Ucrânia: a farsa de uma nova Guerra Fria – e o risco de uma "quente"

Já se disse que as repetições da História costumam ocorrer, primeiro, como farsa e, depois, como tragédia. A crise em curso na Ucrânia oferece ambas as possibilidades, tanto aos que se apressam em estabelecê-la como o pivô de um renovado confronto Leste-Oeste, como para os incendiários empenhados em ações provocativas que, como a sequência de ações irrefletidas que, há quase cem anos, deflagrou a I Guerra Mundial, envolvem o risco de provocar incidentes capazes de deflagrar um conflito de grandes proporções. Como cenário de fundo, a crise sistêmica global, que as elites dirigentes do Ocidente se recusam a enfrentar da maneira adequada, sendo agravada pela escassez de estadistas de visão ampla em serviço nas principais potências mundiais e, ironicamente, tem no presidente russo Vladimir Putin – vilipendiado e vilanizado pela maioria dos governos e da mídia ocidentais – um dos raros chefes de Estado ou governo com uma visão clara do seu caráter de impasse civilizatório e uma proposta concreta para a sua superação.

Na realidade, a crise na Ucrânia decorre principalmente da falta de uma atitude firme da Europa para controlar e reformar os mercados financeiros depois da bancarrota do Lehman Brothers em 2008. No vácuo de lideranças e de iniciativas políticas efetivas para o estabelecimento de um novo marco de cooperação nas relações internacionais, que permita a superação definitiva dos cenários de “soma zero”, nos quais os ganhos de uns impliquem em perdas para outros, aventureiros piromaníacos como os “neoconservadores” estadunidenses aproveitam para impor a sua agenda belicista às políticas de Washington, com a Europa se mostrando incapaz de colocar os seus próprios interesses adiante da sua subordinação histórica aos EUA.

Infelizmente, para a Europa e o mundo, o Velho Continente não dispõe de um único estadista com a estatura política sequer aproximada de um Charles de Gaulle, que se empenhou em manter pelo menos a França como um reduto de resistência à hegemonia absoluta dos EUA, como líderes incontestes do bloco ocidental durante a Guerra Fria. Seguramente, o velho general se horrorizaria ao contemplar a incapacidade e a impotência dos seus sucessores recentes, paralisados entre escândalos de corrupção política e concupiscência e desprovidos de qualquer visão estratégica diferente da de um reposicionamento da França como linha auxiliar de um novo impulso neocolonial encabeçado pelos EUA, no âmbito de cenários de “guerras de recursos” e outros delírios imaginados pelos estrategistas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Por sua vez, a Alemanha continua confinada ao papel de águia que se conforma com os voos rasantes de uma galinha, encolhida em sua síndrome de potência ocupada pelos vencedores de uma guerra que terminou há quase 70 anos e incapaz de atuar com o peso da sua força econômica, para atuar como dínamo motriz de um vasto processo de integração física e econômica do eixo eurasiático, em estreita sintonia com a Federação Russa. Em vez disto, na crise ucraniana, a chanceler Angela Merkel se dispõe ao deplorável papel de mensageira dos arroubos insultuosos que vêm de Washington, ameaçando Moscou com sanções econômicas e políticas, se o Kremlin não se curvar ao fato consumado criado em Kiev, com o golpe de Estado que derrubou o presidente Viktor Yanukovich.

Em Washington, o presidente Barack Obama e o secretário de Estado John Kerry atuam como meras marionetes de uma agenda de confrontação com Moscou, ostensivamente ditada pela facção “neoconservadora” encastelada no Departamento de Estado e no Pentágono, brandindo a ameaça da imposição de sanções à Rússia e com ações provocativas, como o envio de aviões e navios ao Báltico, à Polônia e ao Mar Negro.

O espírito prevalecente na capital estadunidense foi sintetizado pelo ex-vice-presidente Dick Cheney, um dos mais agressivos expoentes da facção “neocon”, que criticou Obama por não deixar claro a Putin que a “opção militar” estaria à mesa, usando a expressão de força tão cara aos belicistas estadunidenses.

Em resumo, a deplorável omissão da liderança europeia frente à realidade da crise sistêmica, recusando-se a qualquer iniciativa efetiva para reestruturar o sistema financeiro internacional e relançar uma recuperação econômica em escala global, a partir de um eixo de desenvolvimento eurasiático, como proposto por Putin (ver nota seguinte), tem sido um fator crucial na perpetuação da crise. Ainda pior, pode ensejar as condições que propiciem uma perigosa escalada das tensões geopolíticas, levando a um cenário de conflito militar de consequências verdadeiramente imprevisíveis.

Uma perfeita síntese de todo o imbróglio foi oferecida pelo ex-diplomata russo Vladimir Yakunin, atual presidente da megaempresa estatal Ferrovias Russas (com mais de um milhão de funcionários em sua folha de pagamento), em uma ruidosa entrevista publicada no Financial Times de 6 de março, na qual acusou os EUA e uma “oligarquia financeira global” pela mudança de regime na Ucrânia. Segundo ele:

Nós estamos testemunhando um vasto jogo geopolítico, cujo objetivo é a destruição da Rússia como oponente geopolítico dos EUA ou dessa oligarquia financeira global. Uma análise da CIA [Agência Central de Inteligência]… descreveu três cenários para o desenvolvimento da situação geopolítica. O cenário mais aceitável considerado era um no qual se criava um certo governo mundial – e a concretização deste projeto está em linha com o conceito de dominação global que está sendo implementado pelos EUA. Nós vimos isto no Iraque, no Afeganistão, na Iugoslávia e no Norte da África. Hoje, as fronteiras da efetivação desta doutrina se moveram para a Ucrânia.

Fazendo pouco caso das ameaças de sanções brandidas contra Moscou, Yakunin defende como sendo “absolutamente correta” a decisão de Putin de pedir ao Parlamento russo a aprovação do envio de tropas russas à Ucrânia, se necessário, e fez um duro ataque à miopia histórica dos estrategistas estadunidenses:

Por um lado, [a decisão] criou um equilíbrio e mostrou ao mundo que a Rússia não deixará pessoas em dificuldades diante de foras-da-lei enlouquecidos e num estado de anarquia, quando as autoridades praticamente deixaram de existir. Pelo outro, ele estava, absolutamente, contando que isto seria um sério fator de deterrência para aqueles idiotas.

Aqui, estamos falando de pessoas que têm tido uma civilização desde os tempos em que se escrevem livros de História [referindo-se às origens do Estado russo, em Kiev, há mais de dez séculos]. A Rússia não poderia deixar de reagir. O presidente não poderia deixar de reagir. O seu próprio povo não o perdoaria por isto, para não falar da Ucrânia.

O próprio jornal observa que, como Yakunin é um dos assessores mais próximos de Putin, as suas palavras refletem a visão do Kremlin.

Enquanto isso, a OTAN mobiliza aviões de combate para a Lituânia e a Polônia, enquanto um destróier lança-mísseis estadunidense se apresenta no Mar Negro, para “manobras” com as marinhas da Bulgária e da Romênia, nas vizinhanças da Crimeia. Do outro lado, a Bielo-Rússia se oferece à Rússia para mobilizar 15 aviões de combate adicionais, para compensar as aeronaves da OTAN no Báltico. Se a escalada prosseguir, poderão não ser exageradas as comparações com a escalada de provocações e mobilizações militares que deflagrou a I Guerra Mundial, em junho-julho de 1914.

No momento, as atenções estão voltadas para o referendo do próximo dia 16, quando a população da Crimeia deverá decidir o status da região autônoma, onde se situa a sede da Frota do Mar Negro da Marinha russa. Antecipando-se ao pleito, o Parlamento local já se decidiu pela independência da Ucrânia. Como a aprovação popular é considerada certa e a iniciativa é rejeitada em peso pelo Ocidente, a próxima semana promete novos e agitados capítulos dessa pantomima potencialmente trágica.


(foto: Sergei Supinsky/AFP)





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