A importância de Vernadski para o século XXI

A quinta edição do Fórum Econômico de Astana, realizada na capital do Cazaquistão, entre 21 e 25 de maio, dedicou uma sessão especial para discutir a importância da obra e das ideias do grande cientista russo Vladimir Vernadski, para o enfoque correto dos problemas ambientais e energéticos da Humanidade, no século XXI. Denominado “Leituras Vernadski” e promovido pelas academias de ciências do Cazaquistão e da Rússia, o seminário reuniu cientistas russos, cazaques e japoneses, motivados pela proposta de utilizar os princípios da Biogeoquímica, disciplina criada por Vernadski, para estabelecer bases verdadeiramente científicas para o desenvolvimento sustentado.

O Fórum de Astana não tem nem de longe o apelo e a publicidade do seu homônimo de Davos, que há mais de três décadas tem sido o símbolo da “globalização” da economia mundial. Porém, sob o tema geral “As transformações econômicas globais: desafios e perspectivas”, o evento reuniu mais de 8 mil pessoas, sendo 2 mil delegados de 92 países, entre os quais políticos, empresários, cientistas, acadêmicos, jornalistas e especialistas de diversas áreas, para debater sobre a necessidade de novos marcos de referência para a reconstrução da civilização global, abalada pela crise econômico-financeira.

A iniciativa de se revisitar Vernadski, cujo 150º. de nascimento será celebrado em 2013, é das mais oportunas, no âmbito da necessidade de se trocar o enfoque ideológico e pouco científico que tem sido aplicado às questões ambientais, em geral, por uma abordagem verdadeiramente científica para o entendimento das interações humanas com o mundo “natural”. A obra de Vernadski é fundamental para este esforço.

Pouco conhecido em nossos dias, Vladimir Ivanovich Vernadski (1863-1945) foi um dos gigantes da Ciência na primeira metade do século XX. Influenciado por luminares como Alexander von Humboldt, Louis Pasteur, Bernhard Riemann e seu compatriota e mestre V.V. Dokuchayev, ele foi o primeiro a estabelecer em termos qualitativos e quantitativos os fluxos energéticos e as migrações de elementos químicos proporcionados pelos seres vivos na biosfera. Com a aceleração desses “fluxos biogênicos” ao longo do tempo geológico, ele considerava que os seres vivos têm se transformado gradativamente nos maiores agentes geológicos em ação no planeta.

Embora não tenha sido o criador do termo biosfera (já usado no final do século XIX pelo geólogo austríaco Eduard Suess), Vernadski foi o primeiro a conceituá-lo cientificamente como a região do planeta diretamente influenciada pela matéria viva, compreendendo a atmosfera até uma altitude de 30 km, toda a hidrosfera e a crosta terrestre até uma profundidade de cerca de 3 km (atualmente, microrganismos já foram encontrados, tanto a altitudes como a profundidades superiores). Igualmente, ele determinou a massa da biosfera e a sua distribuição espacial, bem como os fluxos de energia cósmica (principalmente solar) e de elementos químicos absorvidos e liberados pela matéria viva no meio físico, exercendo nele uma poderosa ação transformadora.

Tais conceitos foram apresentados em dois livros fundamentais: A geoquímica, publicado em 1924, e A biosfera, dois anos depois. Desafortunadamente, por não contar com as graças do regime soviético, seu trabalho ficou obscurecido durante décadas e apenas a partir da década de 1970 recomeçou a ser objeto de interesse, inclusive no exterior, mas grande parte dele ainda permanece inédito (até hoje, nenhuma obra sua foi traduzida para o português). Suas principais conclusões podem ser assim sumarizadas:

1) Ao longo da história biológico-geológica da Terra, tem aumentado a energia livre total da matéria viva da biosfera (a sua capacidade de exercer trabalho sobre o meio físico).

2) Como resultado desse aumento de energia livre, a matéria viva se tornou a mais poderosa força geológica na biosfera, a despeito de representar uma fração quase irrisória da massa de matéria inerte direta ou indiretamente afetada por ela.

3) No decorrer da evolução, a matéria viva tem expandido constantemente a extensão da biosfera a todos os ambientes do planeta, inclusive a atmosfera, os oceanos e a própria crosta terrestre.

4) Essa capacidade de desenvolvimento evolutivo, caracterizada pelo aumento contínuo da energia livre na biosfera, é uma peculiaridade dos seres vivos, não se encontrando entre a matéria inerte.

Como uma sequência natural desse trabalho, Vernadski desenvolveu o conceito de noosfera, ou esfera da razão – uma nova etapa do desenvolvimento da biosfera, caracterizada pela emergência do homem e das sociedades construídas por ele. Com a noosfera, a razão criativa humana se torna cada vez mais a força orientadora e dominante na expansão e no desenvolvimento da biosfera, inclusive na sua eventual extensão para fora da Terra. Assim como havia ocorrido com a caracterização da biosfera, Vernadski não criou o termo noosfera (introduzido pelos franceses Edouard le Roy e Teilhard de Chardin, eles próprios influenciados por uma série de conferências proferidas por Vernadski em Paris, no início da década de 1920), mas emprestou a ele uma conceituação científica e profunda.

Para Vernadski, o advento da noosfera representa uma seqüência lógica da evolução da biosfera. Segundo ele,

o processo evolucionário adquire um significado geológico especial, porque ele criou uma nova força geológica: o pensamento científico da humanidade social. Hoje, presenciamos a sua entrada manifesta na história geológica do nosso planeta. Durante os milênios recentes, observa-se um intenso crescimento da influência da matéria viva de uma espécie (a humanidade civilizada) sobre as mudanças das condições da biosfera. Sob a ação do pensamento científico e do trabalho humano, a biosfera passa a um novo estado – a noosfera.

Ao contrário da imagem pessimista que considera o ser humano como o produto acidental de um processo evolucionário baseado em uma seqüência de eventos casuais, Vernadski afirma enfaticamente que “ele é uma manifestação inevitável de um grande processo natural que tem persistido de forma regular por pelo menos dois bilhões de anos”. Portanto, assinala que

a “explosão” de pensamento científico no século XX foi preparada por toda a história da biosfera e tem as mais profundas raízes na sua estrutura. Ela não pode cessar ou reverter. Ela apenas pode tornar-se mais lenta em seu ritmo. A noosfera, ou seja, a biosfera retrabalhada pelo pensamento científico e preparada pelo processo que ocorreu durante milhões, talvez bilhões de anos e que criou o Homo sapiens faber, não é um fenômeno geológico efêmero e transitório. Os processos preparados durante bilhões de anos não podem ser transitórios, não podem cessar. Ocorre que a biosfera se transformará (de um jeito ou de outro, cedo ou tarde) na noosfera, ou seja, na história dos povos que a povoam os eventos ocorrerão necessariamente para essa transformação e não se oporão a ela.

Embora não tenha tido tempo de desenvolver suas concepções sobre a noosfera com o mesmo rigor matemático aplicado ao estudo da biosfera, Vernadski listou as condições que considerava fundamentais para a consolidação da nova etapa evolutiva do planeta:

1) A ocupação de todo o planeta pela espécie humana.

2) Uma drástica transformação dos meios de comunicação e intercâmbio entre os países.

3) Uma intensificação das relações, inclusive políticas, entre todos os países do planeta.

4) A prevalência das atividades geológicas de origem antropogênica sobre os demais processos biológicos que ocorrem na biosfera.

5) A expansão da biosfera e das atividades humanas ao espaço cósmico.

6) A exploração de novas e poderosas fontes de energia (inclusive a nuclear, à qual atribuía grandes perspectivas).

7) A igualdade dos povos de todas as raças e religiões.

8) Um aumento do papel dos indivíduos na resolução dos problemas de política interna e externa dos países (certamente, referindo-se à cidadania em geral).

9) A liberdade do pensamento e das pesquisas científicas, sem restrições religiosas, filosóficas ou políticas, e a formação de condições favoráveis a um pensamento científico livre no sistema público e social.

10) O progresso do bem-estar dos indivíduos, aí incluída a possibilidade real de superação das vicissitudes da desnutrição, fome e pobreza, além da redução do impacto das doenças.

11) Uma transformação racional da natureza original da Terra, para torná-la capaz de satisfazer a todas as necessidades materiais, estéticas e espirituais de uma humanidade que cresce rapidamente.

12) A eliminação das guerras da vida da sociedade.

A primazia hierárquica atribuída por Vernadski ao homem, na ordem natural, contrasta com a pobreza conceitual do enfoque “biocêntrico” do ambientalismo e, ao mesmo tempo, evidencia a absoluta inadequação deste último para o enfrentamento dos problemas reais com que se defronta a Humanidade.

Nessa concepção, mais condizente com a natureza humana, empreendimentos como os grandes projetos de infraestrutura, antes de serem vistos como fontes de impactos ambientais, devem ser considerados fatores cruciais para o desenvolvimento da biosfera-noosfera a níveis mais altos de organização – e, consequentemente, de bem-estar e progresso para a sociedade. No mundo atual, assolado por uma crise civilizatória que ameaça interromper e, até mesmo, reverter esse processo evolutivo, tais empreendimentos são fundamentais para proporcionar uma elevação dos níveis de organização e desenvolvimento das regiões mais atrasadas do planeta, situadas na Ásia, África e Ibero-América-Caribe, aproximando-os daqueles já atingidos pela maior parte da Europa, América do Norte e países asiáticos como o Japão e a Coreia do Sul.

Por tudo isso, é mais que bem-vinda qualquer manifestação de interesse renovado pelo trabalho de Vernadski.

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