Urge um movimento “SOS saneamento”

Apesar de não contar sequer com uma fração da importância e da publicidade atribuída a pseudoproblemas como o aquecimento global, os impactos socioeconômicos e ambientais das deficiências de saneamento no Brasil justificam que o assunto seja discutido e rediscutido à exaustão. Por isso, é bastante oportuno o novo artigo do presidente do Instituto Trata Brasil (ITB), Édison Carlos, no jornal O Globo de 15 de julho, intitulado “Os sem saneamento”.

Ademais da sua oportunidade, as manifestações de Édison Carlos ganham relevância adicional pelo fato de ele não ser sanitarista, mas oriundo da indústria química (é químico industrial por formação), com vasta experiência em efluentes provenientes das indústrias do setor. Por isso, é particularmente salutar ler a sua avaliação de que, “por aqui, a prova mais concreta de que temos que voltar nossos olhos para nosso universo de país sócio e ambientalmente atrasado são os mais novos indicadores sobre o avanço do saneamento básico no Brasil, publicados pelo Ministério das Cidades”.

Segundo ele,

numa rápida interpretação de como anda o país no que há de mais básicom em atendimento ao cidadão, ou seja, no acesso à água tratada, coleta e tratamento de esgotos, vemos que 2 em cada 10 brasileiros ainda não recebem água potável. Na Região Norte, são 4 pessoas em cada 10, e no Nordeste, 3 em 10, ou seja, uma distorção enorme quando comparado ao Sudeste, onde mais de 90% das pessoas possuem o serviço.

E prossegue:

Apesar dos números de acesso à água potável serem alarmantes, o que dizer dos índices dramáticos do atendimento em coleta dos esgotos? É absurdo e incrível, mas pelos números divulgados para 2010, no Brasil, 54% da população ainda não são atendidos por coleta de esgoto. De 2009 para 2010, mesmo com uma maior cobertura da imprensa e debates com autoridades, conseguimos progredir apenas a inexpressiva cifra de 1,7 ponto percentual. (…)

Esta chaga do Brasil é social, mas derivada de uma gigante poluição ambiental. Do pouco esgoto que se coleta no país, os dados divulgados mostram que somente 38% são tratados, ou seja, a continuar neste ritmo a grande maioria dos esgotos do país continuará sendo jogada na natureza da forma que saem dos nossos banheiros. São bilhões de litros jogados in natura por dia sem tratamento, nos rios, bacias hidrográficas, lagoas e aquíferos brasileiros.

Evidentemente, por sua origem e posição, o presidente do ITB é cuidadoso nas críticas a essa brutal distorção de percepção dos verdadeiros problemas ambientais que afligem o País, tanto das autoridades como da sociedade de um modo geral, com a consequente desorientação da agenda política para o seu enfrentamento. Por isso, não faz qualquer comparação com a desproporcional atenção conferida a problemas inexistentes, como a suposta influência humana no clima global, ou ao sensacionalismo com que é tratada a questão do desmatamento. Ainda assim, ele não deixa a contundência de lado, quando afirma:

É possível dizer que o Brasil continuará a ser comparado, nos indicadores sociais e IDH – Índice de Desenvolvimento Humano -, muito mais com países africanos e asiáticos do que com os países desenvolvidos. Há crescimento destes serviços? Sem dúvida que há. O governo federal tem feito um esforço pela melhoria do saneamento, principalmente, colocando recursos significativos através do PAC, mas empresas e cidades não têm conseguido usar estes recursos em sua plenitude.

Segundo ele, em 2010, os investimentos totais em saneamento chegou perto de R$ 9 bilhões, R$ 1,1 bilhão a mais que no ano anterior. Porém, afirma, este valor está longe dos R$ 15-17 bilhões que precisariam ser aplicados para se cumprir a meta do Plano Nacional de Saneamento Básico, de estender o abastecimento de água e o tratamento de esgotos a toda a população até 2030.

O parágrafo final do artigo é um libelo implícito contra o descaso com o tema: “Avanços estão ocorrendo, mas insuficientes para a velocidade que o Brasil precisa em saneamento básico. Ainda existem mais de 2.800 cidades que sequer enviam suas informações sobre a situação dos esgotos, o que mostra o despreparo e falta de transparência de muitas autoridades.”

A cruzada pessoal do presidente do ITB é um mais que bem vindo reforço para a formação de uma massa crítica de conscientização sobre o problema, a qual possa redundar em iniciativas concretas para solucioná-lo de vez e apagar essa vergonhosa mancha na trajetória do Brasil para adentrar o século XXI como uma nação verdadeiramente civilizada.

Indiscutivelmente, a tarefa seria facilitada se, em lugar de se preocupar com problemas ilusórios e em obstaculizar desnecessariamente projetos de infraestrutura vitais para o desenvolvimento socioeconômico, os nossos valorosos ambientalistas se juntassem ao restante da população para, por exemplo, organizar um movimento “SOS Saneamento”. O meio ambiente – e a maioria da sociedade – agradeceriam penhorados.

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