A crucial questão dos juros

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André Araújo

Artigo originalmente publicado no sítio Jornal GGN, em 18 de fevereiro de 2016.

Comentei ontem o programa Roda Viva da TV Cultura, com cinco economistas de primeira linha. Amir Khair chamou muito a atenção para a crítica situação da taxa de juros no Brasil, completamente destoante do resto do planeta. Outros, como Marcos Lisboa, rebateram dizendo que quando, por “voluntarismo” da Presidente Dilma, a taxa foi baixada para 7,25%, a inflação subiu e teve que ser novamente aumentada.

É um completo erro de avaliação. A taxa foi rebaixada e, A PRETEXTO DE QUE A INFLAÇÃO ESTAVA SUBINDO, se iniciou um movimento ininterrupto de alta, até chegar aos atuais 14,25%.  Esta subida sem parar da taxa NÃO FEZ BAIXAR A INFLAÇÃO, que era o pretexto quando a taxa estava em 7,25%. Não baixou a inflação MAS CAUSOU A RECESSÃO . O erro não foi baixar a taxa a 7,25%, o erro foi não construir força política para manter essa taxa baixa.

O Governo foi vencido pelas forças do mercado financeiro, representadas no Banco Central. Não houve massa crítica de poder no Governo para segurar a taxa em 7,25% MESMO QUE A INFLAÇÃO SUBISSE, SE SUBISSE. O erro foi aceitar a premissa ortodoxa, hoje completamente desacreditada, de que SÓ JUROS ALTOS COMBATEM A INFLAÇÃO.

Como disse Amir Khair, a TAXA REAL de juros do sistema bancário para seus clientes tomadores é ONZE VEZES A TAXA DE INFLAÇÃO, não há no mundo um paralelo com essa loucura. Marcos Lisboa não deu uma explicação clara e sólida do porque dessa taxa absurda. Todos os “economistas de mercado” dão desculpas esfarrapadas sobre o porquê dessas taxas elevadíssimas, ninguém dá uma resposta consistente com alguma lógica de política econômica.

A real razão da elevação da taxa balizadora SELIC é que é parte central do mercado financeiro a captação de dólares a taxas quase negativas e sua aplicação no mercado de juros no Brasil. Para garantir que o jogo de arbitragem de taxas sempre acerte há necessidade de que a taxa de câmbio fique estável durante o tempo da arbitragem.

Exemplo: Um banco traz 100 milhões de dólares  pagando 2%, aplicado aqui a 14%, há uma margem de 12%. Quer dizer, o banco ganha 12 milhões de dólares em um ano. Mas se o dólar subir estraga o negócio. Então essa necessidade obriga o Banco Central a vender swaps cambiais para garantir o especulador do carry trade (nome desse negócio).

Esses swaps cambiais CUSTARAM AO BC QUASE 100 BILHÕES DE REAIS EM 2015, operação feita para garantir quem faz o jogo do carry trade. Ora, o Brasil com 370 bilhões de dólares de reserva NÃO PRECISA DE DINHEIRO ESPECULATIVO para fechar contas do balanço de pagamentos. Por que então faz esse jogo suicida de vender swaps cambiais que custam em um ano muito mais do que o fatídico “ajuste fiscal”? Esse custo dos swaps é DEZ vezes o que se pretende arrecadar com a CPMF.

Foi para garantir esse jogo que um dos diretores do BC votou no último COPOM pela alta da SELIC, exatamente o diretor importado do centro financeiro do Hemisfério Norte (quem será que foi o responsável por essa importação injustificável de um nome que não agrega nada ao BC?).

A questão dos juros é CENTRAL no processo de recuperação do crescimento, será preciso por o pé na mesa para enfrentar a forças pró-juros altos que dominam o BC, o Boletim Focus, a Rua Dias Ferreira e a Av. Faria Lima. Quem vai encarar?

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