relações Exteriores do Senado estadunidense encaminhou um projeto de lei que autoriza a ajuda militar aos insurgentes sírios.

Porém, as pressões contra Moscou acabaram saindo pela culatra, motivando uma reação imediata do Kremlin. Pouco depois do ataque israelense, Putin ligou para Netanyahu, que estava em visita a Xangai, e transmitiu-lhe o recado direto de que uma repetição de tais ações teria graves consequências. E, ao mesmo tempo em que Kerry chegava em Moscou, onde se reuniria também com representantes da oposição a Putin, na embaixada dos EUA, autoridades russas invadiram os escritórios de três ONGs estrangeiras, por receber ilegalmente dinheiro estadunidense. Entre elas, estavam a Fundação Nacional para a Democracia (NED) e a Fundação George Soros, duas organizações de ponta da ofensiva anti-Putin (Asia Times Online, 9/05/2013).

Após a reunião com Lavrov, Kerry disse à imprensa que os dois lados haviam chegado a um entendimento para organizar uma conferência internacional, até o final de maio, com vistas a encontrar uma solução política para a crise síria, com base no plano de transição negociado em Genebra, no ano passado. De forma sintomática, ele não fez qualquer menção à exigência da saída de Assad, que Washington considera condição sine qua non para o desfecho da crise.

Nos EUA, onde se trava uma virulenta disputa no interior do Establishment, em torno da intervenção militar, até mesmo veteranos da Guerra Fria, como o ex-conselheiro de Segurança Nacional de Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, advertem para os altos riscos de uma escalada militar. Em um artigo publicado na revista Time de 8 de maio, ele afirmou sem rodeios que uma intervenção na Síria apenas tornaria pior a situação:

(…) Um envolvimento estadunidense, simplesmente, mobilizaria os elementos mais extremos daquelas facções beligerantes contra os EUA e colocaria o perigo de que o conflito se espalhasse pela vizinhança, ateando fogo na Jordânia, Iraque e Líbano… Um confronto regional mais amplo poderia colocar os EUA e o Irã em conflito direto, uma empreitada militar potencialmente grande para os EUA. Uma confrontação EUA-Irã ligada à crise síria poderia expandir a área de conflito até mesmo ao Afeganistão. A Rússia se beneficiaria do fato de os EUA se atolarem, novamente, no Oriente Médio. A China se ressentiria da desestabilização estadunidense na região, porque Pequim necessita de acesso estável à energia do Oriente Médio.

As cautelosas palavras de Brzezinski parecem sugerir que as consequências de uma nova aventura militar poderiam ser fatais para a postura hegemônica de Washington.

De fato, se conhecessem melhor a História, os pregoeiros do belicismo que pululam na caipital estadunidense poderiam aprender algo com o ponto de inflexão que a Guerra dos Boers (1899-1902) representou para a capacidade de sustentação militar do Império Britânico, a despeito da vitória britânica no campo de batalha. Um século depois, uma intervenção militar direta dos EUA e seus aliados no conflito na Síria poderá representar um marco análogo para as pretensões hegemônicas do bloco encabeçado por Washington.

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