A história (ainda) secreta da II Guerra Mundial

O artigo do presidente Vladimir Putin sobre as origens e desdobramentos da II Guerra Mundial é uma peça de importância verdadeiramente histórica. Não é todo dia que um chefe de Estado de uma potência global recorre a documentos de arquivos até então inéditos para fundamentar um texto que lança luz sobre um período fundamental da História Contemporânea, cuja relevância para a atualidade se mostra na polêmica criada pelas cínicas tentativas atuais de revisionismo por parte de certas lideranças dos EUA e da Europa.

Evidentemente, muito já foi escrito sobre as batalhas e os acontecimentos políticos que ensejaram e definiram o conflito. Porém, as manobras e negociações políticas de bastidores, operações de inteligência, projetos secretos e outras iniciativas, que não apenas decidiram o desfecho de numerosas batalhas, mas, principalmente, configuraram o cenário do pós-guerra até os dias de hoje, apenas começaram a vir a público nas últimas décadas, com a abertura – irritantemente lenta – dos arquivos que os países beligerantes, cada qual por seus motivos, mantiveram cerrados por um longo tempo desde 1945, muitos dos quais ainda inacessíveis. Nos EUA e no Reino Unido, ainda há arquivos interditados por 100 anos – ou seja, até 2045!

Em especial, nos países ocidentais, a visão prevalecente da guerra tem sido a forjada pelas potências vitoriosas (principalmente, EUA e Reino Unido), com o poderoso reforço da indústria cinematográfica de Hollywood. Por isso, não admira que, nesses países, poucos tenham se indignado diante da infame resolução aprovada pelo Parlamento Europeu por instâncias da Polônia, em setembro último, afirmando que tanto a Alemanha nazista como a União Soviética teriam tido responsabilidades compartilhadas na deflagração do conflito. Ou de uma falácia como a da Casa Branca sobre a “exclusividade” anglo-americana na derrota do nazismo, divulgada nas suas redes sociais, em maio último, no 75º aniversário do fim da guerra na Europa, omitindo o papel crucial da URSS.

E não se trata apenas da preservação de uma “imagem” histórica. O que está em jogo é a possibilidade de revelação dos fatos reais que pintam um quadro cheio de tonalidades de cinza, em lugar da visão simplista e maniqueísta de um confronto entre a “civilização” e a “barbárie”. Fatos como: os acordos secretos pré-guerra (esboçados por Putin); as transações entre empresas estadunidenses e britânicas e suas contrapartes alemãs, que prosseguiram durante boa parte da guerra; as negociações secretas entre a inteligência estadunidense e representantes da cúpula nazista, visando assegurar a continuidade das operações de empresas alemãs no exterior, a fuga e relocação de lideranças nazistas e parte considerável do butim amealhado nos países ocupados (em especial, para a América Latina e os próprios EUA); a transferência de tecnologias, materiais e cientistas alemães aos EUA (Operação Clipe de Papel); o verdadeiro avanço do programa nuclear militar alemão, do qual os EUA se beneficiaram sobremaneira para o seu próprio Projeto Manhattan; a “reciclagem” de lideranças nazistas e japonesas em “democratas”, no pós-guerra imediato, visando à “contenção” do comunismo, na recém-iniciada Guerra Fria; e muitos outros, até agora, apenas esboçados por pesquisadores inquisitivos e inconformistas, não raro, a um grande custo pessoal.

Assim sendo, em favor da História como um dos pilares do avanço civilizatório, só podemos saudar a proposição de Putin: “Instamos todos os Estados a acelerar o processo de tornar públicos os seus arquivos e publicar documentos anteriormente desconhecidos sobre a guerra e o período pré-guerra – da maneira como a Rússia tem feito em anos recentes. Neste contexto, estamos prontos para uma ampla cooperação e projetos conjuntos de pesquisa envolvendo historiadores.”

A ver se o repto será aceito.

P.S.: O artigo do presidente Putin está disponível em inglês no sítio do Kremlin.

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