Valdai em tempos de pandemia: fragmentação global ou “nova ordem mundial”?

A 17ª reunião anual do Clube de Discussões de Valdai foi realizada em Moscou, entre 20-22 de outubro, sob condições restritas, devido à pandemia de Covid-19. O tema geral foi, precisamente, “As lições da pandemia e a nova agenda: como transformar a crise mundial em uma oportunidade para o mundo”. A conferência foi organizada em cinco sessões e um debate no plenário com o presidente russo Vladimir Putin. Apesar de haver poucas pessoas reunidas na sala de conferências, a maioria das palestras e debates, com especialistas da Rússia, China, Índia, Coreia do Sul, Austrália, Alemanha, EUA e outros países, foram transmitidos ao vivo por vídeo. Alguns dos temas levantados foram: os efeitos da pandemia na economia e no comércio global; haverá mais “desglobalização” e fragmentação?; haverá mais competição global pelo poder, centrada nos EUA e na China, ou um caminho para mais “plataformas de cooperação multilateral”?

Outras sessões discutiram o combate à pandemia, as futuras guerras tecnológicas e a interconexão entre a pandemia e as mudanças climáticas, significativamente intitulado “O clima global, agenda e neocolonialismo do carbono”. Este último centrou-se na questão do “ciclo do carbono”, onde a Rússia poderia desempenhar um papel central no manejo da captura de carbono. O consenso foi de que, embora haja uma comunicação aberta entre a comunidade científica no Oriente e no Ocidente, o problema é frequentemente criado por formuladores de políticas no Ocidente, que enfocam apenas o chamado “acordo verde” (Green Deal), desconsiderando o papel que a Rússia, com seu potencial para a silvicultura e a energia nuclear, poderia desempenhar no futuro.

Guerra Fria 2.0?

A sessão “Guerra Fria 2.0?” foi dedicada aos conflitos estratégicos emergentes, com ênfase na rivalidade EUA-China. Algumas questões-chave: É possível uma bipolaridade? E o que isso significará para outros atores na arena internacional? Como seria o confronto? Quais as chances de se alcançar um equilíbrio nas relações bilaterais? A sessão foi moderada por Timofei Bordachev, diretor de Programas do Clube de Discussões de Valdai. Durante o debate, vários especialistas dissertaram sobre o “declínio” do modelo de financiamento neoliberal dos EUA, contrastando-o com o modelo econômico chinês, capaz de “organizar a produção” e integrante de organismos multilaterais, como o BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai, e criador do Banco Internacional de Infraestrutura Asiática (AIIB).

Todos os palestrantes criticaram veementemente a política de sanções dos Estados Unidos, como as decretadas contra o Irã, dirigida não só contra europeus e empresas, mas também contra todos os países da Ásia com laços comerciais mais fortes com o Irã, casos da Indonésia, Índia, China e outros. O deputado russo Viacheslav Nikonov, do Comitê de Ciências e Educação da Duma, enfatizou que “enfrentamos a 34ª rodada de sanções”, mas afirmou que, no longo prazo, a China e a Rússia estão “melhor equipadas do que a União Soviética era”, qualificando o sistema estadunidense como “disfuncional”.

Em uma sessão com alguns dos principais cientistas russos, como o diretor do Instituto de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, Alexander Gintsburg, foram discutidos detalhes sobre a vacina anticoronavírus “Sputnik”, que está na terceira e penúltima fase de testes clínicos. Segundo Kirill Dimitriev, CEO do Russian Direct Investment Fund, que apóia as pesquisas do Instituto, há a expectativa de que até 70% da população russa esteja vacinada nos próximos 10-12 meses. Segundo ele, a Rússia está trabalhando em estreita cooperação com países como Brasil, Venezuela, Arábia Saudita e Coreia do Sul. Gintsburg também relatou a opinião favorável da revista científica britânica The Lancet sobre as pesquisas russas de vacinas, apesar de muitos meios de comunicação tentarem minimizar a sua importância. “O conhecimento fundamental pertence à humanidade”, afirmou.

Putin e o papel do Estado na nova ordem emergente

A pandemia também foi o tema central do discurso de Putin, que ressaltou também o papel vital do Estado. O presidente observou que “a luta contra a ameaça do coronavírus mostrou que apenas um Estado viável pode atuar efetivamente em uma crise, apesar de muitos afirmarem que o papel do Estado no mundo global está diminuindo e, no futuro, ele será totalmente substituído por algumas outras formas de organização social”. Putin destacou que “nós sempre consideramos um Estado forte como uma condição básica para o desenvolvimento da Rússia. (…) O que torna um Estado forte é a confiança que os cidadãos nele depositam. A confiança é a base mais sólida para o Estado”.

Outra questão abordada por ele foi a nova ordem mundial que poderá emergir após a pandemia. Como frisou, “é importante preservar os mecanismos básicos de manutenção da segurança internacional, que se mostraram eficazes, isto é, a ONU [Organização das Nações Unidas], o Conselho de Segurança e o direito de veto dos membros permanentes”. Ele se referiu ao seu discurso na abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU: “A preservação dos fundamentos da ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial conta com amplo apoio no mundo.”

Em termos de relações de poder globais, ele observou: “A China está se movendo rapidamente para o status de superpotência. A Alemanha está caminhando na mesma direção, a República Federal da Alemanha tornou-se um importante ator na cooperação internacional. Ao mesmo tempo, os papeis da Grã-Bretanha e da França nos assuntos internacionais sofreram mudanças significativas. Os Estados Unidos, que em certo ponto, dominaram absolutamente o cenário internacional, dificilmente, poderão proclamar a ‘excepcionalidade’ por mais tempo. (…) Potências como o Brasil e a África do Sul etc. têm se tornado muito mais influentes.”

Política de segurança global

Putin expressou esperança de que os EUA recebam positivamente a sua proposta feita na ONU, de cooperação na linha de acordos cibernéticos bilaterais e multilaterais, além de progressos quanto a um futuro tratado de redução de armas, apesar de todas as rupturas estadunidenses. No debate, ele observou que, “nos últimos 20 anos, os nossos parceiros estadunidenses desmantelaram de forma consistente e muito fácil esse sistema: primeiro, o Tratado ABN [mísseis antibalísticos] e, depois, os tratados INF [mísseis de alcance intermediário] e Céus Abertos . E agora, há problemas com a extensão do novo tratado START [redução de armas estratégicas]”. O presidente sublinhou que “o mundo não terá futuro se não forem impostos limites à corrida armamentista. É nisso que todos nós devemos pensar, e é nisso que estamos incentivando todos os nossos parceiros a pensar”. Ele comentou que os EUA se retiraram sem nem mesmo tentar explicar: “Os nossos colegas europeus nos dizem, ‘deixem que eles se retirem, mas vocês não devem fazer o mesmo’. Os parceiros europeus gostariam de permanecer membros do Tratado de Céus Abertos, para mantê-lo intacto. A melhor solução seria que a verificação e o monitoramento fossem implementados por todas as partes de contato, de modo que nossos acordos sejam protegidos de forma confiável por esses sistemas de monitoramento.” Putin afirmou que era melhor preservar o tratado atual: “Se vocês perguntarem sobre a nossa posição, acho que é melhor não perder o que foi conquistado antes, mas avançar nas posições que já foram alcançadas pelas gerações anteriores, pelos líderes dos nossos países.”

Relações russo-alemãs

No tocante à Alemanha, e no contexto do recente caso Navalny, que quase arruinou as relações bilaterais, Putin enfatizou que, apesar dos problemas, “tivemos muito boas relações com a Alemanha no pós-guerra. Acho que isso se deveu em grande parte à República Democrática Alemã, a RDA, que era o principal aliado da URSS na Europa. Desenvolvemos relações muito boas, em âmbito pessoal e político e na esfera econômica. Sei que ainda há muitas pessoas por lá que simpatizam com a Rússia. E apreciamos isso… Aliás, a União Soviética desempenhou um papel decisivo na reunificação da Alemanha, ao contrário de alguns dos aliados ocidentais da Alemanha”.

Segundo Putin, a Rússia sempre teve “laços econômicos e até humanitários muito especiais com a Alemanha. Mesmo agora, a Alemanha é o segundo maior parceiro comercial da Rússia, em volume bruto. A propósito, costumava ser o primeiro, mas agora é o segundo, depois da China, pois nosso comércio com a China é o dobro do volume com a Alemanha. No entanto, existem mais de 2 mil empresas de capital alemão em nosso mercado. Temos um volume bastante grande de investimentos alemães e as empresas alemãs estão interessadas em trabalhar com a Rússia. Estamos felizes com isso, pois sabemos que são pessoas sinceras e interessadas em estreitar os laços com o nosso país. Eu me reúno regularmente com representantes de empresas alemãs… Os interesses mútuos estão no centro desta relação, não uma ambição de desempenhar um papel especial. E esse interesse mútuo não vai embora, independente da situação política atual, e vamos manter essas relações, não importa o que alguém faça”.

O futuro das relações Rússia – China

O presidente russo também deu grande atenção às relações russo-chinesas. Putin qualificou as relações com a China como de “um nível sem precedentes. Ambos se tratam com profunda confiança… nós estabelecemos laços duráveis, estáveis ​​e, o mais importante, eficazes em todos os níveis. Estamos trabalhando juntos na aviação e na engenharia de energia nuclear e no desenvolvimento das relações comerciais”. No ano passado, o comércio bilateral chegou a 111 bilhões de dólares… Estamos desenvolvendo infraestrutura, construindo pontes que nos unem no sentido literal da palavra… A China é uma grande acionista em uma série de grandes projetos russos de produção de gás natural e gás liquefeito (GNL)”.

Em termos de cooperação militar e da indústria de defesa, Putin enfatizou que as relações foram mantidas em uma escala significativa: “Alcançamos um alto nível de cooperação na indústria de defesa. Não estou falando apenas da troca ou da compra e venda de produtos militares, mas do compartilhamento de tecnologias… Sem dúvida, a cooperação entre a Rússia e a China está aumentando o potencial de defesa do Exército Popular Chinês, o que é do interesse da China, bem como da Rússia.”

E não deixou de comentar a ameaça dos EUA de implantar mísseis de médio e curto alcance na região da Ásia-Pacífico, o que tem gerado muita preocupação.

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