14 de setembro: sauditas caem do camelo e arrastam “governo mundial”

Nas próximas décadas, quando os historiadores se debruçarem sobre os acontecimentos da atual inflexão na ordem de poder mundial, é possível que o 14 de setembro de 2019 seja visto como um dos marcos determinantes desse processo de mudança de época. De fato, não é todo dia que se observa um acontecimento tão carregado de repercussões cruciais como o ataque dos insurgentes houthis iemenitas a duas das maiores refinarias da Arábia Saudita.

Nas primeiras horas da manhã daquele sábado, um enxame de aeronaves não tripuladas “suicidas” atingiu duas refinarias dos complexos de Abqaiq e Khurais, situadas, respectivamente, a cerca de 300 km e 150 km da capital Riad. Em Abqaiq, a maior refinaria do mundo, os danos foram de tal ordem que resultaram em uma redução imediata de 50% nas exportações de petróleo sauditas (cerca de 7% dos fluxos mundiais), e os reparos levarão semanas, se não meses. A precisão e a eficácia do ataque surpreenderam analistas e especialistas de todo o mundo. Embora os houthis já tivessem desfechado numerosos ataques com drones, mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos, contra alvos sauditas e dos Emirados Árabes Unidos, na guerra iniciada unilateralmente por Riad em 2015, a dinâmica da operação e os estragos causados denotam um nível de sofisticação e capacidades militares capaz de impor danos proibitivos ao reino saudita, caso este insista em prolongar a campanha contra o Iêmen, sem falar nas repercussões potenciais para a economia mundial.

No mesmo dia, um porta-voz dos houthis afirmou que o ataque fora desfechado por drones disparados do território iemenita, a mais de 1.000 quilômetros dos seus alvos. Mais tarde, o governo dos EUA afirmou que pelo menos 17 a 19 aeronaves haviam sido usadas e responsabilizou o Irã pelo ataque, linha prontamente adotada pelos sauditas, ambos argumentando que os houthis não teriam os meios para um ataque do gênero. Posteriormente, os sauditas apresentaram fragmentos de um míssil de cruzeiro supostamente iraniano, como evidência “incontestável” da autoria do ataque. Ocorre que os fragmentos mostrados em uma conferência de imprensa em Riad eram de um Quds-1, produzido pelos houthis a partir de um modelo iraniano e já utilizado em ataques anteriores contra alvos sauditas, mas situados a distâncias bem menores (o alcance estimado para o míssil era da ordem de 150-200 km e, se foi efetivamente usado no ataque, isto demonstra que o seu alcance foi consideravelmente aumentado). Por outro lado, sabidamente, os houthis desenvolveram vários modelos de drones, alguns com alcance suficiente para atingir as refinarias a partir do território iemenita, como os Sammad-3 exibidos em uma exposição na capital Sana, em julho último (ver abaixo).

Exposição do arsenal de drones e mísseis dos houthis (fonte: SouthFront).

 

Além do alcance, a sofisticação do ataque ficou demonstrada na escolha criteriosa dos alvos e na precisão com que foram atingidos. As fotografias divulgadas pelo governo estadunidense e pela empresa DigitalGlobe mostram que os drones/mísseis atingiram unidades-chave da refinaria de Abiqaiq, responsáveis pelo processamento inicial do petróleo cru para reduzir a sua volatilidade e permitir que seja embarcado em petroleiros com menores riscos de incêndio. Ou seja, os planejadores do ataque foram assessorados por profissionais com profundo conhecimento técnico das instalações, possivelmente, de dentro da própria Arábia Saudita, como sugeriu um porta-voz houthi (os houthis seguem o zaidismo, uma variante xiita do Islã, e os sauditas sunitas são notórios opressores da sua minoria xiita).

Foto divulgada pela DigitalGlobe, mostrando os precisos impactos nos tanques da refinaria de Abqaiq.

As fotos mostram também que os impactos ocorreram nas faces voltadas para o oeste, demonstrando que os drones/mísseis vieram desta direção, evitando os sistemas de defesa antiaérea sauditas, orientados para o leste, direção do Irã, inimigo jurado da Casa de Saud.

Como a maior parte do equipamento militar saudita é de origem estadunidense, Washington ficou em uma saia justa para explicar por que a defesa antiaérea não pode evitar o ataque. O secretário de Estado Mike Pompeo, que voou às pressas para Riad, para endossar a linha “Irã culpado”, pode apenas dizer que “sistemas de defesa falham o tempo todo”.

E Pompeo & cia. ainda tiveram que engolir os gracejos dos presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e do Irã, Hassan Rouhani, reunidos em Ankara com o turco Recep Erdogan, para discutir o conflito na Síria. Em uma entrevista coletiva, além de citar o Alcorão, segundo o qual qualquer violência é ilegítima se não for em autodefesa, Putin disse que os sauditas estariam melhor protegidos com sistemas antiaéreos russos, como o S-300 ou S-400, cabendo a Rouhani provocar gargalhadas conjuntas, ao perguntar qual sistema seria mais adequado.

Em realidade, a eficiência russa de quase 100% na neutralização dos numerosos ataques de drones desfechados por jihadistas contra as bases russas de Tartus e Hmeymin, na Síria, não se deve especificamente a nenhum dos dois sistemas, mas a um sistema escalonado que inclui a defesa de ponto, com mísseis de longo, médio e curto alcance (como o Pantsir-S1) e canhões de tiro rápido, além de contramedidas eletrônicas capazes de desorientar ou até mesmo capturar os drones.

Por outro lado, apesar das pressões dos belicistas que sitiam o seu governo, o presidente Donald Trump não parece disposto a qualquer ação militar contra o Irã, sendo secundado pelo próprio Estado-Maior Conjunto – que deve estar levando a sério a anunciada intenção de Teerã de retaliar a qualquer ataque. E é de conhecimento geral que os iranianos dispõem de mísseis e outros armamentos em número e sofisticação bem maiores que os houthis.

O ataque representa um virtual xeque-mate para a agenda do regente de fato saudita Mohammed bin Salman (mais conhecido como MbS), que pretendia utilizar a campanha militar contra o Iêmen para consolidar a posição do reino como a grande potência do Golfo Pérsico, em uma aliança com os EUA e Israel contra o Irã como opositor principal. Iniciada em março de 2015, a campanha já resultou na morte de mais de 90 mil iemenitas, a grande maioria civis em ataques aéreos contra cidades abertas, além de o bloqueio naval contra o país, o mais pobre do mundo árabe, ter causado uma crise humanitária considerada pelas Nações Unidas como a mais séria das últimas décadas, ameaçando milhões de pessoas com a escassez de alimentos e medicamentos.

No entanto, apesar de dispor do terceiro maior orçamento militar do planeta, atrás apenas dos EUA e da China (83 bilhões de dólares em 2019), com uma força aérea equipada com centenas de caças Boeing F-15 e Eurofighter Typhoon, e mísseis e bombas de última geração fornecidos pelos EUA, Reino Unido e França, os sauditas se mostraram incapazes de dobrar as milícias houthis. Estas, por sua vez, demonstraram uma grande eficiência na guerra assimétrica que se viram forçadas a travar, aproveitando ao máximo a assistência técnica proporcionada pelo Irã e pelo Hizbollah libanês, para o desenvolvimento de uma tecnologia autóctone de mísseis e drones. O resultado é uma força aérea não convencional e várias ordens de grandeza menos custosa, mas capaz de infligir danos proibitivos ao inimigo – algo a que os estados-maiores de todo o mundo devem estar prestando a devida atenção.

Outro projeto favorito de MbS, a oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da petroleira estatal Aramco, pode ter sofrido um forte abalo, pois, segundo especialistas, a avaliação inicial da empresa estaria na ordem de 2 trilhões de dólares, mas a manifesta incapacidade saudita para proteger as suas instalações já teria derrubado o seu valor de mercado para a casa de 300 bilhões de dólares.

Com isso, MbS e seus aliados em Washington devem estar, neste momento, buscando uma “saída honrosa” para o impasse, que só pode resultar em negociações com os houthis, pois qualquer intenção de prosseguir com a guerra será potencialmente suicida para Riad, com grande risco para a própria hegemonia da família al-Saud.

Igualmente, tanto os EUA como Israel devem colocar as barbas de molho, com a demonstração da eficiência militar dos drones e mísseis, que tanto o Irã como o Hizbollah têm em quantidade e qualidade suficiente para funcionar como eficientes fatores de deterrência.

Aliás, a demonstração da eficiência de sistemas ofensivos com tais níveis de custo/benefício representa uma séria ameaça existencial para o emprego dos meios militares como instrumento favorecido de relações internacionais, especialidade dos EUA e alguns de seus aliados preferenciais. Na prática, quase qualquer país, por menor e mais pobre que seja, poderá dispor de uma eficiente força aérea de baixo custo e com capacidade dissuasória contra eventuais candidatos a inimigos.

A propósito, o Brasil também deveria ficar bastante atento a esses desdobramentos, pois a vulnerabilidade das grandes instalações petrolíferas e a facilidade com que os fornecimentos internacionais de petróleo podem ser desarticulados sinalizam, tanto o equívoco de se atribuir uma baixa prioridade às necessidades de defesa e segurança, como o de o Estado abrir mão do controle de uma indústria petrolífera integrada.

A debilitação – e desmoralização – da Casa de Saud reforça a posição do Irã, com o qual, cedo ou tarde, os EUA terão que negociar para superar o impasse causado pela sua retirada unilateral do acordo nuclear de 2015 e, eventualmente, uma normalização das relações diplomáticas e comerciais, da qual a economia estadunidense se beneficiaria enormemente.

Em paralelo, o país persa consolida cada vez mais a sua posição como um dos polos do seminal processo de integração do bloco eurasiático encabeçado pela China e a Rússia, ao qual países como a Turquia e uma Síria pacificada também tendem a integrar-se.

Em essência, os houthis derrubaram o camelo saudita e, com ele, boa parte das estruturas de “governo mundial” estabelecidas naquela estratégica região do planeta.

x

Check Also

Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão ...