Síria: os limites da "guerra de recursos"

A despeito da histeria causada pelos vetos da Rússia e da China a uma nova resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre o conflito na Síria, eles deveriam ser esperados por qualquer observador minimamente atento do cenário global. De fato, a intervenção internacional na Líbia, encabeçada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que transformou a “zona de exclusão aérea” aprovada na Resolução 1973 do conselho em uma devastadora campanha de bombardeios aéreos, apenas os mais ingênuos – ou hipócritas – poderiam esperar atitudes diferentes das duas potências.

Os vetos sugerem que a estratégia de conflitos pelo controle de recursos naturais, evidenciada na Líbia, em substituição à década da “guerra ao terror”, demonstra estar chegando a um limite prematuro, na atual crise na Síria. Visivelmente, o eixo anglo-americano e seus aliados europeus estão tentando modificar o status quo da região, para manter o controle da estrutura do poder mundial, e tanto a China como, principalmente, a Rússia, percebem que uma nova intervenção na Síria e, a seguir, no Irã, implica em ameaças diretas às suas fronteiras estratégicas. Assim, a Síria é o palco de uma espécie de um novo “Grande Jogo”, independentemente das simpatias ou antipatias pelo regime de Bashar al-Assad.

Nas semanas anteriores à votação, o chanceler russo Sergei Lavrov já havia deixado bem claros os motivos da posição russa, como em uma entrevista à rede de televisão australiana ABC, em 31 de janeiro: “Infelizmente, a comunidade internacional escolheu um lado na Líbia e nunca permitiríamos que o Conselho de Segurança autorize algo similar ao que aconteceu na Líbia… seria um desastre para o mundo árabe e para a política mundial.”

No mesmo tom, o premier Vladimir Putin se dirigiu a uma plateia de líderes religiosos russos, em uma reunião ocorrida em Moscou, em 8 de fevereiro, afirmando que o mundo se defronta com um “culto da violência nas relações internacionais”. Em clara referência à atitude dos membros da OTAN, ele afirmou, com uma advertência: “É claro que nós condenamos toda a violência, independentemente da sua origem, mas não se pode agir como um elefante numa loja de louças… Apoiem-nos, assessorem-nos, limitem, por exemplo, a sua capacidade de usar armas, mas não interfiram em neenhuma circunstância (Reuters, 8/02/2012).”

Uma demonstração de que as preocupações russas e chinesas são fundamentadas foi proporcionada pelo ex-analista da CIA Philip Giraldi, em um artigo publicado ainda em dezembro passado, no sítio The American Conservative. Segundo ele, a intervenção ocidental na Síria já é muito maior do que o admitido:

Aviões de guerra sem identificação da OTAN estão chegando a bases militares turcas, próximas a Isenderum, na fronteira Síria, entregando armas dos arsenais do falecido Muamar Kadafi, bem como voluntários do Conselho Nacional de Transição líbio, com experiência em atiçar voluntários locais contra soldados treinados, uma habilidade que adquiriram no confronto com o exército de Kadafi. Iskenderum é também a sede do Exército Livre da Síria, o braço armado do Conselho Nacional Sírio [SNC, na sigla em inglês]. Instrutores das forças especiais francesas e britânicas estão no local, apoiando os rebeldes sírios, enquanto a CIA e o [Comando de] Operações Especiais dos EUA estão proporcionando equipamentos de comunicações e inteligência, para apoiar a causa rebelde, permitindo que os combatentes evitem concentrações de soldados sírios (The American Conservative, 19/12/2011).

Em sua coluna de 9 de fevereiro no Asia Times Online, o correspondente Pepe Escobar descreve o SNC como um “grupo-guarda-chuva” sediado em Paris, cuja credibilidade dentro da Síria é bastante questionável. Por sua vez, o chamado Exército Livre da Síria (FSA, em inglês) se compõe de “desertores sunitas, a maioria fragmentada em gangues armadas, algumas delas diretamente infiltradas por mercenários do Golfo”. Segundo ele, “até mesmo o relatório da Liga Árabe teve que reconhecer que o FSA está matando civis e forças de segurança, além de bombardear prédios, trens e oleodutos”.

Diante de tais fatos, soam cínicas as manifestações de falsa indignação de Washington e das capitais europeias, proferidas após os vetos russo e chinês. E as mesmas considerações valem para os editoriais e comentários de jornais e analistas brasileiros, que têm criticado a posição do Itamaraty sobre o conflito sírio.

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