A histórica peregrinação do Papa ao Oriente Médio

Shimon Peres (esquerda), Francisco e Mahmoud Abbas (direita)

Os três dias da peregrinação do papa Francisco no Oriente Médio, visitando Amã, Belém e Jerusalém, foram marcados pelo extraordinário esforço do Pontífice para encontrar uma saída para uma situação que parece estar em um impasse fatal. Durante uma missa em Belém, local de nascimento de Jesus Cristo, Francisco convidou o presidente israelense Shimon Peres (que, com quase 90 anos, encerrará o seu mandato em julho) e o presidente da Palestina, Mahmoud Abbas, para celebrarem juntos uma missa pela paz em Roma. O gesto foi tão avassalador que os dois políticos não tiveram alternativa senão aceitar o convite e a missa foi marcada para 8 de junho. Registre-se que, há semanas, não havia contato direto entre eles, após o Secretário de Estados dos EUA, John Kerry, ter declarado que a sua missão de paz no Oriente Médio havia sido “um fracasso”.

Em uma situação aparentemente promissora, o Pontífice tenta dar impulso ao processo de paz, que está clinicamente morto, ao usar o poder espiritual da oração. De forma diversa dos cínicos e dos fatalistas na política, ele parece ser um dos pouco líderes de estatura no mundo que demonstram otimismo.

A mensagem transmitida por ele durante a viagem, tanto às partes em conflito como ao mundo, é a de que não há paz sem perdão e o reconhecimento dos próprios pecados, além de que a violência não pode ser derrotada pela violência. Assim, foi de grande importância simbólica a sua parada não prevista diante do Muro da Cisjordânia, erigido pelo governo israelense com a justificativa de proteger o seu povo da violência palestina – e visto pelos palestinos como um “muro de prisão”.

Durante a sua primeira parada, em Amã, Jordânia, Francisco foi recebido de forma muito cordial pelo rei Abdullah e sua equipe diplomática. O rei, que há muitos anos está engajado em diversos esforços para promover o diálogo entre muçulmanos e cristãos, ouviu agradecimentos do Pontífice, por ter generosamente dado abrigo a milhares de refugiados, incluindo 600 mil vindos da Síria, além dos que fugiram da Palestina e do Iraque. Na ocasião, o papa advertiu que os vizinhos da Síria não podem deixá-la sozinha com a sua crise e clamou que o fim do sangrento conflito que castiga o país possa ser alcançado de forma pacífica.

Em uma missa realizada no Estádio Internacional de Amã, em 24 de maio, o papa destacou:

A paz não pode ser comprada: ela é um dom que deve ser buscado pacientemente e construído “artesanalmente”, por meio de ações, grandes e pequenas, a cada dia de nossas vidas. O caminho da paz é fortalecido se nos conscientizamos de que todos nós temos a mesma origem e somos membros de uma única família humana; se nunca esquecermos que nós temos o mesmo Pai divino, e que somos todos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança.

Igualmente emotiva foi a forma como ele se dirigiu a um grupo de crianças palestinas refugiadas, ocasião em que destacou a importância das crianças para a sociedade. Durante a missa na Praça da Manjedoura, em Belém, da qual participaram pessoas vindas da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, o Pontífice falou sobre a infância de Jesus, o seu nascimento em Belém, e destacou o sofrimento das crianças ao redor do globo:

Hoje, também as crianças são um símbolo. Elas são um sinal de esperança, um sinal de vida, mas também um sinal de diagnóstico que indica a saúde das famílias, da sociedade e de todo o mundo. Onde as crianças são aceitas, amadas, cuidadas e protegidas, as famílias são saudáveis. A sociedade ali é mais saudável e o mundo, mais humano. As crianças são um sinal para a humanidade.

Dois Estados para Palestina e Israel

A busca pela paz foi o tema do discurso do Pontífice diante do palestino Abbas. Em sua profunda apreciação do líder palestino e em seu reconhecimento da imensa tragédia sofrida todos os dias pelo seu povo, Francisco destacou que

é preciso haver esforços renovados voltados para a criação de condições para uma paz estável baseada na justiça, no reconhecimento dos direitos de cada indivíduo; no encontro da coragem para ser generoso e criativo no serviço do Bem Comum; a coragem de forjar uma paz que represente a conscientização de todos sobre o direito aos dois Estados de existirem e viver em paz e em segurança, com fronteiras internacionalmente reconhecidas. (…) A paz irá trazer incontáveis benefícios para os povos da região e para o mundo como um todo. E para isto ela deve ser perseguida com determinação, mesmo se cada lado tiver que fazer sacrifícios.

No terceiro dia da visita, em Jerusalém, o Pontífice fez visitas oficiais ao Muro das Lamentações e ao Memorial do Holocausto, uma visita não planejada ao Memorial das Vítimas de Terrorismo em Israel e reuniu-se com um grupo de rabinos e com o Grande Mufti de Jerusalém. Em seu discurso às lideranças políticas israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e Shimon Peres, pediu àqueles em posições de responsabilidade que “não deixem uma única pedra intocada, em sua busca por soluções igualitárias para os problemas complexos da atualidade, de modo a permitir que israelenses e palestinos vivam em paz”.

E ainda afirmou:

Eu renovo o apelo feito pelo Papa Bento XVI: o direito do Estado de Israel de existir e de florescer em paz e em segurança, com as suas fronteiras sendo universalmente reconhecidas, ao mesmo tempo em que também seja reconhecido o direito do povo palestino a um território soberano e aos seus direitos à vida com dignidade, e com liberdade de movimento. A solução dos dois Estados deve se tornar realidade, e não permanecer apenas como um sonho.

Um importante sinal pela paz é o esforço pela intensificação do diálogo entre cristãos, muçulmanos e judeus. No Muro das Lamentações, o papa, em outro gesto simbólico, abraçou o seu grande amigo dos tempos de Buenos Aires, rabino Abraha Skorka, e o acadêmico islâmico e ex-presidente do Centro Islâmico da Argentina, Omar Abboud, em uma foto que correu mundo e está sendo chamada “O abraço das três religiões”. A mesma motivação, de restaurar a comunhão entre Roma e a Igreja Ortodoxa, para superar uma divisão de mais de mil anos, esteve no encontro com o patriarca ecumênico Bartolomeu I, com quem rezou uma oração conjunta, na Basílica do Santo Sepulcro.

A celebração ecumênica foi uma celebração do 50°. aniversário do histórico encontro entre o papa Paulo VI e o patriarca ecumênico Athenagoras, que, em 1964, lançou as bases para um diálogo abrangente, pela primeira vez na História, desde o cisma das Igrejas, em 1054. Em uma declaração conjunta, Francisco e Bartolomeu I ressaltaram a importância de se “defender a dignidade de toda a pessoa humana, em todas as fases da vida, e da santidade da família fundada no matrimônio; da promoção da paz e do bem comum; e de responder aos sofrimentos que continuam a afligir o nosso mundo. Reconhecemos que o analfabetismo, a pobreza, a fome, e a distribuição desigual de recursos devem ser constantemente abordadas”.




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