Ucrânia e a guerra de informações

Nos últimos dias, uma grande histeria tem acometido a mídia ocidental, quanto aos acontecimentos na Ucrânia. Um exemplo foram as declarações do governo dos EUA, funcionários da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e militares ucranianos, de que um comboio russo de 280 caminhões, carregados com 2 mil toneladas de todo tipo de produtos, poderia ser usado como um pretexto para uma intervenção militar russa no Leste da Ucrânia. O argumento foi repetido à exaustão, a despeito do fato de Moscou ter insistido na urgência da ajuda humanitária, em cooperação com a Cruz Vermelha. Semelhante alarmismo atinge proporções que podem, efetivamente, deflagrar uma confrontação armada entre a Rússia e a Ucrânia, que nenhuma mente séria deseja.

Na Ucrânia, trava-se uma tremenda batalha em torno dos fatos e o que está, essencialmente, em disputa é o futuro da política de segurança europeia e o papel que a Alemanha pretende desempenhar na crise ucraniana. Em um comentário publicado no sítio do Clube Valdai, em 30 de julho, o veterano diplomata britânico Alastair Crooke fez uma interessante analise sobre o assunto. Além da sua vasta experiência no Foreign Office, Crooke foi assessor para assuntos do Oriente Médio do então chanceler da União Europeia (UE), Javier Solana, e membro do comitê formado pelo senador estadunidense George Mitchell para identificar as causas da Intifada palestina.

Crooke fez referência a um artigo do cientista social estadunidense Immanuel Wallerstein, no qual apresentou a tese de que um dos alvos na crise ucraniana é a Alemanha e a questão crucial de quanto o país está disposto a manter a sua dependência em relação aos EUA. No contexto da atual “brecha” nas relações bilaterais, Crooke qualificou o recente caso de espionagem estadunidense de autoridades alemãs como
o topo de um iceberg muito maior, que remonta à infiltração dos Estados Unidos na Europa do pós-guerra via OTAN. A política de segurança da UE, que, efetivamente, tirou das mãos dos europeus a definição efetiva de sua política de segurança. Tal política é de fato a política da OTAN, que é a mesma política de segurança dos EUA.

No artigo, Wallerstein vinculou diretamente o declínio geopolítico dos EUA e a tentativa de Washington de usar a crise ucraniana e o incidente do Voo MH17 para enquadrar os europeus, em especial a Alemanha. Para ele:

O problema básico é que os EUA estão, e já há algum tempo, em decadência geopolítica. E não gostam disto. Em realidade, não o aceitam. Certamente, não sabem como manejar este fato, ou seja, minimizar as perdas para os EUA. Então, continuam tentando restaurar o que é irrestaurável – a liderança estadunidense (leia-se hegemonia) no sistema-mundo. Isto faz dos EUA um ator muito perigoso. Não é pequeno o número de agentes políticos nos EUA que estão clamando por algum tipo de ação “decisiva” – seja lá o que isto significa. E as eleições nos EUA podem depender, em grande parte, de como os seus atores políticos jogam o seu jogo . (…) Isso é o que os europeus em geral e, agora, a chanceler alemã Angela Merkel, em particular, estão percebendo.

Os Estados Unidos se tornaram um “parceiro” bastante não confiável e, mesmo aqueles, na Alemanha e em outros estados europeus, que são nostálgicos em relação ao abraço do “mundo livre”, estão, relutantemente, se unindo aos menos nostálgicos e se debruçando sobre a questão de como sobreviver geopoliticamente sem os Estados Unidos. E isto os está empurrando para uma lógica alternativa, uma comunidade europeia que inclua a Rússia. (…) Da mesma forma em que se movem inexoravelmente nessa direção, os alemães e os europeus têm, no entanto, as suas hesitações. Se eles não podem mais confiar nos EUA, poderão realmente confiar na Rússia? E, o mais importante, poderiam fazer um acordo que os russos deveriam necessariamente observar e cumprir? Podemos apostar que isto é o que está, hoje, em discussão nos círculos internos do governo alemão, e não como reparar os irreparáveis laços de confiança com os Estados Unidos.

Para Crooke, o cenário descrito por Wallerstein é profundamente temido por figuras nos EUA, e ele argumenta que o MH17 e a crise ucraniana podem ser usados como oportunidades para “demonizar” as milícias do Leste da Ucrânia e o presidente Vladimir Putin, além de usar a perda de vidas de civis como pretexto para “derrotar as oposições alemãs e deixar Merkel sem alternativas, senão apoiar uma terceira rodada de sanções contra a Rússia”.

O diplomata observa que Moscou e Washington têm uma narrativa totalmente diferente sobre o incidente do MH17. Ao contrário dos EUA, os russos não apenas apresentaram imagens de satélites e gravações de radares de controle de tráfego aéreo, ao mesmo tempo em que o Ministério das Relações Exteriores da Rússia colocou dez questões não esclarecidas sobre as circunstâncias da queda do avião. A conclusão de Crooke é a de que assistimos a uma batalha gigantesca pelos fatos, bem como pela confiança dos líderes alemães (e de outros líderes europeus, incluindo a França, Itália e Áustria):

A Rússia já encaminhou privadamente todas as suas evidências à Europa. Será que a tática de [o secretário de Estado dos EUA] John Kerry, de anular todas as alternativas alemãs, poderá ser bem sucedida? (…) Mas, se ficar demonstrado, por meio de evidências circunstanciais, que os EUA têm se empenhado em levar a Europa a aprovar uma terceira rodada de sanções contra a Rússia, levando-a deliberadamente à beira de um conflito, isto terá um peso enorme junto à liderança alemã, que, como Wallerstein já destacou, vê os EUA como um ator perigosamente desnorteado e incoerente em sua política externa.

Jornalismo corrompido

A causa do alarde midiático tem relação com a corrupção sistêmica que caracteriza a grande mídia europeia, que, desde a eclosão da crise ucraniana, “se uniu e copiou a abordagem da grande mídia anglo-americana”. Esta é a tese apresentada, no último dia 14 de agosto, pelo respeitado jornalista holandês Karel van Wolferen, na ativa desde 1969 e professor aposentado da Universidade de Amsterdam, com artigos publicados em muitos grandes jornais de vários países.

Em seu artigo-libelo, intitulado “A Ucrânia: jornalismo corrompido e a fé atlanticista”, van Wolferen analisa as causas da atual corrupção da mídia europeia, concluindo que ela está ligada a uma fé profundamente enraizada no “atlanticismo”, que se tornou particularmente forte após o fim da Guerra Fria. “A falta de um jornalismo classicamente objetivo em relação à Ucrânia” tem as suas raízes no fato de que a mídia europeia tem copiado a “abordagem da grande mídia anglo-americana e tem apresentado ‘notícias’, nas quais insinuações e difamações se tornaram substitutas da reportagem propriamente dita”.

Como exemplo, ele destaca o caso do MH17, amplamente explorado pela mídia holandesa, entre outras, para apontar o dedo para Moscou. No Youtube e outras fontes da internet, os habitantes do local do acidente foram descritos como “criminosos” que não cooperaram, destacou Wolferen, o que para muitos comentaristas foi o suficiente para “confirmar a sua culpa”. Ele observou ainda que não houve um único comentário na imprensa ocidental que, ao menos, indicasse que “a crise da Ucrânia – que levou a um golpe de Estado e a uma guerra civil – foi criada pelo neoconservadores e por um grupo de fanáticos da ‘responsabilidade de proteger’ da Casa Branca, que, aparentemente, obtiveram carta branca do presidente Barack Obama”.

Em vez de um jornalismo investigativo sério, van Wolferen observou uma “indiferença editorial às pistas que possam prejudicar ou destruir a narrativa oficial”. Como exemplo, listou várias hipóteses que, do seu ponto de vista, poderiam ser úteis para se descobrir a verdade por trás da queda do avião da Malaysia:

A presença de dois jatos ucranianos próximos ao jato da Malaysia Airlines, no radar russo, poderia ser uma pista interessante, se eu estivesse investigando como jornalista (…). Isto é aparentemente corroborado pelas reportagens da BBC com testemunhas oculares, que afirmaram ter visto caramente outro avião, um caça, próximo ao avião de carreira abatido, no momento em que houve a explosão no céu.

Van Wolferen se referiu, igualmente, a um dos principais inspetores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), Michael Bociurkiw, que “descreveu, no [programa da televisão canadense] CBC World News, que duas ou três peças da fuselagem estavam ‘realmente perfuradas’ e afirmou que ‘se pareciam com tiros de metralhadora'”.

Por último, ele fez referências às “gravações de voz e radar alegadamente confiscadas da torre de controle aéreo de Kiev”, que poderiam esclarecer porque “o piloto da Malaysia saiu de curso e desceu rapidamente, pouco antes de o seu avião explodir, além de identificar até que ponto é verdade que os controladores aéreos de Kiev foram dispensados, pouco após a queda do avião”. As autoridades estadunidenses com acesso a imagens de satélite devem ser cobradas a mostrar, com urgência, “as evidências que alegam ter para afirmar que uma bateria de mísseis Buk estaria nas mãos de rebeldes, bem como demonstrar os ditos envolvimentos russos, além de solicitar que as autoridades estadunidenses expliquem porque não o fizeram ainda”.

Nenhum desses fatos podem ser apresentados pela grande mídia europeia. Van Wolferen a chama de “mídia européia cativamente leal a Washington”, o que tem as suas raízes na tradição do “atlanticismo”. Para ele, trata-se de “uma terrível doença para a Europa, que promove a amnésia histórica, uma cegueira voluntária e uma raiva política perigosamente errônea”. Ele vai além, ao apontar que “a OTAN tem (…) sido uma vulnerabilidade para a Europa, uma vez que tem impedido o desenvolvimento de uma política externa e de defesa europeia, articulada e autônoma, forçando os estados membros do bloco a se tornarem instrumentos a serviço do militarismo estadunidense”.

Foi o ex-presidente Bill Clinton que, segundo Wolferen, por motivos puramente eleitorais, impulsionou “uma expansão da OTAN” após o fim da Guerra Fria, levando a uma situação em que a organização militar duplicou o numero de membros. Um movimento que, como destacou, foi considerado pelo “famoso especialista estadunidense sobre a Rússia, o ex-embaixador George Kennan – pai da política de contenção da Guerra Fria -, de ‘o erro mais fatal da política estadunidense em toda a era pós-queda do Muro de Berlim”.

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