Terapia experimental combate câncer com células do paciente

No final de 2015, Judy Perkins, uma engenheira estadunidense residente na Flórida, recebeu um diagnóstico terrível: um câncer de mama em estágio avançado lhe assegurava apenas três meses de vida. Entretanto, dois anos e meio depois, aos 52 anos, ela não apenas continua viva mas, principalmente, livre de qualquer vestígio do tumor maligno. O que fez a diferença foi uma terapia experimental potencialmente revolucionária, que emprega células imunológicas do próprio corpo da pessoa doente para combater os tumores.

“É o tratamento mais altamente personalizado que se possa imaginar”, diz à BBC o Dr. Steven Rosenberg, chefe de cirurgias no Instituto Nacional do Câncer dos EUA (BBC Brasil, 04/06/2018).

O princípio da terapia envolve uma análise genética do tumor, para a identificação das mutações que podem tornar o câncer “visível” ao sistema imunológico do corpo, possibilitando um combate efetivo ao tumor pelos glóbulos brancos do sangue, as células imunológicas de defesa do corpo humano.

Em seguida, os glóbulos brancos são analisados para separar os que se mostram capazes de atacar o tumor, os quais são reproduzidos em laboratório e, posteriormente, reinjetados no corpo do paciente, juntamente com medicamentos que “retiram os freios” do sistema imunológico.

No caso de Judy, o seu tumor tinha 62 anomalias genéticas, das quais apenas quatro se revelaram potencialmente neutralizáveis pelo sistema imunológico. Ela, então, recebeu cerca de 90 bilhões das suas próprias células, que conseguiram destruir o tumor.

“Cerca de uma semana depois [do tratamento], eu comecei a sentir algo. Eu tinha um tumor no peito e conseguia senti-lo encolher. Uma ou duas semanas depois, ele desapareceu”, disse Judy à BBC.

A terapia com essa “droga viva” ainda necessitará de um grande número de testes para confirmar a sua validade, mas ela representa uma autêntica mudança de paradigma no combate ao câncer.

“É altamente experimental, e estamos apenas começando a aprender a aplicá-lo, mas potencialmente ele vale para qualquer câncer. Ainda há muito trabalho a fazer, mas há potencial para uma mudança de paradigma no tratamento de câncer – uma droga sob medida para cada paciente. É muito diferente de qualquer outro tratamento”, assegura Rosenberg.

De qualquer maneira, os resultados podem ser considerados “extraordinários”, como afirma o Dr. Simon Vincent, diretor de pesquisas da Breast Cancer Now, entidade britânica dedicada ao financiamento de pesquisas sobre o câncer de mama.

“É a primeira oportunidade de ver esse tipo de imunoterapia [agindo] contra o tipo mais comum de câncer de mama. Potencialmente, pode-se abrir uma área completamente nova de tratamento para um grande número de pessoas”, disse ele.

A descrição do caso de Judy Perkins foi publicada na revista Nature Medicine.

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